sexta-feira, 2 de outubro de 2015
Malditos constructos
Legendas, rótulos, julgamentos: é o envolvimento de duas coisas que na verdade são uma e nenhuma. As duas coisas (o sujeito e o objeto) são criações baseadas na cegueira sobre a unidade das coisas. A realidade última é que as coisas não tem substância própria, são constructos, impermanentes
e frágeis.
A realidade última, em si, não tem substância própria.
Então porque o sofrimento, enquanto a felicidade não pode depender de nada?
Não seria o sofrimento apenas possível na dependência de constructos pessoais?
Ao depender de razões, fórmulas e conceitos, seus passos seguem tortuosos em estreitos becos labirínticos, precisando sempre regressar ao ponto de partida. É o eterno recuo ao porto seguro de todos os medos, é o canto onde se acua.
Dominando-se perante o vendaval de pensamentos, sem a nenhum deles atrelar-se, não se vê barreiras nem diferenciação. Aí a felicidade reside.
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
caminhos paralelos
Bode expiatório do amor
A espera seja lá do que for...
À espera...
de mais dor...
Nos interconectamos somos organismos
meu espirro mata um chinês na China.
Meu catarro,
minha pereba ardente,
meu desespero retumbante
de me amar de fora para dentro.
Humanidade despedaçada em milhares
em infinitas
próprias verdades,
vazias de substância própria.
Inquebrantável nobre verdade.
Dor.
Se quer inovar a dor
acredite nela
com fé
com louvor.
Inove a dor.
Perca-se nos veios vômitos...
Lambuze-se de loucura,
Escorra como lágrima
Tudo o que outrora teve.
Tudo o que outrora fora.
Sinta-se.
O que vive morre.
AGORA.
Há algo que se defina para que possa deixar de haver algo?
Um momento incansavelmente inovador não tem segredo.
Seu segredo é não sê-lo.
A sua verdade é não deixar de vivê-lo.
Lembranças são pensamentos do agora. Existem só na nossa imaginação.
Não personifique.
Nem arquetipize.
É pouco, mas é muito.
Somos nós.
Cada um.
Cada um que tiver algum controle.
Ou que pense ter.
Amor.
domingo, 22 de março de 2015
Mais um louco
Não por querer correr entoando um grito de celebração à vida emanado das forças da Terra em direção ao Universo, mas por não fazê-lo.
A loucura que me arrasa não é devido a vontade insana de me desfazer em partículas de felicidade arrastadas pelo vento e espalhadas sobre a copa de centenas de árvores nas montanhas. A loucura que me arrasa é devido a insanidade de levar a vida como prisioneiro da própria mente.
Quero ver quem valoriza um ato insaciável e mesmo inconcebível de marchar ritualisticamente em torno das bases naturais da existência agradecendo e louvando glórias e ruínas. Normalmente, ainda que dentro de mim isto ocorra, externamente não cabe no senso coletivo mais do que manifestações tímidas sobre eventos irrelevantes. E sempre com a pompa artificial de quem homenageia por obrigação e falsa concordância - de quem não sabe o que faz e assim não faz nada além de reproduzir qualquer coisa coercitivamente à margem de qualquer interesse real. É a humanidade morrendo.
E eu sou louco.
Quando penso em meu corpo incendiando em chamas altas, berro, urro e brado incrível poder, não malgrado nem a mim nem a vida, tampouco desejo extirpar-me ateando fogo e queimando até a morte, até porque isso já ocorre, porém sem o calor vital, sem o grito de guerra aos impedimentos do próprio ser e sem consciência de vida e de morte cada instante.
Quando penso em me diluir como fruta apodrecida na velocidade das águas de um rio, correndo e tombando, desfragmentando o ser, em um eterno vir-à-ser, penso que de meu anterior estado liberto-me, alcanço a criatividade do contato total com o planeta, com o universo, em cada onda que quebra em cada praia, em cada costa, em cada pedra.
Quando penso em encher de terra o espaço entre unhas e dedos e entupir de barro e de lama os poros do meu corpo e quem sabe adormecer enterrado sem preocupações que sejam, penso que este já é um estado intrínseco do meu ser; só não o assumo, o reconheço, soterrado que estou, de fato, por todos os dejetos pavorosos e medonhos de uma mente coletiva e confusa, como também completo este ciclo antropofágico com rigoroso regozijo e sôfrego gozo. Contumaz ao corroer da alma - cheia de mercúrio, repleta de ouro, impenetrável diamante. Imberbe, decrépito. Inqualificável.
A humanidade está mental, física e espiritualmente doente. Neste contexto, ser ou estar louco é ousar, é não respirar ares putrefatos e gases tóxicos e estar em busca de nesgas por onde escapa o puro de alívio e morte.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Desobstrução (4.12.5)
Momento da Morte
Momento da morte
costuro tecidos rasgados ao avesso
trago feridas ardidas abertas
dependurada a pele fedida inversa
larvas ardem quentes
nos ânus (no âmago)
das almas
perversas
deito no travesseiro de cinzas
ouço os passos do vagar de sapatos
de sombras que habitam o mesmo recinto.
No hálito que vai e vem no som de gruta em que respiro
continuo existindo embora mentindo continuo sorrindo.
Inspiro os próprios ossos tornados em pó.
cheiro os ácaros molhados que arranham as narinas do enigma da esfíngie
Rasgo o travesseiro e me enfio em pó.
Que a sombra todos sabem usa máscara e esconde o que finge.
Estico carne muscular até que as fibras não agüentam
As moléculas se arrebentam. O ar se extingüe.
Para não haver perpetuar nem resistência não sinto o corte.
