terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Sobre os macacos

conotação
1. Dependência que se nota entre duas ou mais coisas.
2. [Linguística] Sentido mais geral que se pode atribuir a um termo abstrato, além da significação própria.

Diz-se conotação a impressão que temos e que damos às coisas.
Dá-se ao macaco o significado que quiser e indiferente à conotação que se dê a ele ou que se tenha dele, ele existe para-além da forma de percepção.
Enquanto os conceitos são compartilhados entre membros de um grupo capaz de formar conceitos e compartilhá-los e, havendo vários grupos e subgrupos e inter relação entre todos, cada pessoa, em sua mais profunda intimidade e no âmago de seu ser encontra sua própria verdade sobre o macaco.
Uns assombram-se, outros o admiram. Por vezes o macaco é o conceito que se faz, por outras é a impressão que se tem. Todos concebem para si um macaco em relação ao conceito que se tem a partir de si mesmo sobre o macaco. E o macaco não é a concepção que se faz, mas a concepção que se faz de si mesmo em relação a ele.
Em ambas as ocasiões o tempo transforma todas as formas e as abstrações fluem descaracterizando o existir que tende continuamente à novas formas e abstrações derivadas sempre da consciência iludida em si mesma enquanto ignora que tudo é vazio de substância própria.
Sendo o tempo um agente transformador no qual se esvai tudo que por ele passa, a realidade é momentânea, nasce e morre num único instante. Num único instante o existir e o não existir. O macaco é vazio de substância própria. A mente é vazia de substância própria. O vazio é vazio de substância própria. Conceito é vazio de substância própria.
A existência corre como um rio que escorre nos sulcos da terra e transpassa as pedras: aparentando ser uma coisa, ele está em plena e evidente transformação; não é o que aparenta, nem o que não aparenta. Observar o rio ou fazer qualquer observação de qualquer coisa é algo que existe a partir de um ponto conceitual que da mesma forma atravessa o tempo, transformando-se continuadamente, jamais permanecendo igual dentro da Lei da Impermanência. São muitos e infinitos os rios que aparentam ser o mesmo e ele não é nenhum deles. Existe e inexiste.
Assim, uns concebem o macaco como algo negativo, que comparado ao homem é inferior, "está a um passo atrás’’ na evolução das espécies, tacanho e primitivo, um rascunho de ser humano.
Outros, todavia, o vêem como um ser eloqüente, esperto, cheio de energia, cooperativo e em conformidade com sua natureza. Para estes a imagem do macaco é positiva.
Além do mais, se comparado a outras espécies, o macaco é muito evoluído. O conceito geral de divino lhe escapa, mas nós, mesmo concebendo o divino, nos encontramos tão distantes dele que se a ele formos comparados, estamos também muito atrasados.
Seja lá o que o divino for, sempre será de acordo com a percepção pessoal de cada um.
Conceber o divino é abarcá-lo. O divino tem, para a pessoa que o concebe, ela própria como fonte desta concepção. Ora, o divino está em sua origem.
E por que não assumir uma existência divina, se a concebemos?
A existência, tudo e qualquer coisa é só um conceito. Sem conceituar coisa alguma o macaco é coisa alguma e mais aquilo tudo que ele é e não percebemos em nossa experiência.
A experiência de cada um é um universo vazio de existência própria e por isso o negócio é ser feliz sem precisar de motivos. Se creditarmos nossa satisfação no que quer que seja estamos fadados ao sofrimento.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sou?


