sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

2010



Sem ter o que dizer, me calo.
Ainda que me interpretem mal,
não vou me preocupar em justificar-me:
Vou permanecer calado, plácido;
A humanidade pouco diz e tanto fala;
infinitamente menos sabe.

domingo, 7 de novembro de 2010

O Cárcere


Eu nem sei quem sou eu nessas contas de usuário.
Penso em senhas toda a hora.
Psicótico, profiles inteiros de pessoas que eu nem conheço me vêm à cabeça. Comerciais e amigos se confundem numa só manifestação publicitária.
Perigoso, me torno obcecado pelas liberdades de escolha dentro do mundo virtual.
Sob fortíssimas dores de consciência me mantenho afastado das oportunidades, o medo da verdade me humilha e me obriga à vida através da auto-justificativa.
Esquizofrênico, puno-me, criando a realidade mental do cárcere.
A ilusão do eu gera a ilusão do meu.
Meu tempo, minha passagem de tempo.
Minha perda de tempo.
O porvir, o decorrer, o fato consumado.

Perigoso sou eu.
O perigo é meu.

Ignorar isso é perder-se na ilusão da mente, quando nada é dotado de identidade própria e a matéria é temporal, transitória e finita.
Assim como a mente.

Úlceras cortantes arrastam o corpo de quem se agarra ao banal quotidiano e que à cada um de todos os seus momentos dá à matéria e à carne importância desproporcional.

O próprio espírito transita.
Para deixar de estar separado, por ser separado ele um dia deverá progredir para ser sem deixar de ser.
Até lá morremos todos.

Por esse vício morremos: nós mesmos o somos.
Todo o resto é concepção nossa da nossa realidade aplicada sobre situações originalmente vazias de significado.
E permanecemos apegados ao desejo de permanência embora a realidade seja a da impermanência.
Vivemos com as condições que criamos para viver nossas vidas.
A realidade do cárcere mental sou eu.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

As Aventuras de Ademar - Instantes

Ademar prendeu o dedo na porta. Bateu a cabeça na estante. Topou a unha no taco solto. Ele não tem namorada.

Quando pequeno Ademar foi ao circo. O circo era ruim. Os palhaços estavam deprimidos. Ladainha tentou em vão uma investida homossexual em Espinafre. Magnus, o mágico, nunca esqueceu do filho. Morto no quarto mês de gravidez. Mara, a auxiliar, treme ao ver Magnus tirando um coelho da cartola. E coça a cicatriz. Dos dez cavalos, três. Dos quatro elefantes, um. O leão aguarda a decisão do diretor Paulito Mendes D´ávila, que sem recursos para continuar com a medicação, vai hesitar pela última vez em sacrificá-lo. Antes da próxima cidade, ele não mais será atração das moscas nas feridas incuráveis. A pipoca estava fria.

Ademar nunca foi ao parque de diversões, primeiro, porque nunca foi chamado. E segundo, porque tinha medo de falhas mecânicas.
Odiava o Mickey.

Ademar chora todo dia antes de dormir. Dorme sem perceber. Quando acorda e passa pelo espelho, dá as costas.

Entorta a nuca horas, no banheiro, mexendo com infinita curiosidade, e tentando entender o quê ele realmente é.

Frequentemente suas atividades perdem o sentido. Ele para, se demora, tenta recuperar o sentido das coisas, não recupera. E para fingir que não houve nada, volta ao que fazia, como se tivesse lembrado.

Ele acorda. Não abre os olhos. Se pergunta por que vive. Abre os olhos e vai tomar café.

Faz um sanduíche gostoso. De repente perde o gosto, perde a fome e se pergunta e daí esse sanduíche?

Uma moça. Não lá muito interessante. Às vezes sim, pra ele. Às vezes até demais. Às vezes nada. A maioria das vezes.