O abate é um dia de sorte
ver chegarem as ondas que espumam o sofrimento
e empurram no movimento
Que me leva ao momento
da morte!
segunda-feira, 12 de maio de 2014
Novamente no submundo dos crocodilos
Na família,
no trabalho,
na rua,
na vila,
longe de casa,
na realidade humana, onde o medo da própria inexistência nos torna ferozes e baixos.
Na intenção patética em afirmar o mínimo do que se acredita ser, sendo esta intenção capenga e ridícula, o ego vibra ao máximo, ainda assim, nada mais é que asqueroso.
Na podridão em que resvala, diz querer ir além e crescer, sem jamais admitir estar vendo a casca de banana.
Maldade é o último recurso do desespero.
O silêncio ainda é a mais poderosa arma de quem atravessa o lodo para chegar do outro lado.
E com um grito imenso e físico começo.
Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhrrr!!!!!
Só o grito parece salvar o elo vazio do espaço pulsante da vida impossível!
Baixo alguns tons e fico um pouco reflexivo... na verdade deprimido... por nada.
Não há pensamento nem análise a se fazer. Apenas culpa. É a parada obrigatória do impulso liberto de toda amarra.
Obrigado por nada.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
No submundo dos crocodilos
Bocarras cheias de dentes liquidificam tudo o que sua mãe lhe ensinou.
Vigilantes, nunca dormem em serviço. Mais do que viver: estão à serviço de suas manias.
Ansiosos, engenhosos, rápidos, precisos.
Já se vê seus esqueletos automaticamente eretos batendo continência às cifras invisíveis.
Seus sorrisos são pelas mentiras de suas próprias vidas e por não terem outra opção mais hipócrita do que adorar o medíocre. Suposta humildade, glorificam e se encharcam de orgulho de serem melhores do que aqueles por eles mesmos considerados ridículos.
Tal submundo não é onde minha mãe imaginava onde eu ia parar.
Se soubesse nem me parido teria.
Ou não teria me ensinado só parte.
A outra parte, paterna, é o próprio submundo me castigando pela imaturidade e ingenuidade.
Um crocodilo me arranca a perna, a devora, ensanguentado, não faço nada além de prolongar-me em choque. A realidade é alucinante, voraz, feroz, selvagem, cruel, sem compaixão, mas profundamente real! Difamação é elogio, na boca de suntuosos escravos da auto-negação. A justiça, neste submundo, é um tapete bem puxado! Que aprendizado melhor senão o tempo perdido ouvindo palavras tão vazias?... A filosofia são fundilhos rasgados e uma cara deformada pelo choro, pena de si e pela inútil beleza que se aproxima amargamente do fim.
No mundo dos crocodilos, o melhor é o pior e o pior é o melhor. E a comissão é de 4%!
terça-feira, 11 de junho de 2013
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Feliz ano novo? ou Exelentes verdades
Esmagado respiro o chorume e bebo com nervo.
Lancinante delírio.
e nos restos vivos seu mundo fedido e salgado vigora,
papilas gustativas ardem ácidas enquanto o universo nos devora vivos.
[EM CONSTRUÇÁO]
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Balada de uma punhalada só
Não te ouço.
Não te sinto.
Você some...
Sua imagem se esvai.
Me despedaço
e o espaço me consome.
Sua voz já se apagou.
Seus cabelos...
Onde estou?!
Tudo se foi!
Nada restou!
Esfrego e sangro a carne à procura do que for você!
terça-feira, 12 de junho de 2012
domingo, 20 de maio de 2012
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Boa noite
Olá, noite.
Imensidão!
E agora, onde as perguntas estão?
Pequenas e envergonhadas, fogem: já foram importantes.
Absorto.
Profundamente livre de mim e de tudo, nada, porém, me escapa, nem eu, nem tudo o mais.
No calor do dia vivem a procurar, porém sem jamais achar e sem nem saber o quê.
À noite sonham ainda mais.
Agora que chegas, continuo a sorrir e dramatizo. Sábio e insano, incerto e audaz, sem motivo e sem querer, que não há porque do o que.
Então, calo-me.
E a todos, desejo boa sorte!
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Máxima Schillingspringerpitanguiana 9
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Sobre os macacos
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Sou?

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Enfia!
Quem sou eu?
Quando a conheci...
Se esvai
Difícil adeus
Agora não rio, que você me aparece na ponta do meu sorriso.
Se eu quiser ser feliz, vou ter que te perdoar,
ainda não entendi direito o que foi que aconteceu entre nós dois,
Se eu quiser ser feliz, vou ter que me aprofundar em mim
e me assustar com tudo aquilo de bom...
e me assustar... novamente...
até ser feliz, livre e feliz,
talvez louca e feliz, talvez só e feliz,
mas melhor do que isso aqui,
por favor!
Depoimento
Nome: Sr. de Alencar
Chame apenas de Alencar, pois é o que me difere do resto imundo da humanidade. Sim, sou triste, sou frustrado. Esposa jaz morta há 30 anos e eu com 69 resisto em acreditar que a vida é boa. Uma ova! Mentira! Comecei assim dizendo para terem idéia de como sou: um falso cidadão numa falsa sociedade. Esperanças? De me processarem, já fiz tanta coisa ilícita, dei até pista pra me pegarem. Monotonia. Uma aventura agora cairia bem - digo desde jovem, quando arrumava confusão com todo mundo, louco pra reagir e mostrar que eu tinha razão em alguma coisa. Agora o que custa dar um tapa na bunda duma dama - de classe - nos corredores chiques dum teatro caro? Um tapão! Tumulto, gritos, escândalo, indignação, ameaças e risos - meus, é claro. Rir pra não chorar. Exemplo do que cabe a um velho louco, nunca fiz, pra minha maior frustração.