Hoje tudo que é verdadeiro demais é suspeito.
Duvida-se daquilo que se vê.
Verdadeiro demais?
Ou é verdadeiro ou não é.
As manifestações de tudo são tidas como irreais, falsas, pretensas;
E o ponto de vista que se tem para se conceber isto é somente o próprio.
"Posso ter certeza de ser o melhor de todos e de que tenho a razão?"
Pior que posso.
"Posso confiar na minha visão das coisas?"
Ela é única, porém minha visão das coisas existe no mesmo plano de limites em que todos aqueles que na minha concepção existem tem também para si cada um a própria concepção das coisas.
"Ainda assim considero-me acima dos outros e sabedor de todas as coisas."
Concebemos a existência e não a aceitamos ao mesmo tempo.
É verdadeira a sua existência, por mais que não se explique.
A explicação seria infinita, poderia começar e acabar em qualquer momento, ter por base qualquer coisa e justificar-se a seu bel prazer sempre sob seu próprio critério.
Por exemplo, uma discussão hipotética:
Quem acha que o efeito da maconha é o de emburrecer, está incutindo aí o seu maior medo, que é o de emburrecer. Aquele que teme emburrecer concebe essa possibilidade poir si mesmo! Naquilo que a sociedade em questão concebe como objeto cabível de descriminação, esconde suas vergonhas. A repulsa e o apego são um só. Odeia a maconha, mas odeia admitir que tem medo de ficar burro ou de evidenciar sua burrice.
Já quem fuma e concorda que fumar emburrece é de fato um burro.
Contudo, para toda esta questão ser inteiramente iluminada, precisaria haver um estudo sobre a concepção de burrice, pois o que um vê como desprendimento dos problemas materiais ou existenciais o outro entende como fuga da realidade. Não obstante, quem vê a(s) coisa(s) como sendo má(s), concebe continuamente a maldade e ainda lhe atribui aos outros. Crê estar protegido na distância que cria entre si mesmo e aquilo que repele. Seu discurso é o da repulsa aos objetos e conceitos eleitos para expiar seus próprios medos, ao mesmo tempo repete o tema e o enxerga demasiadamente em tantas coisas, jamais interconectando-se genuinamente. Quem vê o mal nas coisas tem o mal nos olhos.
Enquanto isso, aquele que manifesta um estado tranqüilo nada precisa justificar. O que há é repouso, falta de dúvidas, escassez de ansiedade, alívio e pureza. "A vida é uma poesia e nada pode me tocar. Isto faz de mim alguém que desconhece a verdade da doença, da velhice e da morte? Torna-me alheio a algo?"
Estamos vivendo a futilidade macro e microscopicamente, dando atenção a esses conteúdos , lendo, comentando e disseminando. Contradição: Julgamos inofensivas nossas atitudes particulares, mas não é sem cada um de nós que o todo é formado? Na verdade, o que sentimos, pensamos e fazemos reverbera o que somos pelo mundo e retorna a nós como o mundo em que fazemos parte.
Ou seja, somos exatamente aquilo de que reclamamos.
Somos a fonte da nossa insatisfação.
Concebemos aquilo que nos incomoda.
A verdade é evidente a todo instante, na verdade só ela é que existe. A mais pura verdade, seja lá qual for. O que for é. O que não for também é.
Conclusão: é tudo obra da nossa mente que é totalmente livre e sem limites para criar inclusive seus próprios limites. A fantasia vai até onde você se deixar fantasiar.
E a verdade é apenas isso.
É a minha imaginação.
É a solidão do “eu” que não quer admitir a própria insubstanciabilidade.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Enfia!

Vai!
Enfia a cara no travesseiro para o mundo não vir te pegar!
Espera o Salvador chegar!
Vai esperar! Vai esperar. Vai esperar...

A salvação não vem de fora da sua carne alucinada
Que justamente separa o resto do mundo que agoniza e gargalha
Independente de você!
Essa é a sua vida, a única vida. Te pergunto se é a vida que quer ter!
E eu duvido!

Sua anestesia não te cura!
Sua fuga desperdiça!
Você se adia,
isso é que é loucura!
A má loucura,
Que é a preguiça!

Vai!
Enfia a cara no travesseiro para o mundo não vir de pegar!
Espera o Salvador chegar!
Vai esperar! Vai esperar. Vai esperar...

Quem sou eu?

Eu achei que fosse Deus, que fosse Buda.
Eu achei que fosse Deus, eu sei, mas quem sou eu?