As Aventuras de Ademar - Torneira



Gabriel Schilling

Era sempre a essa hora depois da feira que Ademar, nos fundos de seu terceiro andar, fazia o próprio almoço, então já lavava as folhas de alface e descascava as batatas para o suco do qual muito gostava, receita antiga da velha tia Nádia.
O vapor da água que fervia deixava na cozinha um ar agitado. Dia de varrer o quarto. Dia de mostrar trabalho. Tirar pó dos livros espalhados pela casa. Reservava à leitura, uma hora diária e não abria mão, houvesse guerra ou fim do mundo. Ainda mesmo, durante a manhã, lera um livro singular, comprado de um senhor de longas barbas, vendedor de apetrechos não usáveis sobre um tapete na calçada. Fora convencido de que aquele livro sem autor e título agradaria fora do comum seu futuro proprietário. E assim o adquiriu, vindo a sofrer mais tarde o colateral de seus efeitos...
Voltando às batatas, uma grande dúvida o assaltava neste instante - resquício ínfimo de perturbação, lembrando-se existir algo importante, incômodo ou problemático, mas sem poder recordar do quê, apenas sabia da existência de algo a ser lembrado... Para ser bem sincero – e é preciso que nada seja acobertado – Ademar sofre de repentina dúvida sobre coisas que não sabe quais são, para daí dar surgimento a problemas de intensa distração espontânea.
Uma vez (que serve como exemplo), deixou um copo cair e quebrar no chão. Assistia televisão quando, ao pegá-lo da mesinha próxima a poltrona em que sentava parou no meio do movimento e, congelado, entrou num transe de quem pensa alto com imagens, se esquecendo absolutamente de tudo relativo à realidade, balbuciando “mãe” interrogativamente... “Viu” na sua frente o par de joelhos da velha senhora quando ainda não era tão velha há vinte e cinco anos, aliás, visão de quem só poderia ter no máximo a altura desses joelhos... e sua mão fazia o quê, segurando um copo? Para um garoto de cinco anos no corredor da primeira casa onde morou, num ínfimo clarão de consciência espasmódica, porém letárgica, não havia porque estar segurando um copo. Por não haver porque, não havia copo. E a mão perdera o motor de sua força, só voltando a ser a mão do velho Ademar, só num apartamento mofado, quando seus ouvidos compreenderam e assimilaram o barulho do estilhaço, molhando roupa, poltrona, controle e TV. Seus dedos rígidos rangeram ao moverem-se hesitantes, dando à memória do tato tempo de lembrar o que prendiam. Olhou no chão cacos e não expressou nada. Um minuto repleto de segundos. Imóvel, na tentativa de conciliar realidades: a lembrança perdida da infância, a atividade de ver um filme. Não! Não êxito. Deixou-se levar pela trama cinematográfica tipo ‘b’.
Mas agora, na cozinha, tentando lembrar-se de algo que não sabia o que era, sua distração foi de outra maneira estranha: o que pensou foi nada; ficou bom tempo assim. Ao regressar fingiu saber onde estava e o que fazia só para não parecer-se a si mesmo louco.
Pegou a última batata que faltava descascar identificando plenamente quem ele era e o contexto em que vivia, ao ver, aberto em cima da mesa, o livro de receitas da tia Nádia. Uma idéia remeteu a outra... e lá estava ele. Concluiu ser esse grave acontecimento psicológico digno de espanto e considerou pensar melhor depois, mais tarde, o que não fará. Esqueceu-se rápido do assunto voltando ao almoço que fazia e à barriga que roncava. Pelo suco de que tanto gostava largou um fio pesado de baba. Recolhendo-o e limpando o queixo, deixando as paredes de sua casa envergonhadas.
Batatas postas na bacia iriam ser banhadas, mas ao dar o único giro necessário na torneira da pia, não veio a água esperada, mas um espirro de ferrugem, dois espirros e nada. Fechou e abriu de novo, dessa vez, água. Tudo normal. Virou para a mesa – o desprazer da música preferida pulando no CD arranhado – a água espirrar de novo mais três vezes – mais uma gota... e fim.
De novo. Mas “Dessa vez não passa”, ganiu Ademar. Não era de hoje que a água era cortada, e uma reclamação bem dada – elocubrava – daria ao síndico noção da responsabilidade de sua incumbência.
Sim, desta vez seria derradeiro: na última, Ademar saiu todo cheio de espuma, enrolado na toalha rasgada, pelos corredores do prédio bradando irado sua revolta. Devido ao recorrente e inesperado corte d’água seus razoáveis gritos convidaram muitos vizinhos às janelas. A cena ridícula e o sarcasmo de um riso perdido desencadearam uma platéia às gargalhadas. Furioso no patamar dos fundos, entre vinte e quatro apartamentos, dezenas de vizinhos e parte da bunda adornando seu momento histérico através do buraco da toalha, Ademar bufou orgulhoso dos berros que ecoaram inaudíveis (ninguém verdadeiramente entendeu qualquer das palavras que esbravejara), para voltar-se ao seu apartamento surrando com tamanha força a porta que por um instante se fez profundíssimo silêncio entre os vizinhos, que durou pouco, retornando os maldosos risos após a confissão patética (e agora sim audível) de Ademar:
“Merda!”: Um segundo barulho menos forte foi logo possível identificar: o titilar metálico da maçaneta desmontanda em duas partes, cada qual caiu para um lado, trancando-o em casa e obrigando-o a chamar e receber um chaveiro – muito caro, por sinal – ainda de toalha (rasgada) e sabão na cara. Entre os moradores do prédio o episódio é até hoje comentado com violentos risos. Desta vez Ademar não toleraria as irregularidades do edifício. Desta vez ele vai ouvir, esse “desgraçado, incompetente”. “Vai ouvir agora!”, jurou, apertando uma batata.

