terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Sobre os macacos

conotação
1. Dependência que se nota entre duas ou mais coisas.
2. [Linguística] Sentido mais geral que se pode atribuir a um termo abstrato, além da significação própria.

Diz-se conotação a impressão que temos e que damos às coisas.
Dá-se ao macaco o significado que quiser e indiferente à conotação que se dê a ele ou que se tenha dele, ele existe para-além da forma de percepção.
Enquanto os conceitos são compartilhados entre membros de um grupo capaz de formar conceitos e compartilhá-los e, havendo vários grupos e subgrupos e inter relação entre todos, cada pessoa, em sua mais profunda intimidade e no âmago de seu ser encontra sua própria verdade sobre o macaco.
Uns assombram-se, outros o admiram. Por vezes o macaco é o conceito que se faz, por outras é a impressão que se tem. Todos concebem para si um macaco em relação ao conceito que se tem a partir de si mesmo sobre o macaco. E o macaco não é a concepção que se faz, mas a concepção que se faz de si mesmo em relação a ele.
Em ambas as ocasiões o tempo transforma todas as formas e as abstrações fluem descaracterizando o existir que tende continuamente à novas formas e abstrações derivadas sempre da consciência iludida em si mesma enquanto ignora que tudo é vazio de substância própria.
Sendo o tempo um agente transformador no qual se esvai tudo que por ele passa, a realidade é momentânea, nasce e morre num único instante. Num único instante o existir e o não existir. O macaco é vazio de substância própria. A mente é vazia de substância própria. O vazio é vazio de substância própria. Conceito é vazio de substância própria.
A existência corre como um rio que escorre nos sulcos da terra e transpassa as pedras: aparentando ser uma coisa, ele está em plena e evidente transformação; não é o que aparenta, nem o que não aparenta. Observar o rio ou fazer qualquer observação de qualquer coisa é algo que existe a partir de um ponto conceitual que da mesma forma atravessa o tempo, transformando-se continuadamente, jamais permanecendo igual dentro da Lei da Impermanência. São muitos e infinitos os rios que aparentam ser o mesmo e ele não é nenhum deles. Existe e inexiste.
Assim, uns concebem o macaco como algo negativo, que comparado ao homem é inferior, "está a um passo atrás’’ na evolução das espécies, tacanho e primitivo, um rascunho de ser humano.
Outros, todavia, o vêem como um ser eloqüente, esperto, cheio de energia, cooperativo e em conformidade com sua natureza. Para estes a imagem do macaco é positiva.
Além do mais, se comparado a outras espécies, o macaco é muito evoluído. O conceito geral de divino lhe escapa, mas nós, mesmo concebendo o divino, nos encontramos tão distantes dele que se a ele formos comparados, estamos também muito atrasados.
Seja lá o que o divino for, sempre será de acordo com a percepção pessoal de cada um.
Conceber o divino é abarcá-lo. O divino tem, para a pessoa que o concebe, ela própria como fonte desta concepção. Ora, o divino está em sua origem.
E por que não assumir uma existência divina, se a concebemos?
A existência, tudo e qualquer coisa é só um conceito. Sem conceituar coisa alguma o macaco é coisa alguma e mais aquilo tudo que ele é e não percebemos em nossa experiência.
A experiência de cada um é um universo vazio de existência própria e por isso o negócio é ser feliz sem precisar de motivos. Se creditarmos nossa satisfação no que quer que seja estamos fadados ao sofrimento.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sou?