Volto do escritório sujo e velho, repleto de estagiários retardados e incompetentes - jovens sem desejos de prosperar na vida; pego um ônibus também sujo, também velho, cheio de sovacos, eu sufocado, dor de cabeça, corpo fraco, pulmão cansado, pele seca tal qual meus olhos; chego num apartamento pequeno (o terceiro em 2 anos, visto que a cada dia preciso de mais remédio), em Copacabana, onde divido, num prédio medíocre de 10 apartamentos por andar, o meu, o 307, com o ensurdecedor barulho das brigas, dos carros, dos latidos e com a presença inevitável e constante de animais, como o síndico (que insiste em achar que sou eu que ligo alto o rádio que nem tenho), algum cliente desesperado (nunca dei meu endereço a ninguém), os ratos e as baratas. Mas moro lá só eu - sujo e velho.
Não sou feliz nem finjo. Não sorrio pros outros nem dou bom dia a ninguém. Durmo com vontade de chorar. Só não choro porque aí seria o fim: só se lamentam as perdas e as dores e eu já sou a ruína derradeira da minha vida. Quem choraria por mim? Querer receber um agrado na cabeça e nos cabelos já deitado, alguém que me cobre, apaga a luz e continua acordado, me deseja boa noite, sorri e sai do quarto no escuro, proprietário dos problemas de adulto que desconheço aliviado, mesmo estando velho e caquético, me seria um conchego sem fim e aquela sensação de criança de que haverá algo novo e gostoso para se descobrir amanhã.
16 de Abril de 2004
O Tiro que dei
Eu não tenho nada pra falar.
Hoje é um dia mudo.
Hoje é um dia surdo.
Quando eu ando pelas ruas
O céu está todo nublado
E a sensação que tenho
É a do ar estar pesado
Apesar de ter gente e carros
Apesar de ter carros e obras
Apesar de ter obras e gente
Apesar de ter até tiros
Não os ouço. É tudo silencioso.
Dá a impressão de que estou numa sala - silenciosa
Com o cadáver da minha vítima
Estendido no chão na minha frente
E eu sentado o dia inteiro
Contemplando o tiro que dei.
Poemerdinha
Minha mente vazia
Não pensa em nada.
Minha bunda em cima
Da privada faz força.
Abro a rosca
Sobre a água
Essa água parada
Onde não há mosca.
Neste momento ponho pra fora
Todas as cargas de um dia inteiro.
A flor do intestino
Também é a flora
De um corpo que murcha
Neste banheiro.
A entrada é na boca.
Meu corpo está nu.
E para os líquidos
Há outra saída.
O cocô que escorrega
lambuza meu cu.
Acerto a mira
Quando atiro com a pica.
Senhorita Puta
Olá, Srta. Puta!...
Eu... não me tornaria jamais cego à sua existência e à toda imundície que retumba e se relambe à sua volta. Não. Nada a lhe contrapor.
Mas existem poucas coisas úteis que posso mencionar a seu respeito, que valham a pena lembrar. Nada, porém que a torne valiosa para mim, da maneira como tudo e todas as coisas de certa forma tem o seu valor. E se houvesse seria melhor não mencionar. O melhor seria negar tudo isso.
Vim aqui para cobrar-lhe serviços. Sei que não faz sexo por amor há muito tempo.
Eu também não.
Por isto estou aqui. Sinto falta de trocar sentimentos de paixão...
Não quero experimentar o prazer artificial de penetrar por dinheiro!
Fique tranqüila: vou pagar o seu preço, mas
mesmo assim o que eu quero
é apenas passar a mão em seu pescoço,
acariciar seus ombros
olhando em seus olhos,
enquanto falo palavras sinceras.
Você não as ouve ou não as compreende. Também estranha essa atitude inusitada.
Essa é uma atitude desesperada, Srta. puta!
O amigo que veio comigo não entende disso.
"É só curtição"- ele diz. Isso não seria curtição jamais para mim.
Isso é vazio.
Eu choraria. Mas não ouso tentar, porque não resolve problemas.
A beleza não importa.
O cheiro não importa.
A posição não importa.
Se quiser me satisfazer pela metade, masturbo-me. É tão fácil, tão prático.
Mas o problema continua a atormentar-me,
sendo a ejaculação solitária, o choro da minha alma apaixonada.
Para resolver o problema por inteiro não existe preço. Não existe tempo nem sorte.
Não existe o próprio problema se não quiser. Resolva-se na rua. Paga-se.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Lançamento do livro CRÔNICO! - Crônicas brasileiras ilustradas
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
sábado, 17 de setembro de 2011
Em 8 de agosto de 2011...
Depois de um dia quieto e improdutivo, de ter me sentido um tanto inútil e desgraçado, não merecedor do amor e da beleza nem capaz de expressar-me, amar ou gozar a vida, agora, de repente, sinto uma onda de prazer; inexplicável, sem razão e consequencia sei lá de quê. Te amo, te quero, sou um arranha-céu na sua cidade, quero ser a palmeira real na sua selva e ser assim por séculos, quieto e vivo, vibrando bem-estar, e você é o mundo, o mar, os pássaros que em meus galhos pousam e das folhas secas fazem ninhos, te quero, vida pulsante, materializada numa mulher, expressa na particularidade da sua alma... Sou uma mudinha ou um projeto de desenho no papel...