Mal girara maçaneta vinha forçosa porta contra si numa torrente d’água invadindo apartamento, atirando-o ao chão, deixando-o tonto, desesperado, vendo todas coisas inundando d’água que abundava; a cada instante subia fatal, objetos boiavam e não havia tempo para pensar. Poltrona subiu rapidamente, flutuou, afundou. A panela com batatas navegava, girava, água já à cintura - se deu conta, seja lá que isso tudo, não podia mais ali. Sabia, é claro, que em caso de incêndio importante salvar documentos, mas os seus foram roubados na semana anterior, então restava... o que restava? Alguma coisa... que não conseguia lembrar! Os tapetes, talvez? Não! Ele não tinha tapetes!... Móveis? Mas como levar um móvel para fora de casa? Aliás, o que é isso? De onde vinha água? De baixo, de cima? Por quê, meu deus? Por quê?!
Então, num ato de bravura, decidido que o que houvesse para ser salvo era certo supérfluo a ponto de esquecido – sim, também os livros –, desistiu de examinar a casa para ir logo à porta e à saída. A água já no sovaco e faltavam muitos passos que seriam pesados. Decidiu nadar. Inspirou, desceu; ia-se puxando pelas pernas da mesa, pela quina da parede, “voando” baixo na cozinha até chegar ao corredor comum do andar; lá fora emergiu, o nível já no queixo. Sua cabeça nunca funcionou tão rápida: desta vez inspirou ainda mais fundo e mergulhou no estreito vão entre os apartamentos da frente e dos fundos. Com os olhos abertos via o brilho inquieto dos reflexos do sol n’água turva. A enchente já havia coberto tudo antes do sexto andar, e subia mais, desenfreada n’agitação de alto mar.
Na medida em que Ademar também subia, observava a tragédia dos que ficavam. Bens que deslizavam janela e porta à fora, papéis, cartas, calcinha, dinheiro, sujeira, garfo, livro, almofada; de camisola, a menina gorda do segundo andar subia sem esforços o dobro de sua velocidade; viu pela janela do 801 que Adelair, senhor bastante idoso, agarrava com as vísceras uma televisão 29 polegadas, na tentativa de salvá-la. O peso do aparelho, a fraqueza do velho e sua teimosia fizeram com que afundasse abraçado à TV, recusando-se a largá-la. Sua imagem desapareceu na escuridão, já não se enxergava nada abaixo do segundo andar. Á Ademar o ar faltava; faltava pouco para chegar e a pressão d'água quase lhe estouravam os olhos. Cérebro espremendo, pulmão prestes a ex-plo-dir, peito a ras-gar... de dentr pr f... Enfim chegou!
Salvo! No topo do prédio! Que cena! A cidade inteira, não só seu prédio, completo desastre! O que teria sido a causa? Não sei. Não se sabe. Ninguém tem certeza e todo boato é ouvido no tom de uma notícia urgente. Do alto de outros prédios, alguns que se salvaram gritavam aos outros “Foi a maldita poluição!!! Derreteu as calotas polares!”, “Tsunami!!!”, “Dilúvio!”, “É o Apocalipse!!!” e haviam, é claro, os existencialistas: “Minha avó! Minha avó ficou!”, “Verinha?!! Cadê você?!!!”, “Perdi tudo!!!”.
E num flash paralisante, Ademar lembrou finalmente do que havia esquecido em casa! O gato! Hans estava dentro da caixa de passear – quando Ademar levou-o para o veterinário esqueceu-se de soltá-lo! Meu deus!!! E dessa vez, sem pensar mesmo, respirou o mais fundo que pode e voltou a mergulhar, nadando com toda força, desesperado, heroico! No caminho roupas e objetos atrapalhavam, não permitindo ver algo maior que emergia, a mesa de cabeceira que, no susto, atingiu com a quina sua testa abrindo um rasgo, esfumaçando sangue n’água. A dor não foi sentida, pois não havia tempo: havia era de salvar o gato! E rápido, rápido!
De braçada em braçada nadou verticalmente até o fundo e na altura do terceiro andar, antes de contornar à sua porta, pôde avistar, estendido no solo da portaria, o velho com a TV sobre a barriga, nela agarrado, durinho, dentes trincados e olhos vidrados, rodeado por cardume de peixinhos curiosos. Abstraiu e entrou em casa. Em meio à zona d’área de serviço, caixas, tábuas, estava a maleta e Hans! Missão quase cumprida: agora é voltar! Deteu-se a um segundo do impulso para o topo: o gás ’tava ligado, a torneira aberta. Voltou, desligou, fechou. Segurava o ar. Também das chaves precisava, pois sabia saques. Fechar a porta dentro d’água foi uma experiência frustrada, na falta de ar lançou-a às favas. Com a maleta à mão, num só braço e no bater dos pés subiu sereno de saber que não esquecera nada, que fizera tudo o que pôde. Subiu com peito apertado – o pulmão no pico do oxigênio gasto – desamarravam-se-lhe as veias – suas vias já queriam sugar, agiriam independentes, tem que entrar ar, tem que entrar ar, acabou-lhe a força, não podia mais conter a necessidade de... emerge, respira, nasce. Renova o ar: o frescor da vida ainda viva, no alívio profundíssimo da morte que escoa pós-abraço!
Estranhamente não era o topo. A água baixara. Ao invés de quase transbordar, descera até o oitavo. Alcançou o beiral do corredor, subiu correndo escadas e do topo surpreendeu cidade seca, ofegou como se exigisse, mas lá estava ela, funcionando, e feia, como normalmente, como se nada... aliás, tão normal que era mais fácil acreditar tudo uma mentira.
Difícil entender. Voltou-se ao interior do prédio e não havia água alguma. O vão voltou a ser vão; em todo andar, o chão só um pouco molhado. Pegou o elevador até a portaria (gato na mala), viu magrelo zelador quieto, no âmago da humildade, empunhando o rodo, empurrando a água.
- Meu patrão! – alegre e contente – Hoje é dia de faxina!
Em resposta riu sem graça. Incrédulo. Perplexo.
Voltou ao seu terceiro andar, entrou em seu 302 e encontrou tudo sequinho, tudo no lugar. Soltou o gato. Na pia a bacia de batatas vazia d’água. Abriu a torneira (mais na falta do que fazer e do que pensar em relação a tudo o que se sucedera, do que para continuar a fazer seu suco). A torneira tossiu água marrom, vermelha na retosse e jorrou água límpida. Ademar banhou seus tubérculos. O suco de batatas nunca mais foi o mesmo.