Hoje tudo que é verdadeiro demais é suspeito.
Duvida-se daquilo que se vê.
Verdadeiro demais?
Ou é verdadeiro ou não é.
As manifestações de tudo são tidas como irreais, falsas, pretensas;
E o ponto de vista que se tem para se conceber isto é somente o próprio.
"Posso ter certeza de ser o melhor de todos e de que tenho a razão?"
Pior que posso.
"Posso confiar na minha visão das coisas?"
Ela é única, porém minha visão das coisas existe no mesmo plano de limites em que todos aqueles que na minha concepção existem tem também para si cada um a própria concepção das coisas.
"Ainda assim considero-me acima dos outros e sabedor de todas as coisas."
Concebemos a existência e não a aceitamos ao mesmo tempo.
É verdadeira a sua existência, por mais que não se explique.
A explicação seria infinita, poderia começar e acabar em qualquer momento, ter por base qualquer coisa e justificar-se a seu bel prazer sempre sob seu próprio critério.
Por exemplo, uma discussão hipotética:
Quem acha que o efeito da maconha é o de emburrecer, está incutindo aí o seu maior medo, que é o de emburrecer. Aquele que teme emburrecer concebe essa possibilidade poir si mesmo! Naquilo que a sociedade em questão concebe como objeto cabível de descriminação, esconde suas vergonhas. A repulsa e o apego são um só. Odeia a maconha, mas odeia admitir que tem medo de ficar burro ou de evidenciar sua burrice.
Já quem fuma e concorda que fumar emburrece é de fato um burro.
Contudo, para toda esta questão ser inteiramente iluminada, precisaria haver um estudo sobre a concepção de burrice, pois o que um vê como desprendimento dos problemas materiais ou existenciais o outro entende como fuga da realidade. Não obstante, quem vê a(s) coisa(s) como sendo má(s), concebe continuamente a maldade e ainda lhe atribui aos outros. Crê estar protegido na distância que cria entre si mesmo e aquilo que repele. Seu discurso é o da repulsa aos objetos e conceitos eleitos para expiar seus próprios medos, ao mesmo tempo repete o tema e o enxerga demasiadamente em tantas coisas, jamais interconectando-se genuinamente. Quem vê o mal nas coisas tem o mal nos olhos.
Enquanto isso, aquele que manifesta um estado tranqüilo nada precisa justificar. O que há é repouso, falta de dúvidas, escassez de ansiedade, alívio e pureza. "A vida é uma poesia e nada pode me tocar. Isto faz de mim alguém que desconhece a verdade da doença, da velhice e da morte? Torna-me alheio a algo?"
Estamos vivendo a futilidade macro e microscopicamente, dando atenção a esses conteúdos , lendo, comentando e disseminando. Contradição: Julgamos inofensivas nossas atitudes particulares, mas não é sem cada um de nós que o todo é formado? Na verdade, o que sentimos, pensamos e fazemos reverbera o que somos pelo mundo e retorna a nós como o mundo em que fazemos parte.
Ou seja, somos exatamente aquilo de que reclamamos.
Somos a fonte da nossa insatisfação.
Concebemos aquilo que nos incomoda.
A verdade é evidente a todo instante, na verdade só ela é que existe. A mais pura verdade, seja lá qual for. O que for é. O que não for também é.
Conclusão: é tudo obra da nossa mente que é totalmente livre e sem limites para criar inclusive seus próprios limites. A fantasia vai até onde você se deixar fantasiar.
E a verdade é apenas isso.
É a minha imaginação.
É a solidão do “eu” que não quer admitir a própria insubstanciabilidade.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Enfia!

Vai!
Enfia a cara no travesseiro para o mundo não vir te pegar!
Espera o Salvador chegar!
Vai esperar! Vai esperar. Vai esperar...

A salvação não vem de fora da sua carne alucinada
Que justamente separa o resto do mundo que agoniza e gargalha
Independente de você!
Essa é a sua vida, a única vida. Te pergunto se é a vida que quer ter!
E eu duvido!

Sua anestesia não te cura!
Sua fuga desperdiça!
Você se adia,
isso é que é loucura!
A má loucura,
Que é a preguiça!

Vai!
Enfia a cara no travesseiro para o mundo não vir de pegar!
Espera o Salvador chegar!
Vai esperar! Vai esperar. Vai esperar...

Quem sou eu?