Bandeira amarela, sensação de alegria
Por dentro sou vermelho, por fora fantasia.
Tiro fotografia de tudo que eu olho
com os olhos da minha cara e de repente o mundo pára.
Me transformo no que eu quero, me debato, desespero.
Tenho várias sensações diferentes ao mesmo tempo,
Sinto o prazer e a dor, mas não sinto sofrimento.
Eu achei que fosse Deus, que fosse Buda.
Eu achei que fosse Deus, eu sei, mas quem sou eu?

Quando a conheci...

Quando a conheci tudo que era ela era tudo que eu queria ter.
Tudo o que sofri foi por pura ignorância - sua aparência eu queria dissolver.

E não foi fácil descobrir o manto dos mistérios e perceber em mim
o que acredito e o que eu quero.

Tudo que existe parece, mas não é. E nada vai além do que parece ser.
Os traumas que eu crio das tramas da Mulher são pesadelos ruins que eu não quero ter.

E através dos olhos que me vêem e não me entendem
refletem no espelho a imagem que não existe em mim
da ilusão contida em você.

Se esvai

Não te vejo, não te ouço, não te sinto...
Você some.
Sua imagem se esvai...
Me despedaço e o espaço me consome!
Sua voz já se apagou, seus cabelos... onde estou?!
Tudo se foi...
Nada restou...
Esfrego e sangro a carne à procura do que for você!

Difícil adeus

Você se esqueceu de levar embora a sua pessoa dos momentos felizes.
Agora não rio, que você me aparece na ponta do meu sorriso.

Se eu quiser ser feliz, vou ter que te perdoar,
mas você nem sabe o que se passa na minha cabeça louca...
Você deve estar muito bem, longe de mim, que estou mal...
ainda não entendi direito o que foi que aconteceu entre nós dois,
porque acabou de um jeito tão... acho que vou chorar...

Se eu quiser ser feliz, vou ter que me aprofundar em mim
e me conhecer de um jeito que eu nunca vi
e me assustar com tudo aquilo de bom...
e parar de hesitar só por hoje...
para amanhã tentar novamente...
e me assustar... novamente...
até ser feliz, livre e feliz,
talvez louca e feliz, talvez só e feliz,
mas melhor do que isso aqui,
por favor!


Depoimento

Nome: Sr. de Alencar

Chame apenas de Alencar, pois é o que me difere do resto imundo da humanidade. Sim, sou triste, sou frustrado. Esposa jaz morta há 30 anos e eu com 69 resisto em acreditar que a vida é boa. Uma ova! Mentira! Comecei assim dizendo para terem idéia de como sou: um falso cidadão numa falsa sociedade. Esperanças? De me processarem, já fiz tanta coisa ilícita, dei até pista pra me pegarem. Monotonia. Uma aventura agora cairia bem - digo desde jovem, quando arrumava confusão com todo mundo, louco pra reagir e mostrar que eu tinha razão em alguma coisa. Agora o que custa dar um tapa na bunda duma dama - de classe - nos corredores chiques dum teatro caro? Um tapão! Tumulto, gritos, escândalo, indignação, ameaças e risos - meus, é claro. Rir pra não chorar. Exemplo do que cabe a um velho louco, nunca fiz, pra minha maior frustração.

Volto do escritório sujo e velho, repleto de estagiários retardados e incompetentes - jovens sem desejos de prosperar na vida; pego um ônibus também sujo, também velho, cheio de sovacos, eu sufocado, dor de cabeça, corpo fraco, pulmão cansado, pele seca tal qual meus olhos; chego num apartamento pequeno (o terceiro em 2 anos, visto que a cada dia preciso de mais remédio), em Copacabana, onde divido, num prédio medíocre de 10 apartamentos por andar, o meu, o 307, com o ensurdecedor barulho das brigas, dos carros, dos latidos e com a presença inevitável e constante de animais, como o síndico (que insiste em achar que sou eu que ligo alto o rádio que nem tenho), algum cliente desesperado (nunca dei meu endereço a ninguém), os ratos e as baratas. Mas moro lá só eu - sujo e velho.