Você é o sonho, ainda sonhado, no limiar entre o real e o onírico, prestes a evaporar cruelmente e me deixar no deserto da verdade incompreensível, do sofrimento eterno, ou prestes a mudar completamente a minha existência, na direção do sucesso, da realização, da plenitude, da possibilidade de todas as possibilidades. Você sou eu, de um jeito ou de outro. É a confirmação da minha verdade. É o ponteiro do meu sucesso ou fracasso. A resposta das minhas preces ou o castigo das minhas pragas. É relativa à minha relatividade. É a pauta das minhas notas, o tônus da minha estrutura, o norte da minha bússula, a terra úmida, fértil e deliciosa, onde quero pisar descalço, plantar toda a humanidade e me enterrar com o coração quente e feliz.
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Simples Universal e Maluco
SIMPLES UNIVERSAL E MALUCO
Atenção! Atenção Todos! Senhoras e Senhores! Mendigos e Trabalhadores! Crianças e Cachorros!
Aqui somos todos iguais! Ninguém costura bolso na mortalha! E por isso vamos contar a história de Zé Carneiro, um sujeito muito arteiro que além de não ter dinheiro e viver na gandaia, de maracutaia e na maior farra, é uma história que nos mostra com clareza que ter a bufunfa cheia não serve a mesa: quem serve é a empregada!
Zé Carneiro está aqui entre nós, escondido! Pois embora ele seja real e até muito banal, é tímido e pensa que para se apresentar precisa estar bem vestido, saber falar, ser bom marido, sempre agradar, ter o dever cumprido (Ih, mas ele deve, e não é pouco!) E já está até rouco de tanto pedir emprestado, além do mais é um safado: sem nenhum receio levou minha mulher para um passeio no mês passado para chorar as mágoas da infância e eu, na minha santa ignorância, nem desconfiei! Ela voltou só ontem toda modificada e...
...E essa história eu sei! Não dorme mais deitada, cozinha com a cara amarrada e o Zé Carneiro passa o dia inteiro batendo de casa em casa atrás de quem ouça suas mágoas e – filho da …
...Já se escuta seu assobio faceiro, quem se aproxima é Zé Carneiro!
É isso aí pessoal, vamos para outras bandas que de manhã cedo o galo canta e se durante o dia não correr ligeiro de noite não tem janta!
Vamos, eu e meu parceiro atrás do tal do Zé Carneiro, que se passou por aqui, já foi! Veja que dentro do meu chapéu está a chance que caiu do céu de comer hoje ainda um feijão com arroz!
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Trabalho
Para que a ansiedade se o que há de dar certo dará?
Para que o medo se fora daqui e além do agora inexiste?
Temos em nós forças desconhecidas e nada é mero acaso.
Se gasto saliva, falo para as paredes, jogo pérola aos porcos,
só sei de mim, e é só o que tenho que saber.
Não há ninguém que saiba o meu valor mais do que eu.
Eu sou senhor do meu destino e tenho por princípio este instante.
O que importa é ser feliz e amar.
Nessa vivência não há apocalipses nem paradigmas.
Mas no meio da tempestade, paz;
na perda, na destruição e na morte, aprendizado;
no inesperado, a auto-descoberta.
Não há dúvidas que a situação difícil nos desafia a sermos melhores.
Se desistirmos nada terá valido a pena - coisas boas ou ruins:
depois que elas passam são lembranças das nossas vitórias e superações.
E é a história da nossa vida.
Sem um caminho turbulento não há como um final ser feliz.
Sem a fé não há como atravessar nem como louvar a vida.
O mais belo sorriso é sem peso;
o maior alívio está na dignidade;
a melhor atitude é a força de vontade.
terça-feira, 21 de junho de 2011
Atmosferas
Mas há sempre o recomeço.
Antes não sabe depois
senão agora.
A perfeição esta no tempo que se desfaz...
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Alma bruta na fornalha - distúrbio
Ele estava louco, insano. Quem se atreveria a falar-lhe qualquer coisa que fosse? Quem teria coragem de interromper sua linha brutal e assassina de pensamentos?
Os olhos injetados, a seriedade extrema.
A incontrariedade.
Você se jogaria na frente do trem para pará-lo?
Então você não faria nada diante do turbilhão trucida, da máquina humana, da raiva encarnada e da força extrema, canalizada na ação destruidora.
Medo.
Vê a quantidade de erros amontoados no erro, mas desfazê-los como? Não com pressa, não agora, não mais. O que tiver que ser, mesmo no erro, será, por pior que seja. Ele não irá parar. Ele não vê as lógicas possíveis. Só é possível para ele a lógica daquilo que só ele vê. Sua análise já foi feita e, pode ser obtusa, mas é clara, dentro de sua patologia - agulhas por todos os lados. Medo.
Seus passos são a contagem progressiva do terror. Efusivo, marcam seus movimentos a tragédia que se dará pelas mãos, palavras e pela dor.
O pavor contínuo é como a água que ferve, a cabeça incendiada, aflição, maldade, cegueira, niilismo, explosão, fúria e imensidão.
Uma bola de ferro arrebenta concreto e ferro - isso não é nada.
Uma maldade é feita sem porque.
O medo da pessoa ao seu lado, a situação a qual está preso, a interminável angústia, o pavor, a histeria muda.
Cabelos caem, olhos saltam, o coração estira...
A voz acaba, o grito falha, a ansiedade ao infinito.
Não se poderá voltar atrás. Resolutivo e prático em sua vingança.
Ostentação, consumação, erro.
O que não era para acontecer.
O comentário oportuno, leve, a distração que desvia o trem e
Isso não era esperado mas muda tudo.
Foram algumas palavras bem colocadas o suficiente para fazer pensar. Ou, desfazer o pensar.
A chance e a esperança.
A tentativa e a esperança.
A interferência e a influência.
A simplicidade, a ingenuidade.
A ironia, a verdade.
A avalanche, o distúrbio, tudo isso desaparece
E a história não precisa continuar.

domingo, 10 de abril de 2011
Você?