quinta-feira, 29 de julho de 2010

Matagal



No escuro podia ver sem ser visto. Observava cuidadosamente aqueles que passavam pela trilha e não percebiam a presença por detrás do alto matagal. Imerso no instinto e no ritmo do silêncio. A respiração forte pulsava lentamente até o ponto em que era impossível ouvi-la.

Havia alguém em específico que entrara na clareira e se aproximara sem saber. Abriu o saco de pano que trazia consigo e dele retirou duas velas coloridas. Uma terceira vela era só um cotoco e foi logo acesa para iluminar a ação.

Ao serem ascendidas e fixadas com a própria cera derretida sobre uma pedra larga e chata, um ruído como um assobio seco chamara-lhe a atenção. Um morcego que voara baixo e sumiu totalmente? Apesar do leve susto e de ter se fixado em outras direções, durante um tempo, voltou abrir o saco sem notar a presença do observador. Este, por sua vez, estava amplamente atento, arraigado no labor da discrição absoluta.

Uma cobra gélida do nada surgira, rastejou fluídica sobre seu pé direito e no escuro desapareceu. Ele, por sua vez, resistiu a todos os impulsos de pavor e asco. Até ao sibilar, já não sabia nem de quem. Sem a mesma cautela desembrulhava ervas secas diante das três labaredas na clareira. A respiração mantinha-se no ritmo imperceptível que sustentando sua condição invisível.