Não sou feliz nem finjo. Não sorrio pros outros nem dou bom dia a ninguém. Durmo com vontade de chorar. Só não choro porque aí seria o fim: só se lamentam as perdas e as dores e eu já sou a ruína derradeira da minha vida. Quem choraria por mim? Querer receber um agrado na cabeça e nos cabelos já deitado, alguém que me cobre, apaga a luz e continua acordado, me deseja boa noite, sorri e sai do quarto no escuro, proprietário dos problemas de adulto que desconheço aliviado, mesmo estando velho e caquético, me seria um conchego sem fim e aquela sensação de criança de que haverá algo novo e gostoso para se descobrir amanhã.


16 de Abril de 2004

O Tiro que dei

Eu não tenho nada pra falar.

Hoje é um dia mudo.

Hoje é um dia surdo.

Quando eu ando pelas ruas

O céu está todo nublado

E a sensação que tenho

É a do ar estar pesado

Apesar de ter gente e carros

Apesar de ter carros e obras

Apesar de ter obras e gente

Apesar de ter até tiros

Não os ouço. É tudo silencioso.

Dá a impressão de que estou numa sala - silenciosa

Com o cadáver da minha vítima

Estendido no chão na minha frente

E eu sentado o dia inteiro

Contemplando o tiro que dei.

Poemerdinha

Minha mente vazia

Não pensa em nada.

Minha bunda em cima

Da privada faz força.

Abro a rosca

Sobre a água

Essa água parada

Onde não há mosca.

Neste momento ponho pra fora

Todas as cargas de um dia inteiro.

A flor do intestino

Também é a flora

De um corpo que murcha

Neste banheiro.

A entrada é na boca.

Meu corpo está nu.

E para os líquidos

Há outra saída.

O cocô que escorrega

lambuza meu cu.

Acerto a mira

Quando atiro com a pica.

Senhorita Puta

Olá, Srta. Puta!...

Eu... não me tornaria jamais cego à sua existência e à toda imundície que retumba e se relambe à sua volta. Não. Nada a lhe contrapor.

Mas existem poucas coisas úteis que posso mencionar a seu respeito, que valham a pena lembrar. Nada, porém que a torne valiosa para mim, da maneira como tudo e todas as coisas de certa forma tem o seu valor. E se houvesse seria melhor não mencionar. O melhor seria negar tudo isso.

Vim aqui para cobrar-lhe serviços. Sei que não faz sexo por amor há muito tempo.

Eu também não.

Por isto estou aqui. Sinto falta de trocar sentimentos de paixão...

Não quero experimentar o prazer artificial de penetrar por dinheiro!

Fique tranqüila: vou pagar o seu preço, mas

mesmo assim o que eu quero

é apenas passar a mão em seu pescoço,

acariciar seus ombros

olhando em seus olhos,

enquanto falo palavras sinceras.

Você não as ouve ou não as compreende. Também estranha essa atitude inusitada.

Essa é uma atitude desesperada, Srta. puta!

O amigo que veio comigo não entende disso.

"É só curtição"- ele diz. Isso não seria curtição jamais para mim.

Isso é vazio.

Eu choraria. Mas não ouso tentar, porque não resolve problemas.

A beleza não importa.

O cheiro não importa.

A posição não importa.

Se quiser me satisfazer pela metade, masturbo-me. É tão fácil, tão prático.

Mas o problema continua a atormentar-me,

sendo a ejaculação solitária, o choro da minha alma apaixonada.

Para resolver o problema por inteiro não existe preço. Não existe tempo nem sorte.

Não existe o próprio problema se não quiser. Resolva-se na rua. Paga-se.

Será que me apaixonaria por uma puta?



Janeiro 2003

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Lançamento do livro CRÔNICO! - Crônicas brasileiras ilustradas


Lançamento do livro CRÔNICO! - Crônicas brasileiras ilustradas. "O escritor" é de minha autoria. Em breve escaneio e publico a imagem.



Saúdo o ilustrador que fez um desenho muito legal do meu conto. 



quarta-feira, 28 de setembro de 2011

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Eu sofri, e sei que tudo foi por minha própria causa.
Agora sei: tudo é por minha própria causa.

sábado, 17 de setembro de 2011

Em 8 de agosto de 2011...