O frio áspero chicoteia-me as vísceras que escorrem pelas ruas elétricas escorregam e perdem energia, morrem.
Rodeio cansativo vilas de marasmo, escuro, vejo cinzas onde moram esquecidos lugares vazios, personalidades perdidas, vãs e fantasiadas da falsa realidade.
Cidade macabra não existe na vida de ninguém nessas pedras paredes escadas.
É o própria estigma.
Sempre haverá o que se fazer por dinheiro, assim como muitos para fazer direitinho.
Se não por isto, então não mais o quê do porquê. Então não há mais nada, além do dinheiro.
Vê televisão.
Mas continuam passos sobem ladeiras afina a sola do sapato pelos dias contínuos de todos os dias, respira rítmico, marcha, atravessa o cemitério urbano, vivo e morto, mortos e vivos pendurados no cabide do armário esperam ser escolhidos para amar e serem amados, desgastam-se na esperança cega de coisa nenhuma, vivem de alma triste, presos na lama da malandragem, complacentes, ignorantes, frágeis, se escondem de si e dos outros, sua existência pensam ser para nada.
sábado, 12 de março de 2011
Dualidade
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Estúpida e parva (Jainá Ludolf)
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Chove! Sim! Arrebenta!

A natureza vai engolir a gente, porque é maior.
Como a ameba para a baleia: uma não concebe a outra, contudo uma absorve a outra;
como as ideias para os humanos, fragmentárias ao infinito, de todo modo possíveis e rejeitadas pela mesma vaidade e burrice.
Nós, entretanto, nos sujeitamos a elas.
Não sujeitamos elas à nós (que seria ideal), mas a elas nos submetemos.
Somos influenciados e transformados por elas, queiramos nós ou não.
Ideias estão no ar. As respiramos.
Somos como a baleia que engole amebas sem saber.
O universo está além de nossa compreensão e é essa a sua natureza,
somos como a poeira no ar da estrada.
Chove! Sim! Arrebenta!
É a destruição.
Cabe a nós vivermos libertos do universo de conceitos que nós mesmos criamos. Quebremos nossos próprios paradigmas! Pois eles serão quebrados de qualquer maneira.
Libertemo-nos da ideia de ser o que somos, pois não somos a mesma coisa nem por um só instante.
Apegados à nossa personalidade, aprofundamos os laços com as ideias fixas, por mais naturais que elas pareçam ser, são, na verdade, prisões.
A realidade se destrói com o tempo.
O tempo faz parte da natureza.
Nós obedecemos às leis da natureza.
E nada permanece.
Tudo vai com o tempo.
Tudo vai a todo instante.
O presente?
Um instante.
Observe.
O presente.
Não diga nada!
Antes: não pense!
Só observe.
Não dê nome.
Não tenha reação.
Seja! Seja você mesmo, invicto, inquebrantável,
vencedor desta queda-de-braço entre sua força
que independe de explicações
e as explicações que se podem dar a tudo,
e são,
para tudo,
desnecessárias.
Mantenha-se quieto – não pense!
Todo poderoso sobre si,
sua não-reação é na verdade uma ação
originária do poderoso livre arbítrio daquilo que é e não é ao mesmo tempo.
Sem explicação. Mas invicta, é essa coisa.
A ação é independente.
Antes, o pensamento é totalmente livre.
E aquilo que nos ronda, circula e fecha hermeticamente é,
na verdade,
a ilusão – quando nos deixamos levar soltos por fluxos de pensamentos...
Choramos as ilusões perdidas.
Perdemos tudo o que mais amamos.
Porque damos às coisas significado, e aos significados mais significados ainda.
Enredamos-nos numa grande teia de significados e estamos presos.
E a cada significado, destruição.
Morre uma pessoa, morre uma paixão, morre um ideal, morre um conceito, morre uma cidade, morre uma civilização, morre uma cultura e suas músicas que um dia foram inesquecíveis. Morre a lembrança do que um dia foi inestimável. Se apaga. Depois de um fluxo de ideias ganhar vida própria em seus pensamentos, percorrê-los solto, submetendo-lhes a vontade e você isso permitir, esse fluxo lhe tomará os sentimentos e lhe determinará as emoções. Domina a si mesmo e deixe que todos os fluxos em torno sejam matéria de observação, cabendo ao seu indissolúvel e onipotente âmago sondar a felicidade naquilo que não se explica.
Toda explicação para a fúria da natureza é inútil.
Toda tentativa de ir contra ela é inútil,
se não for contra si mesmo, na verdade.
Aquele que tentar mudá-la será marcado por angústias.
Mas afinal mudará a natureza das pequenas coisas? Modificará a matéria das coisas?
Ainda que sim, não mudará em nenhum fio a natureza maior. À que está submetido.
É o coveiro com a pá, o buraco e o próximo passo.
É a porta de entrada para onde estamos nos levando dentro de uma realidade em que nós somos levados porque deixamos.
A tragédia são menos as mortes e mais a prisão a que estamos submetidos.
Morrem parentes, morrem amigos queridos, sempre morrem, sempre...
E nós, que à morte não escaparemos, sequer compreendemos, choramos a existência, como um fato consumado e infeliz. Tememos e trememos, enervados, ansiosos, culpados e cheios de arrependimentos ocultos.
Será sempre assim e, se renascermos, será novamente assim: sempre que recomeçarmos, tudo será novo e com o tempo será velho, desaparecerá e nós a isso tudo veremos com tristeza e insatisfação. Já a satisfação, se encontra no desapego de toda ideia ou coisa que possamos depender para ela mesma.