Eu achei que fosse Deus, que fosse Buda.
Eu achei que fosse Deus, eu sei, mas quem sou eu?

Bandeira amarela, sensação de alegria
Por dentro sou vermelho, por fora fantasia.
Tiro fotografia de tudo que eu olho
com os olhos da minha cara e de repente o mundo pára.
Me transformo no que eu quero, me debato, desespero.
Tenho várias sensações diferentes ao mesmo tempo,
Sinto o prazer e a dor, mas não sinto sofrimento.
Eu achei que fosse Deus, que fosse Buda.
Eu achei que fosse Deus, eu sei, mas quem sou eu?

Quando a conheci...

Quando a conheci tudo que era ela era tudo que eu queria ter.
Tudo o que sofri foi por pura ignorância - sua aparência eu queria dissolver.

E não foi fácil descobrir o manto dos mistérios e perceber em mim
o que acredito e o que eu quero.

Tudo que existe parece, mas não é. E nada vai além do que parece ser.
Os traumas que eu crio das tramas da Mulher são pesadelos ruins que eu não quero ter.

E através dos olhos que me vêem e não me entendem
refletem no espelho a imagem que não existe em mim
da ilusão contida em você.

Se esvai

Não te vejo, não te ouço, não te sinto...
Você some.
Sua imagem se esvai...
Me despedaço e o espaço me consome!
Sua voz já se apagou, seus cabelos... onde estou?!
Tudo se foi...
Nada restou...
Esfrego e sangro a carne à procura do que for você!

Difícil adeus

Você se esqueceu de levar embora a sua pessoa dos momentos felizes.
Agora não rio, que você me aparece na ponta do meu sorriso.

Se eu quiser ser feliz, vou ter que te perdoar,
mas você nem sabe o que se passa na minha cabeça louca...
Você deve estar muito bem, longe de mim, que estou mal...
ainda não entendi direito o que foi que aconteceu entre nós dois,
porque acabou de um jeito tão... acho que vou chorar...

Se eu quiser ser feliz, vou ter que me aprofundar em mim
e me conhecer de um jeito que eu nunca vi
e me assustar com tudo aquilo de bom...
e parar de hesitar só por hoje...
para amanhã tentar novamente...
e me assustar... novamente...
até ser feliz, livre e feliz,
talvez louca e feliz, talvez só e feliz,
mas melhor do que isso aqui,
por favor!


Depoimento

Nome: Sr. de Alencar

Chame apenas de Alencar, pois é o que me difere do resto imundo da humanidade. Sim, sou triste, sou frustrado. Esposa jaz morta há 30 anos e eu com 69 resisto em acreditar que a vida é boa. Uma ova! Mentira! Comecei assim dizendo para terem idéia de como sou: um falso cidadão numa falsa sociedade. Esperanças? De me processarem, já fiz tanta coisa ilícita, dei até pista pra me pegarem. Monotonia. Uma aventura agora cairia bem - digo desde jovem, quando arrumava confusão com todo mundo, louco pra reagir e mostrar que eu tinha razão em alguma coisa. Agora o que custa dar um tapa na bunda duma dama - de classe - nos corredores chiques dum teatro caro? Um tapão! Tumulto, gritos, escândalo, indignação, ameaças e risos - meus, é claro. Rir pra não chorar. Exemplo do que cabe a um velho louco, nunca fiz, pra minha maior frustração.

Volto do escritório sujo e velho, repleto de estagiários retardados e incompetentes - jovens sem desejos de prosperar na vida; pego um ônibus também sujo, também velho, cheio de sovacos, eu sufocado, dor de cabeça, corpo fraco, pulmão cansado, pele seca tal qual meus olhos; chego num apartamento pequeno (o terceiro em 2 anos, visto que a cada dia preciso de mais remédio), em Copacabana, onde divido, num prédio medíocre de 10 apartamentos por andar, o meu, o 307, com o ensurdecedor barulho das brigas, dos carros, dos latidos e com a presença inevitável e constante de animais, como o síndico (que insiste em achar que sou eu que ligo alto o rádio que nem tenho), algum cliente desesperado (nunca dei meu endereço a ninguém), os ratos e as baratas. Mas moro lá só eu - sujo e velho.