Depois de um dia quieto e improdutivo, de ter me sentido um tanto inútil e desgraçado, não merecedor do amor e da beleza nem capaz de expressar-me, amar ou gozar a vida, agora, de repente, sinto uma onda de prazer; inexplicável, sem razão e consequencia sei lá de quê. Te amo, te quero, sou um arranha-céu na sua cidade, quero ser a palmeira real na sua selva e ser assim por séculos, quieto e vivo, vibrando bem-estar, e você é o mundo, o mar, os pássaros que em meus galhos pousam e das folhas secas fazem ninhos, te quero, vida pulsante, materializada numa mulher, expressa na particularidade da sua alma... Sou uma mudinha ou um projeto de desenho no papel...

Você é o sonho, ainda sonhado, no limiar entre o real e o onírico, prestes a evaporar cruelmente e me deixar no deserto da verdade incompreensível, do sofrimento eterno, ou prestes a mudar completamente a minha existência, na direção do sucesso, da realização, da plenitude, da possibilidade de todas as possibilidades. Você sou eu, de um jeito ou de outro. É a confirmação da minha verdade. É o ponteiro do meu sucesso ou fracasso. A resposta das minhas preces ou o castigo das minhas pragas. É relativa à minha relatividade. É a pauta das minhas notas, o tônus da minha estrutura, o norte da minha bússula, a terra úmida, fértil e deliciosa, onde quero pisar descalço, plantar toda a humanidade e me enterrar com o coração quente e feliz.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Simples Universal e Maluco

SIMPLES UNIVERSAL E MALUCO


Atenção! Atenção Todos! Senhoras e Senhores! Mendigos e Trabalhadores! Crianças e Cachorros!

Aqui somos todos iguais! Ninguém costura bolso na mortalha! E por isso vamos contar a história de Zé Carneiro, um sujeito muito arteiro que além de não ter dinheiro e viver na gandaia, de maracutaia e na maior farra, é uma história que nos mostra com clareza que ter a bufunfa cheia não serve a mesa: quem serve é a empregada!

Zé Carneiro está aqui entre nós, escondido! Pois embora ele seja real e até muito banal, é tímido e pensa que para se apresentar precisa estar bem vestido, saber falar, ser bom marido, sempre agradar, ter o dever cumprido (Ih, mas ele deve, e não é pouco!) E já está até rouco de tanto pedir emprestado, além do mais é um safado: sem nenhum receio levou minha mulher para um passeio no mês passado para chorar as mágoas da infância e eu, na minha santa ignorância, nem desconfiei! Ela voltou só ontem toda modificada e...

...E essa história eu sei! Não dorme mais deitada, cozinha com a cara amarrada e o Zé Carneiro passa o dia inteiro batendo de casa em casa atrás de quem ouça suas mágoas e – filho da …

...Já se escuta seu assobio faceiro, quem se aproxima é Zé Carneiro!


É isso aí pessoal, vamos para outras bandas que de manhã cedo o galo canta e se durante o dia não correr ligeiro de noite não tem janta!

Vamos, eu e meu parceiro atrás do tal do Zé Carneiro, que se passou por aqui, já foi! Veja que dentro do meu chapéu está a chance que caiu do céu de comer hoje ainda um feijão com arroz!



quinta-feira, 14 de julho de 2011

Trabalho

De que adianta a angústia se na certeza do fim, do fracasso e da derrota não há mais nada?
Para que a ansiedade se o que há de dar certo dará?
Para que o medo se fora daqui e além do agora inexiste?

Temos em nós forças desconhecidas e nada é mero acaso.
Se gasto saliva, falo para as paredes, jogo pérola aos porcos,
só sei de mim, e é só o que tenho que saber.

Não há ninguém que saiba o meu valor mais do que eu.
Eu sou senhor do meu destino e tenho por princípio este instante.

O que importa é ser feliz e amar.

Nessa vivência não há apocalipses nem paradigmas.
Mas no meio da tempestade, paz;
na perda, na destruição e na morte, aprendizado;
no inesperado, a auto-descoberta.