Se essa verdade não nos é clara nas pequenas coisas quotidianas, se somos cegos às constantes lições em nossas vidas pacatas (letárgicos às forças externas que nos comandam e nos atiram de um lado para o outro em infinitas questões), então essa verdade terá que se tornar clara através de grandes coisas gerais, maiores do que as que não tem sido o suficiente para mudarmos.
O pé delicado que pisa a grama é a tragédia das formigas. A natureza dos nossos pensamentos está para o pé delicado assim como nós estamos para as formigas.
Não tem como escapar às leis da natureza, porém pode-se quebrar os próprios paradigmas e não seguir o fluxo dos que agem iguais.
Iguais eles estão em serem os próprios inimigos.
Humanos! Tão assustados com tudo o que destrói suas concepções.
É tão horrível ter uma concepção quebrada.
O sofrimento não está na destruição das coisas, mas antes: em ter se iludido na permanência delas. Nesta ignorância.
A felicidade não está nas coisas, mas em contentar-se sem ter com o que.
Molha, parte, desaba,
amontoa, deforma, racha,
destrói e corrói,
pulveriza, perece,
apodrece, descasca,
degrada, rasga,
dissolve, desmancha,
envelhece, seca,
evapora, desfaz,
morre,
enterra,
esquece.
Gabriel Schilling Springer Pitanga
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
2010
domingo, 7 de novembro de 2010
O Cárcere

Eu nem sei quem sou eu nessas contas de usuário.
Penso em senhas toda a hora.
Psicótico, profiles inteiros de pessoas que eu nem conheço me vêm à cabeça. Comerciais e amigos se confundem numa só manifestação publicitária.
Perigoso, me torno obcecado pelas liberdades de escolha dentro do mundo virtual.
Sob fortíssimas dores de consciência me mantenho afastado das oportunidades, o medo da verdade me humilha e me obriga à vida através da auto-justificativa.
Esquizofrênico, puno-me, criando a realidade mental do cárcere.
A ilusão do eu gera a ilusão do meu.
Meu tempo, minha passagem de tempo.
Minha perda de tempo.
O porvir, o decorrer, o fato consumado.
Perigoso sou eu.
O perigo é meu.
Ignorar isso é perder-se na ilusão da mente, quando nada é dotado de identidade própria e a matéria é temporal, transitória e finita.
Assim como a mente.
Úlceras cortantes arrastam o corpo de quem se agarra ao banal quotidiano e que à cada um de todos os seus momentos dá à matéria e à carne importância desproporcional.
O próprio espírito transita.
Para deixar de estar separado, por ser separado ele um dia deverá progredir para ser sem deixar de ser.
Até lá morremos todos.
Por esse vício morremos: nós mesmos o somos.
Todo o resto é concepção nossa da nossa realidade aplicada sobre situações originalmente vazias de significado.
E permanecemos apegados ao desejo de permanência embora a realidade seja a da impermanência.
Vivemos com as condições que criamos para viver nossas vidas.
A realidade do cárcere mental sou eu.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
As Aventuras de Ademar - Instantes
Quando pequeno Ademar foi ao circo. O circo era ruim. Os palhaços estavam deprimidos. Ladainha tentou em vão uma investida homossexual em Espinafre. Magnus, o mágico, nunca esqueceu do filho. Morto no quarto mês de gravidez. Mara, a auxiliar, treme ao ver Magnus tirando um coelho da cartola. E coça a cicatriz. Dos dez cavalos, três. Dos quatro elefantes, um. O leão aguarda a decisão do diretor Paulito Mendes D´ávila, que sem recursos para continuar com a medicação, vai hesitar pela última vez em sacrificá-lo. Antes da próxima cidade, ele não mais será atração das moscas nas feridas incuráveis. A pipoca estava fria.
Ademar nunca foi ao parque de diversões, primeiro, porque nunca foi chamado. E segundo, porque tinha medo de falhas mecânicas.
Odiava o Mickey.
Ademar chora todo dia antes de dormir. Dorme sem perceber. Quando acorda e passa pelo espelho, dá as costas.
Entorta a nuca horas, no banheiro, mexendo com infinita curiosidade, e tentando entender o quê ele realmente é.
Frequentemente suas atividades perdem o sentido. Ele para, se demora, tenta recuperar o sentido das coisas, não recupera. E para fingir que não houve nada, volta ao que fazia, como se tivesse lembrado.
Ele acorda. Não abre os olhos. Se pergunta por que vive. Abre os olhos e vai tomar café.
Faz um sanduíche gostoso. De repente perde o gosto, perde a fome e se pergunta e daí esse sanduíche?
Uma moça. Não lá muito interessante. Às vezes sim, pra ele. Às vezes até demais. Às vezes nada. A maioria das vezes.
As Aventuras de Ademar - Torneira

Gabriel Schilling
Era sempre a essa hora depois da feira que Ademar, nos fundos de seu terceiro andar, fazia o próprio almoço, então já lavava as folhas de alface e descascava as batatas para o suco do qual muito gostava, receita antiga da velha tia Nádia.
O vapor da água que fervia deixava na cozinha um ar agitado. Dia de varrer o quarto. Dia de mostrar trabalho. Tirar pó dos livros espalhados pela casa. Reservava à leitura, uma hora diária e não abria mão, houvesse guerra ou fim do mundo. Ainda mesmo, durante a manhã, lera um livro singular, comprado de um senhor de longas barbas, vendedor de apetrechos não usáveis sobre um tapete na calçada. Fora convencido de que aquele livro sem autor e título agradaria fora do comum seu futuro proprietário. E assim o adquiriu, vindo a sofrer mais tarde o colateral de seus efeitos...