Com as mãos esfregou em farelos folha após folha acumulando-as num recipiente de barro. Do bolso do casaco encheu a mão de um pó claro e mal cheiroso e do outro bolso um pó escuro. Desenhou em torno das velas círculo de enxofre e pólvora, com o cotoco ateou fogo – que ligeiro lambeu rastro em brilho intenso – proferindo em tom baixo três palavras.

O ar úmido e frio assumia uma personalidade. O ermo se tornou incômodo. O tempo transcorrido já era o suficiente para fatigar e lançar a impaciência sobre a espera. O assistido não despertava outros interesses. Sua feitura enfim tinha se acabado, fechara e trespassara o saco nas costas, apagara a menor vela e dera três passos para trás. Enfim virou as costas e enfiou-se no breu pela trilha de volta a algum lugar.

Apenas inspirando profundamente uma única vez, o que, com a concentração que mantinha na própria força, permitiu que duas passadas largas fossem o suficiente para alcançar a presa, terminou ali com tudo que pulsasse vida, perfurou, rasgou, comeu e bebeu, tudo, quase tudo, pois os ossos foram deixados. Limpou o rosto nos braços, espreguiçou e arrotou, foi embora e em torno das velas que continuaram acesas, o silêncio só não era total pois haviam pássaros noturnos, insetos e alguns outros bichos.


As Aventuras de Ademar - O Livro Marrom

Livro Marrom
Gabriel Schilling

Sossegado, Ademar tinha verdadeiro interesse pelo livro que lia, quando, do meio da praça em que estava, deu-se conta de que tudo o mais à sua volta fora tomado por um silêncio sepulcral. Mais um susto perceber que aquilo já o era há a certo tempo: na leitura absorvera-se perdendo a sucessão dos acontecimentos, que não havia nada nem ninguém. Não se via movimento ou ouvia vozes. Esquisito, muito esquisito – em pleno dia?!
Deitou o livro aberto sobre o banco, levantou. Quis não crer; desdenhou no cinto da calça, falseando a distração que não havia, para no instante seguido pudesse encher-se as vistas da atividade humana. Pois não. Nervoso, contrariado. Coçou bruscamente. Olha rápido todos lados que no vento, folhas secas riscam o chão, e não muda nada.
Tenso, disprestes a gritar, não pavor, ainda não. Não é possível isso, pensava. Um sonho lúcido? A praça, meu inconsciente, se aflora e me enjaula? Que enigma da mente? O purgatório na medida? Morri? Por que? Aliás: o quê?
O livro! Sim! Lia ao esvair-se o mundo; foi no meio da leitura - me deleitava... Voltar à vida foi um baque, tão densa a matéria da imaginação. E o que lia? Virou-se ao banco. Voltara os cinco passos recém mal esboçados no rumo da perplexidade. Ali se desfolhava no vento ritmado, pulsava, gritava – à volta algo mais vivo? Irritou-se na urgência de conter as folhas, imobilizar, extirpar do livro sua ensurdecedora opressão – é o livro? É o livro? Num golpe impulsivo, eficaz, cheio de temor, tomou-o, fechou-o, espremeu-o e sentiu o mundo se apertar sobre si e esperança de poder abrir de novo numa nova realidade.
Ademar em pé, frente ao banco, o livro na mão. Descomprimiu-se, vacilou três vezes, abriu os olhos. Completamente só na desolação da costumeira praça – normalmente cheia, jovens correndo, casais caminhando, bebês e babás, pipoqueiros, cães, crianças...pombos! Nem os pombos! A mais instintiva das tentativas falhara. Se funciona, mérito; quando falha....estupidez... Não há magia. Eu é que ainda não entendi o óbvio, não alcancei... Sou ridículo, mas assumo, ainda não entendi. Conferir o que li por último não seria inofensivo para quem já chegou ao cúmulo? A última coisa a fazer, na tentativa de entender o que... Cético. Havia decerto uma lógica para tudo aquilo. Logo tudo se tornaria claro. Há de se tornar! Tem que se tornar! Num ímpeto vasculhou pela página marcada, folheou sem cuidado e chegou, enfim, à última linha lida, a última sentença. A coisa mais imbecil primeiro, só para não ter que apelar para ela depois, no auge do desespero. E não era?
A linha dizia:

"(...) portanto, tudo que até agora foi visto não faz mais o menor sentido. Ler este livro não faz o menor sentido. Não há sentido na história, não há sentido no livro, não há sentido em ler. Não há sentido em ser, se o que se é carece de sentido até que se encontre um para se iludir. E qual o sentido em ter um sentido? Não tente entender. Não faria o menor sentido entender. Não há sentido em se ter um sentido, nem em se procurar um sentido, nem em se indagar sobre o sentido das coisas. Não há sentido em nada, nem há sentido em si. Esta frase que agora lê não faz o menor sentido, não busque sentido nela, assim como esta pessoa que escreve, não busque sentido nela; você não faz sentido, tal qual sua vida. Não entenda. É preciso cuidado: querer entender a vida dando-lhe um sentido pode fazer com que se viva para sempre o pior pesadelo, o sofrimento dos sofrimentos, (...)”

Desabestalhou-se, Ademar. Um momento de novidades. Para ele isso fazia todo sentido agora! Era, de fato, a frase que lera por último... Mas que bobagem, pensou, se lembrando que tentou entendê-la na primeira vez, dane-se, quer saber? Dane-se o sentido dessa frase! Dane-se o sentido da vida! Oras! Que questão inútil!
E como se absolutamente nada - nada! - houvesse acontecido de estranho naquele dia, voltou para casa pedindo antes licença ao senhor sentado ao seu lado, caminhando entre babás e bebês até a saída do parque cujo portão abarrotava-se em filas de crianças, umas pipoca, outras... Voltou aborrecido, com o humor de quem sempre se fode. E gosta.

Máxima SchillingSpringerPitanguiana 8


Só Vinícios de Moraes expulsa o demônio das pessoas

Meu menino

Pão. Silêncio absoluto.

As paredes velhas, o maço; ninguém, nenhum sinal. Na porta, expectativa. Ali um caminho de formigas; quase num impulso as mato, quase levanto da mesa, quase esqueço que espero. Distração não é bênção? Vi uma sombra? É ele lá? Não, não... é a sombra do vizinho entre a porta e o chão. Toca o susto do telefone, bate o coração da porta! É ele! E a campainha queimada? Tinha esquecido. Por que não espera? Como eu? Calma! Já vou!

Bêbado, não diz nada. É gostoso olhar nos olhos, mas ele disfarça; o ruim é saber que só quando bebe.

- Vai dormir.

- ...

Teimoso. Aflita. Deito sem deleite na colcha impecável, branca, pura, virgem de tudo que não sei sobre meu filho. Melhor saber do pior do que não saber nada. Há pior? Sofre e não me diz? Melhor? Goza a vida e não me diz? Durmo dura, acordo seca. Ele já foi.

Perfume de mulher na camisa. Lavo seu crime? É não me contar. E perco as provas, salvo meu menino da obrigação de ter, na vida, de me esconder o que –. E eu, que a tudo vejo, nada sei. É ser mãe, isto.

Domingo. Ainda os embalos de sábado à noite. Agora outro caminho na parede; ali cigarros eu, que ele não me veja assim! O pão não comeu; nem toquei; só dele; ficou duro e velho.
A entrada triunfal, o show mais esperado da noite! Senhoras e senhores: alívio misturado com a habitual decepção: meu menino! Bêbado, nem um só pio. Abre a geladeira, reto pro quarto, morre no escuro. Acabou a noite, acabou o dia, os amigos, os beijos... A dor, continua, a minha; o vazio das paredes velhas sou eu. Os sinais são todos, os gritos são muitos, o silêncio é absoluto.

O Escritor

Tarde da noite a porta se abre vindo com ele a fumaça do quarto. A cozinha estala no escuro, fria. Gole d’água e volta pra fumaça. Fecha a porta. Senta, se concentra, se levanta. Bufa. Olha pro nada. Senta, se concentra, não se concentra. ‘Agora vai!’ Escreve. A fome arde na barriga e os olhos secos perdem o foco. Força um pouco mais e o sono o derrota. Humilhado, deita. Cava o travesseiro com a fuça, remói uns minutos, e dorme.