Não há dúvidas que a situação difícil nos desafia a sermos melhores.
Se desistirmos nada terá valido a pena - coisas boas ou ruins:
depois que elas passam são lembranças das nossas vitórias e superações.
E é a história da nossa vida.

Sem um caminho turbulento não há como um final ser feliz.
Sem a fé não há como atravessar nem como louvar a vida.

O mais belo sorriso é sem peso;
o maior alívio está na dignidade;
a melhor atitude é a força de vontade.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Atmosferas

Um começo imperfeito
Mas há sempre o recomeço.
Antes não sabe depois
senão agora.
A perfeição esta no tempo que se desfaz...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Alma bruta na fornalha - distúrbio



Ele estava louco, insano. Quem se atreveria a falar-lhe qualquer coisa que fosse? Quem teria coragem de interromper sua linha brutal e assassina de pensamentos?
Os olhos injetados, a seriedade extrema.
A incontrariedade.

Você se jogaria na frente do trem para pará-lo?

Então você não faria nada diante do turbilhão trucida, da máquina humana, da raiva encarnada e da força extrema, canalizada na ação destruidora.

Medo.

Vê a quantidade de erros amontoados no erro, mas desfazê-los como? Não com pressa, não agora, não mais. O que tiver que ser, mesmo no erro, será, por pior que seja. Ele não irá parar. Ele não vê as lógicas possíveis. Só é possível para ele a lógica daquilo que só ele vê. Sua análise já foi feita e, pode ser obtusa, mas é clara, dentro de sua patologia - agulhas por todos os lados. Medo.

Seus passos são a contagem progressiva do terror. Efusivo, marcam seus movimentos a tragédia que se dará pelas mãos, palavras e pela dor.

O pavor contínuo é como a água que ferve, a cabeça incendiada, aflição, maldade, cegueira, niilismo, explosão, fúria e imensidão.



Uma bola de ferro arrebenta concreto e ferro - isso não é nada.
Uma maldade é feita sem porque.

O medo da pessoa ao seu lado, a situação a qual está preso, a interminável angústia, o pavor, a histeria muda.

Cabelos caem, olhos saltam, o coração estira...
A voz acaba, o grito falha, a ansiedade ao infinito.

Não se poderá voltar atrás. Resolutivo e prático em sua vingança.
Ostentação, consumação, erro.

O que não era para acontecer.

O comentário oportuno, leve, a distração que desvia o trem e

Isso não era esperado mas muda tudo.

Foram algumas palavras bem colocadas o suficiente para fazer pensar. Ou, desfazer o pensar.

A chance e a esperança.

A tentativa e a esperança.

A interferência e a influência.

A simplicidade, a ingenuidade.

A ironia, a verdade.

A avalanche, o distúrbio, tudo isso desaparece

E a história não precisa continuar.


domingo, 10 de abril de 2011

Você?

Passos molhados, chão de poças, gotas grossas chuviscam desagradáveis, ando rápido, o rosto contorcido e virado para baixo. Prostrado.

O frio áspero chicoteia-me as vísceras que escorrem pelas ruas elétricas escorregam e perdem energia, morrem.

Rodeio cansativo vilas de marasmo, escuro, vejo cinzas onde moram esquecidos lugares vazios, personalidades perdidas, vãs e fantasiadas da falsa realidade.

Cidade macabra não existe na vida de ninguém nessas pedras paredes escadas.

É o própria estigma.

Sempre haverá o que se fazer por dinheiro, assim como muitos para fazer direitinho.
Se não por isto, então não mais o quê do porquê. Então não há mais nada, além do dinheiro.

Vê televisão.

Mas continuam passos sobem ladeiras afina a sola do sapato pelos dias contínuos de todos os dias, respira rítmico, marcha, atravessa o cemitério urbano, vivo e morto, mortos e vivos pendurados no cabide do armário esperam ser escolhidos para amar e serem amados, desgastam-se na esperança cega de coisa nenhuma, vivem de alma triste, presos na lama da malandragem, complacentes, ignorantes, frágeis, se escondem de si e dos outros, sua existência pensam ser para nada.