Voltando às batatas, uma grande dúvida o assaltava neste instante - resquício ínfimo de perturbação, lembrando-se existir algo importante, incômodo ou problemático, mas sem poder recordar do quê, apenas sabia da existência de algo a ser lembrado... Para ser bem sincero – e é preciso que nada seja acobertado – Ademar sofre de repentina dúvida sobre coisas que não sabe quais são, para daí dar surgimento a problemas de intensa distração espontânea.
Uma vez (que serve como exemplo), deixou um copo cair e quebrar no chão. Assistia televisão quando, ao pegá-lo da mesinha próxima a poltrona em que sentava parou no meio do movimento e, congelado, entrou num transe de quem pensa alto com imagens, se esquecendo absolutamente de tudo relativo à realidade, balbuciando “mãe” interrogativamente... “Viu” na sua frente o par de joelhos da velha senhora quando ainda não era tão velha há vinte e cinco anos, aliás, visão de quem só poderia ter no máximo a altura desses joelhos... e sua mão fazia o quê, segurando um copo? Para um garoto de cinco anos no corredor da primeira casa onde morou, num ínfimo clarão de consciência espasmódica, porém letárgica, não havia porque estar segurando um copo. Por não haver porque, não havia copo. E a mão perdera o motor de sua força, só voltando a ser a mão do velho Ademar, só num apartamento mofado, quando seus ouvidos compreenderam e assimilaram o barulho do estilhaço, molhando roupa, poltrona, controle e TV. Seus dedos rígidos rangeram ao moverem-se hesitantes, dando à memória do tato tempo de lembrar o que prendiam. Olhou no chão cacos e não expressou nada. Um minuto repleto de segundos. Imóvel, na tentativa de conciliar realidades: a lembrança perdida da infância, a atividade de ver um filme. Não! Não êxito. Deixou-se levar pela trama cinematográfica tipo ‘b’.
Mas agora, na cozinha, tentando lembrar-se de algo que não sabia o que era, sua distração foi de outra maneira estranha: o que pensou foi nada; ficou bom tempo assim. Ao regressar fingiu saber onde estava e o que fazia só para não parecer-se a si mesmo louco.
Pegou a última batata que faltava descascar identificando plenamente quem ele era e o contexto em que vivia, ao ver, aberto em cima da mesa, o livro de receitas da tia Nádia. Uma idéia remeteu a outra... e lá estava ele. Concluiu ser esse grave acontecimento psicológico digno de espanto e considerou pensar melhor depois, mais tarde, o que não fará. Esqueceu-se rápido do assunto voltando ao almoço que fazia e à barriga que roncava. Pelo suco de que tanto gostava largou um fio pesado de baba. Recolhendo-o e limpando o queixo, deixando as paredes de sua casa envergonhadas.
Batatas postas na bacia iriam ser banhadas, mas ao dar o único giro necessário na torneira da pia, não veio a água esperada, mas um espirro de ferrugem, dois espirros e nada. Fechou e abriu de novo, dessa vez, água. Tudo normal. Virou para a mesa – o desprazer da música preferida pulando no CD arranhado – a água espirrar de novo mais três vezes – mais uma gota... e fim.
De novo. Mas “Dessa vez não passa”, ganiu Ademar. Não era de hoje que a água era cortada, e uma reclamação bem dada – elocubrava – daria ao síndico noção da responsabilidade de sua incumbência.
Sim, desta vez seria derradeiro: na última, Ademar saiu todo cheio de espuma, enrolado na toalha rasgada, pelos corredores do prédio bradando irado sua revolta. Devido ao recorrente e inesperado corte d’água seus razoáveis gritos convidaram muitos vizinhos às janelas. A cena ridícula e o sarcasmo de um riso perdido desencadearam uma platéia às gargalhadas. Furioso no patamar dos fundos, entre vinte e quatro apartamentos, dezenas de vizinhos e parte da bunda adornando seu momento histérico através do buraco da toalha, Ademar bufou orgulhoso dos berros que ecoaram inaudíveis (ninguém verdadeiramente entendeu qualquer das palavras que esbravejara), para voltar-se ao seu apartamento surrando com tamanha força a porta que por um instante se fez profundíssimo silêncio entre os vizinhos, que durou pouco, retornando os maldosos risos após a confissão patética (e agora sim audível) de Ademar:
“Merda!”: Um segundo barulho menos forte foi logo possível identificar: o titilar metálico da maçaneta desmontanda em duas partes, cada qual caiu para um lado, trancando-o em casa e obrigando-o a chamar e receber um chaveiro – muito caro, por sinal – ainda de toalha (rasgada) e sabão na cara. Entre os moradores do prédio o episódio é até hoje comentado com violentos risos. Desta vez Ademar não toleraria as irregularidades do edifício. Desta vez ele vai ouvir, esse “desgraçado, incompetente”. “Vai ouvir agora!”, jurou, apertando uma batata.
Mal girara maçaneta vinha forçosa porta contra si numa torrente d’água invadindo apartamento, atirando-o ao chão, deixando-o tonto, desesperado, vendo todas coisas inundando d’água que abundava; a cada instante subia fatal, objetos boiavam e não havia tempo para pensar. Poltrona subiu rapidamente, flutuou, afundou. A panela com batatas navegava, girava, água já à cintura - se deu conta, seja lá que isso tudo, não podia mais ali. Sabia, é claro, que em caso de incêndio importante salvar documentos, mas os seus foram roubados na semana anterior, então restava... o que restava? Alguma coisa... que não conseguia lembrar! Os tapetes, talvez? Não! Ele não tinha tapetes!... Móveis? Mas como levar um móvel para fora de casa? Aliás, o que é isso? De onde vinha água? De baixo, de cima? Por quê, meu deus? Por quê?!