Não sou feliz nem finjo. Não sorrio pros outros nem dou bom dia a ninguém. Durmo com vontade de chorar. Só não choro porque aí seria o fim: só se lamentam as perdas e as dores e eu já sou a ruína derradeira da minha vida. Quem choraria por mim? Querer receber um agrado na cabeça e nos cabelos já deitado, alguém que me cobre, apaga a luz e continua acordado, me deseja boa noite, sorri e sai do quarto no escuro, proprietário dos problemas de adulto que desconheço aliviado, mesmo estando velho e caquético, me seria um conchego sem fim e aquela sensação de criança de que haverá algo novo e gostoso para se descobrir amanhã.


16 de Abril de 2004

O Tiro que dei

Eu não tenho nada pra falar.

Hoje é um dia mudo.

Hoje é um dia surdo.

Quando eu ando pelas ruas

O céu está todo nublado

E a sensação que tenho

É a do ar estar pesado

Apesar de ter gente e carros

Apesar de ter carros e obras

Apesar de ter obras e gente

Apesar de ter até tiros

Não os ouço. É tudo silencioso.

Dá a impressão de que estou numa sala - silenciosa

Com o cadáver da minha vítima

Estendido no chão na minha frente

E eu sentado o dia inteiro

Contemplando o tiro que dei.

Poemerdinha

Minha mente vazia

Não pensa em nada.

Minha bunda em cima

Da privada faz força.

Abro a rosca

Sobre a água

Essa água parada

Onde não há mosca.

Neste momento ponho pra fora

Todas as cargas de um dia inteiro.

A flor do intestino

Também é a flora

De um corpo que murcha

Neste banheiro.

A entrada é na boca.

Meu corpo está nu.

E para os líquidos

Há outra saída.

O cocô que escorrega

lambuza meu cu.

Acerto a mira

Quando atiro com a pica.

Senhorita Puta

Olá, Srta. Puta!...

Eu... não me tornaria jamais cego à sua existência e à toda imundície que retumba e se relambe à sua volta. Não. Nada a lhe contrapor.

Mas existem poucas coisas úteis que posso mencionar a seu respeito, que valham a pena lembrar. Nada, porém que a torne valiosa para mim, da maneira como tudo e todas as coisas de certa forma tem o seu valor. E se houvesse seria melhor não mencionar. O melhor seria negar tudo isso.

Vim aqui para cobrar-lhe serviços. Sei que não faz sexo por amor há muito tempo.

Eu também não.

Por isto estou aqui. Sinto falta de trocar sentimentos de paixão...

Não quero experimentar o prazer artificial de penetrar por dinheiro!

Fique tranqüila: vou pagar o seu preço, mas

mesmo assim o que eu quero

é apenas passar a mão em seu pescoço,

acariciar seus ombros

olhando em seus olhos,

enquanto falo palavras sinceras.

Você não as ouve ou não as compreende. Também estranha essa atitude inusitada.

Essa é uma atitude desesperada, Srta. puta!

O amigo que veio comigo não entende disso.

"É só curtição"- ele diz. Isso não seria curtição jamais para mim.

Isso é vazio.

Eu choraria. Mas não ouso tentar, porque não resolve problemas.

A beleza não importa.

O cheiro não importa.

A posição não importa.

Se quiser me satisfazer pela metade, masturbo-me. É tão fácil, tão prático.

Mas o problema continua a atormentar-me,

sendo a ejaculação solitária, o choro da minha alma apaixonada.

Para resolver o problema por inteiro não existe preço. Não existe tempo nem sorte.

Não existe o próprio problema se não quiser. Resolva-se na rua. Paga-se.

Será que me apaixonaria por uma puta?



Janeiro 2003