De quem estamos falando?

sábado, 12 de março de 2011

Dualidade

Aquilo que é de Deus
Por isto mesmo é belo,
mas a beleza nem sempre é aparente.
O que é belo, contudo,
muitas vezes não passa de aparência
que tem por de trás de si
a sanha do Diabo.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Estúpida e parva (Jainá Ludolf)


Escrevo sobre questões transmigrantes sem nem saber onde isso vai dar. O que isso é, se é que não é nada, é menos ainda do que tudo isso. Vejamos: duas linhas de palavras e absolutamente nenhuma informação, nenhuma história, descrição ou fatos, nem mesmo um registro de números... - nada! Somente um monte de palavras jogadas fora e assim começa a história da escritora que não tinha nada o que contar.
Você continua lendo?
Então vou continuar escrevendo.
Hoje, antes de chegar no escritório imobiliário onde trabalho há 35 anos passei pelo centro da cidade numa grande caminhada, percorrendo três bairros e meios. Aproximando-me do Largo da Carioca, ia eu medindo passos, trotando imersa onde à volta todos boiam brutos num mundo em que eu sou uma cretina e quero saber como me livrar da carga negativa desses filhos da puta. Observo-os cada um em sua causa particular dividida em faces diárias, vagando lunáticos por onde alguma lógica os guia, loucos, perdidos e ludibriados, crendo-se responsáveis por estarem atrás de uma linha de pensamento qualquer.
Para eles há sempre desculpa para tudo.
Observava essas e outras pessoas, estranhas, como a senhora exagerada de vestido vermelho. Um aplique torto nos cabelos, forte maquiagem, enorme franja sobre os olhos. Falsa. Um fio de suor sofrido é um riacho na pele rugosa que sob o sol tosta... Como era a vida dessa mulher, pensei. Tola eu fui.
Um tarracho nortista manca, severo a tudo à volta e um olho tímido de suplício; o típico magrelo pele, osso e bigode chupa um cigarrinho no bar de todas as esquinas. Outros por ali também gemiam, hálito de remédio, náusea coletiva, vozes toscas e vontade de torcer o pescoço daquele que vem ali, entrevisto no meio de toda a gente. 
Através da espuma da onda estourada surge desse turbilhão das ruas e ainda em seu meio some - se eu não voltasse meu rosto e meu corpo e parasse... Sem, contudo, sobressair a ninguém mais, encarava-me, estúpida e parva, no reflexo da vitrine.

--

Jainá Ludolf

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Chove! Sim! Arrebenta!


A natureza vai engolir a gente, porque é maior.

Como a ameba para a baleia: uma não concebe a outra, contudo uma absorve a outra;

como as ideias para os humanos, fragmentárias ao infinito, de todo modo possíveis e rejeitadas pela mesma vaidade e burrice.

Nós, entretanto, nos sujeitamos a elas.

Não sujeitamos elas à nós (que seria ideal), mas a elas nos submetemos.

Somos influenciados e transformados por elas, queiramos nós ou não.

Ideias estão no ar. As respiramos.

Somos como a baleia que engole amebas sem saber.

O universo está além de nossa compreensão e é essa a sua natureza,

somos como a poeira no ar da estrada.


Chove! Sim! Arrebenta!

É a destruição.

Cabe a nós vivermos libertos do universo de conceitos que nós mesmos criamos. Quebremos nossos próprios paradigmas! Pois eles serão quebrados de qualquer maneira.

Libertemo-nos da ideia de ser o que somos, pois não somos a mesma coisa nem por um só instante.


Apegados à nossa personalidade, aprofundamos os laços com as ideias fixas, por mais naturais que elas pareçam ser, são, na verdade, prisões.


A realidade se destrói com o tempo.

O tempo faz parte da natureza.

Nós obedecemos às leis da natureza.

E nada permanece.

Tudo vai com o tempo.

Tudo vai a todo instante.

O presente?

Um instante.


Observe.
O presente.
Não diga nada!
Antes: não pense!

Só observe.

Não dê nome.

Não tenha reação.