No seu sonho está voando. Parado. De tanto sonho assim nunca de barriga pra cima! E um clarão amarelo densifica o morno do seu corpo que sua. A temperatura sobe, começa a estufar. Se aflige, abre os olhos, rios escorrem da testa e caem onde? Nada se vê a volta, só o todo amarelado. Escorrega lentamente para trás e se não fosse a culpa que sabe que tem, não previa um forno em chamas como execução final. Será fritado e lhe arderão os membros, a pele secará e os olhos saltarão. Indefeso! Quer sair, mas não consegue, quer ficar pro desfecho, que a curiosidade age ao lado da certeza de que aquilo não pode ser real. Deduz que para ficar no sonho não pode acordar. O desencanto de sentir a cama e o quarto o faz forçar a situação. Recapitula do começo e continua do último momento. Ainda vê e sente um pouco do ardor nas coxas, o repuxar da pele que rasga e os músculos que torcem. A caveira que grita o último amor, a última pena, o último desejo – talvez morrer de novo para gritar o nome certo. E quer mais, mas se evidencia o quarto quieto nessa manhã de cinza úmido... esfriando os pensamentos... fazendo-o aceitar o novo como punição maior, que nem metáforas podem atingir o desespero que há em levantar sem vida para o resto do dia.


quinta-feira, 22 de julho de 2010

220 volts

Corre, todos os músculos, corre! Ininterrupto corre!!
Mantenha o impulso total.
Cada movimento, a ponta dos pés, o vôo, o pulo,
...

Pulsação devoradora insasciável obtentora auto-satisfatória.
Certeza.
Força.
Realização.
Ciclo.
Pausa.
Movimento,
Certeza,
Força...

A beleza do vôo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Jornalismo, Digressão e Arte ou Coisa Nenhuma


Sem firula ou complexidade. Simples. A palavra sofrida e contraditória em sua necessidade eterna e eternamente frustrada de expressar a alma. O ímpeto é, entretanto, indissolúvel.

A contradição é a regra, mas isto não procede.

A certeza é a dúvida? É ou não é?

Saber do que se está falando (ou escrevendo) (ou pensando) é impossível. Se sabe de coisas instantâneas no momento presente, somente, e, instantaneamente, as guilhotina. O que vem vai. Futuro é tão irreal quanto passado. Eis a regra.

A pessoa que declina o verbo. O verbo que declina a pessoa. O vai e vem da transformação. A limitação do ilimitado.

O ser humano é, mas não sabe, não percebe, não entende e amarga em tentar saber, perceber, entender, ser...

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Violência Silenciosa

A mera opinião de uma pessoa pode ser violenta para você, se você se sente inseguro de si e o que lhe falam à volta lhe estremece.
Se um dia te apontarem o dedo na cara e disserem algo sobre seu íntimo, acusarem e ofenderem, você bamboleia e cai.
Se forem injustos sobre teu caráter a revolta não encontra expressão, você fica mudo, possesso em vão.
A reação é ineficaz, algo te diz.
Porque pouco importa para eles.

O espírito ruim é seguro de si, mas apenas em relação à insegurança dos outros.
O espírito em transformação é inseguro de si e confuso, está entre os dois lados.
O espírito bom é seguro, independentemente da concepção do "eu".


O espírito ruim não se acha ruim.
O espírito intermediário sabe que é bom mas se acha ruim.
O espírito bom não se acha. Sabe de algo indescritível.

Não se achando ruim, o espírito ruim perpetua seus vícios e sadismos.
Sem determinação, o espírito intermediário alimenta sua angústia.
Sem entrar em questões que sejam, o espírito bom vigora absoluto.

Naquilo que ofende, o cínico se justifica.
Naquilo que hesita, o hipócrita se submete.
Naquilo que lhe é natural, o forte vê toda a realidade.

Quase se absolve o oportunista no benefício do ingênuo.
Quase se absolve o ingênuo na confiança ao vigarista.
Quase se aproxima de muito e de pouco ao mesmo tempo para que aquele que é honesto perca tempo com isto.

Um manda para saciar o poço sem fundo do inexplicável.
Outro obedece para saciar o poço sem fundo do inexplicável.
Ambos afogam o medo que morre de medo de morrer afogado.
Nenhum deixa de ter medo e viver em cíclica relação a isto.
Mas há quem observe; é aquele que não teme sentir o medo e que por isso pode cessá-lo.
Não reage, não é abalado em sua ação de observar.

A violência está até numa semente que brota ou num ovo que cai.
O silêncio está em tudo e a violência também.
O medo está em tudo e a tranquilidade também.