Então, num ato de bravura, decidido que o que houvesse para ser salvo era certo supérfluo a ponto de esquecido – sim, também os livros –, desistiu de examinar a casa para ir logo à porta e à saída. A água já no sovaco e faltavam muitos passos que seriam pesados. Decidiu nadar. Inspirou, desceu; ia-se puxando pelas pernas da mesa, pela quina da parede, “voando” baixo na cozinha até chegar ao corredor comum do andar; lá fora emergiu, o nível já no queixo. Sua cabeça nunca funcionou tão rápida: desta vez inspirou ainda mais fundo e mergulhou no estreito vão entre os apartamentos da frente e dos fundos. Com os olhos abertos via o brilho inquieto dos reflexos do sol n’água turva. A enchente já havia coberto tudo antes do sexto andar, e subia mais, desenfreada n’agitação de alto mar.
Na medida em que Ademar também subia, observava a tragédia dos que ficavam. Bens que deslizavam janela e porta à fora, papéis, cartas, calcinha, dinheiro, sujeira, garfo, livro, almofada; de camisola, a menina gorda do segundo andar subia sem esforços o dobro de sua velocidade; viu pela janela do 801 que Adelair, senhor bastante idoso, agarrava com as vísceras uma televisão 29 polegadas, na tentativa de salvá-la. O peso do aparelho, a fraqueza do velho e sua teimosia fizeram com que afundasse abraçado à TV, recusando-se a largá-la. Sua imagem desapareceu na escuridão, já não se enxergava nada abaixo do segundo andar. Á Ademar o ar faltava; faltava pouco para chegar e a pressão d'água quase lhe estouravam os olhos. Cérebro espremendo, pulmão prestes a ex-plo-dir, peito a ras-gar... de dentr pr f... Enfim chegou!
Salvo! No topo do prédio! Que cena! A cidade inteira, não só seu prédio, completo desastre! O que teria sido a causa? Não sei. Não se sabe. Ninguém tem certeza e todo boato é ouvido no tom de uma notícia urgente. Do alto de outros prédios, alguns que se salvaram gritavam aos outros “Foi a maldita poluição!!! Derreteu as calotas polares!”, “Tsunami!!!”, “Dilúvio!”, “É o Apocalipse!!!” e haviam, é claro, os existencialistas: “Minha avó! Minha avó ficou!”, “Verinha?!! Cadê você?!!!”, “Perdi tudo!!!”.
E num flash paralisante, Ademar lembrou finalmente do que havia esquecido em casa! O gato! Hans estava dentro da caixa de passear – quando Ademar levou-o para o veterinário esqueceu-se de soltá-lo! Meu deus!!! E dessa vez, sem pensar mesmo, respirou o mais fundo que pode e voltou a mergulhar, nadando com toda força, desesperado, heroico! No caminho roupas e objetos atrapalhavam, não permitindo ver algo maior que emergia, a mesa de cabeceira que, no susto, atingiu com a quina sua testa abrindo um rasgo, esfumaçando sangue n’água. A dor não foi sentida, pois não havia tempo: havia era de salvar o gato! E rápido, rápido!
De braçada em braçada nadou verticalmente até o fundo e na altura do terceiro andar, antes de contornar à sua porta, pôde avistar, estendido no solo da portaria, o velho com a TV sobre a barriga, nela agarrado, durinho, dentes trincados e olhos vidrados, rodeado por cardume de peixinhos curiosos. Abstraiu e entrou em casa. Em meio à zona d’área de serviço, caixas, tábuas, estava a maleta e Hans! Missão quase cumprida: agora é voltar! Deteu-se a um segundo do impulso para o topo: o gás ’tava ligado, a torneira aberta. Voltou, desligou, fechou. Segurava o ar. Também das chaves precisava, pois sabia saques. Fechar a porta dentro d’água foi uma experiência frustrada, na falta de ar lançou-a às favas. Com a maleta à mão, num só braço e no bater dos pés subiu sereno de saber que não esquecera nada, que fizera tudo o que pôde. Subiu com peito apertado – o pulmão no pico do oxigênio gasto – desamarravam-se-lhe as veias – suas vias já queriam sugar, agiriam independentes, tem que entrar ar, tem que entrar ar, acabou-lhe a força, não podia mais conter a necessidade de... emerge, respira, nasce. Renova o ar: o frescor da vida ainda viva, no alívio profundíssimo da morte que escoa pós-abraço!
Estranhamente não era o topo. A água baixara. Ao invés de quase transbordar, descera até o oitavo. Alcançou o beiral do corredor, subiu correndo escadas e do topo surpreendeu cidade seca, ofegou como se exigisse, mas lá estava ela, funcionando, e feia, como normalmente, como se nada... aliás, tão normal que era mais fácil acreditar tudo uma mentira.
Difícil entender. Voltou-se ao interior do prédio e não havia água alguma. O vão voltou a ser vão; em todo andar, o chão só um pouco molhado. Pegou o elevador até a portaria (gato na mala), viu magrelo zelador quieto, no âmago da humildade, empunhando o rodo, empurrando a água.
- Meu patrão! – alegre e contente – Hoje é dia de faxina!
Em resposta riu sem graça. Incrédulo. Perplexo.
Voltou ao seu terceiro andar, entrou em seu 302 e encontrou tudo sequinho, tudo no lugar. Soltou o gato. Na pia a bacia de batatas vazia d’água. Abriu a torneira (mais na falta do que fazer e do que pensar em relação a tudo o que se sucedera, do que para continuar a fazer seu suco). A torneira tossiu água marrom, vermelha na retosse e jorrou água límpida. Ademar banhou seus tubérculos. O suco de batatas nunca mais foi o mesmo.