Seja! Seja você mesmo, invicto, inquebrantável,

vencedor desta queda-de-braço entre sua força

que independe de explicações

e as explicações que se podem dar a tudo,

e são,

para tudo,

desnecessárias.


Mantenha-se quieto – não pense!

Todo poderoso sobre si,

sua não-reação é na verdade uma ação

originária do poderoso livre arbítrio daquilo que é e não é ao mesmo tempo.

Sem explicação. Mas invicta, é essa coisa.

A ação é independente.

Antes, o pensamento é totalmente livre.


E aquilo que nos ronda, circula e fecha hermeticamente é,

na verdade,

a ilusão – quando nos deixamos levar soltos por fluxos de pensamentos...


Choramos as ilusões perdidas.

Perdemos tudo o que mais amamos.

Porque damos às coisas significado, e aos significados mais significados ainda.

Enredamos-nos numa grande teia de significados e estamos presos.

E a cada significado, destruição.


Morre uma pessoa, morre uma paixão, morre um ideal, morre um conceito, morre uma cidade, morre uma civilização, morre uma cultura e suas músicas que um dia foram inesquecíveis. Morre a lembrança do que um dia foi inestimável. Se apaga. Depois de um fluxo de ideias ganhar vida própria em seus pensamentos, percorrê-los solto, submetendo-lhes a vontade e você isso permitir, esse fluxo lhe tomará os sentimentos e lhe determinará as emoções. Domina a si mesmo e deixe que todos os fluxos em torno sejam matéria de observação, cabendo ao seu indissolúvel e onipotente âmago sondar a felicidade naquilo que não se explica.


Toda explicação para a fúria da natureza é inútil.

Toda tentativa de ir contra ela é inútil,

se não for contra si mesmo, na verdade.

Aquele que tentar mudá-la será marcado por angústias.

Mas afinal mudará a natureza das pequenas coisas? Modificará a matéria das coisas?

Ainda que sim, não mudará em nenhum fio a natureza maior. À que está submetido.

É o coveiro com a pá, o buraco e o próximo passo.

É a porta de entrada para onde estamos nos levando dentro de uma realidade em que nós somos levados porque deixamos.

A tragédia são menos as mortes e mais a prisão a que estamos submetidos.

Morrem parentes, morrem amigos queridos, sempre morrem, sempre...

E nós, que à morte não escaparemos, sequer compreendemos, choramos a existência, como um fato consumado e infeliz. Tememos e trememos, enervados, ansiosos, culpados e cheios de arrependimentos ocultos.

Será sempre assim e, se renascermos, será novamente assim: sempre que recomeçarmos, tudo será novo e com o tempo será velho, desaparecerá e nós a isso tudo veremos com tristeza e insatisfação. Já a satisfação, se encontra no desapego de toda ideia ou coisa que possamos depender para ela mesma.

Se essa verdade não nos é clara nas pequenas coisas quotidianas, se somos cegos às constantes lições em nossas vidas pacatas (letárgicos às forças externas que nos comandam e nos atiram de um lado para o outro em infinitas questões), então essa verdade terá que se tornar clara através de grandes coisas gerais, maiores do que as que não tem sido o suficiente para mudarmos.

O pé delicado que pisa a grama é a tragédia das formigas. A natureza dos nossos pensamentos está para o pé delicado assim como nós estamos para as formigas.

Não tem como escapar às leis da natureza, porém pode-se quebrar os próprios paradigmas e não seguir o fluxo dos que agem iguais.

Iguais eles estão em serem os próprios inimigos.

Humanos! Tão assustados com tudo o que destrói suas concepções.

É tão horrível ter uma concepção quebrada.

O sofrimento não está na destruição das coisas, mas antes: em ter se iludido na permanência delas. Nesta ignorância.

A felicidade não está nas coisas, mas em contentar-se sem ter com o que.


Molha, parte, desaba,

amontoa, deforma, racha,

destrói e corrói,

pulveriza, perece,

apodrece, descasca,

degrada, rasga,

dissolve, desmancha,

envelhece, seca,

evapora, desfaz,

morre,

enterra,

esquece.




Gabriel Schilling Springer Pitanga