Nome: Sr. de Alencar
Chame apenas de Alencar, pois é o que me difere do resto imundo da humanidade. Sim, sou triste, sou frustrado. Esposa jaz morta há 30 anos e eu com 69 resisto em acreditar que a vida é boa. Uma ova! Mentira! Comecei assim dizendo para terem idéia de como sou: um falso cidadão numa falsa sociedade. Esperanças? De me processarem, já fiz tanta coisa ilícita, dei até pista pra me pegarem. Monotonia. Uma aventura agora cairia bem - digo desde jovem, quando arrumava confusão com todo mundo, louco pra reagir e mostrar que eu tinha razão em alguma coisa. Agora o que custa dar um tapa na bunda duma dama - de classe - nos corredores chiques dum teatro caro? Um tapão! Tumulto, gritos, escândalo, indignação, ameaças e risos - meus, é claro. Rir pra não chorar. Exemplo do que cabe a um velho louco, nunca fiz, pra minha maior frustração.
Volto do escritório sujo e velho, repleto de estagiários retardados e incompetentes - jovens sem desejos de prosperar na vida; pego um ônibus também sujo, também velho, cheio de sovacos, eu sufocado, dor de cabeça, corpo fraco, pulmão cansado, pele seca tal qual meus olhos; chego num apartamento pequeno (o terceiro em 2 anos, visto que a cada dia preciso de mais remédio), em Copacabana, onde divido, num prédio medíocre de 10 apartamentos por andar, o meu, o 307, com o ensurdecedor barulho das brigas, dos carros, dos latidos e com a presença inevitável e constante de animais, como o síndico (que insiste em achar que sou eu que ligo alto o rádio que nem tenho), algum cliente desesperado (nunca dei meu endereço a ninguém), os ratos e as baratas. Mas moro lá só eu - sujo e velho.
Não sou feliz nem finjo. Não sorrio pros outros nem dou bom dia a ninguém. Durmo com vontade de chorar. Só não choro porque aí seria o fim: só se lamentam as perdas e as dores e eu já sou a ruína derradeira da minha vida. Quem choraria por mim? Querer receber um agrado na cabeça e nos cabelos já deitado, alguém que me cobre, apaga a luz e continua acordado, me deseja boa noite, sorri e sai do quarto no escuro, proprietário dos problemas de adulto que desconheço aliviado, mesmo estando velho e caquético, me seria um conchego sem fim e aquela sensação de criança de que haverá algo novo e gostoso para se descobrir amanhã.
16 de Abril de 2004
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