quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Estúpida e parva (Jainá Ludolf)


Escrevo sobre questões transmigrantes sem nem saber onde isso vai dar. O que isso é, se é que não é nada, é menos ainda do que tudo isso. Vejamos: duas linhas de palavras e absolutamente nenhuma informação, nenhuma história, descrição ou fatos, nem mesmo um registro de números... - nada! Somente um monte de palavras jogadas fora e assim começa a história da escritora que não tinha nada o que contar.
Você continua lendo?
Então vou continuar escrevendo.
Hoje, antes de chegar no escritório imobiliário onde trabalho há 35 anos passei pelo centro da cidade numa grande caminhada, percorrendo três bairros e meios. Aproximando-me do Largo da Carioca, ia eu medindo passos, trotando imersa onde à volta todos boiam brutos num mundo em que eu sou uma cretina e quero saber como me livrar da carga negativa desses filhos da puta. Observo-os cada um em sua causa particular dividida em faces diárias, vagando lunáticos por onde alguma lógica os guia, loucos, perdidos e ludibriados, crendo-se responsáveis por estarem atrás de uma linha de pensamento qualquer.
Para eles há sempre desculpa para tudo.
Observava essas e outras pessoas, estranhas, como a senhora exagerada de vestido vermelho. Um aplique torto nos cabelos, forte maquiagem, enorme franja sobre os olhos. Falsa. Um fio de suor sofrido é um riacho na pele rugosa que sob o sol tosta... Como era a vida dessa mulher, pensei. Tola eu fui.
Um tarracho nortista manca, severo a tudo à volta e um olho tímido de suplício; o típico magrelo pele, osso e bigode chupa um cigarrinho no bar de todas as esquinas. Outros por ali também gemiam, hálito de remédio, náusea coletiva, vozes toscas e vontade de torcer o pescoço daquele que vem ali, entrevisto no meio de toda a gente. 
Através da espuma da onda estourada surge desse turbilhão das ruas e ainda em seu meio some - se eu não voltasse meu rosto e meu corpo e parasse... Sem, contudo, sobressair a ninguém mais, encarava-me, estúpida e parva, no reflexo da vitrine.

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Jainá Ludolf

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Chove! Sim! Arrebenta!


A natureza vai engolir a gente, porque é maior.

Como a ameba para a baleia: uma não concebe a outra, contudo uma absorve a outra;

como as ideias para os humanos, fragmentárias ao infinito, de todo modo possíveis e rejeitadas pela mesma vaidade e burrice.

Nós, entretanto, nos sujeitamos a elas.

Não sujeitamos elas à nós (que seria ideal), mas a elas nos submetemos.

Somos influenciados e transformados por elas, queiramos nós ou não.

Ideias estão no ar. As respiramos.

Somos como a baleia que engole amebas sem saber.

O universo está além de nossa compreensão e é essa a sua natureza,

somos como a poeira no ar da estrada.


Chove! Sim! Arrebenta!

É a destruição.

Cabe a nós vivermos libertos do universo de conceitos que nós mesmos criamos. Quebremos nossos próprios paradigmas! Pois eles serão quebrados de qualquer maneira.

Libertemo-nos da ideia de ser o que somos, pois não somos a mesma coisa nem por um só instante.


Apegados à nossa personalidade, aprofundamos os laços com as ideias fixas, por mais naturais que elas pareçam ser, são, na verdade, prisões.


A realidade se destrói com o tempo.

O tempo faz parte da natureza.

Nós obedecemos às leis da natureza.

E nada permanece.

Tudo vai com o tempo.

Tudo vai a todo instante.

O presente?

Um instante.


Observe.
O presente.
Não diga nada!
Antes: não pense!

Só observe.

Não dê nome.

Não tenha reação.

Seja! Seja você mesmo, invicto, inquebrantável,

vencedor desta queda-de-braço entre sua força

que independe de explicações

e as explicações que se podem dar a tudo,

e são,

para tudo,

desnecessárias.


Mantenha-se quieto – não pense!

Todo poderoso sobre si,

sua não-reação é na verdade uma ação

originária do poderoso livre arbítrio daquilo que é e não é ao mesmo tempo.

Sem explicação. Mas invicta, é essa coisa.

A ação é independente.

Antes, o pensamento é totalmente livre.


E aquilo que nos ronda, circula e fecha hermeticamente é,

na verdade,

a ilusão – quando nos deixamos levar soltos por fluxos de pensamentos...


Choramos as ilusões perdidas.

Perdemos tudo o que mais amamos.

Porque damos às coisas significado, e aos significados mais significados ainda.

Enredamos-nos numa grande teia de significados e estamos presos.

E a cada significado, destruição.


Morre uma pessoa, morre uma paixão, morre um ideal, morre um conceito, morre uma cidade, morre uma civilização, morre uma cultura e suas músicas que um dia foram inesquecíveis. Morre a lembrança do que um dia foi inestimável. Se apaga. Depois de um fluxo de ideias ganhar vida própria em seus pensamentos, percorrê-los solto, submetendo-lhes a vontade e você isso permitir, esse fluxo lhe tomará os sentimentos e lhe determinará as emoções. Domina a si mesmo e deixe que todos os fluxos em torno sejam matéria de observação, cabendo ao seu indissolúvel e onipotente âmago sondar a felicidade naquilo que não se explica.


Toda explicação para a fúria da natureza é inútil.

Toda tentativa de ir contra ela é inútil,

se não for contra si mesmo, na verdade.

Aquele que tentar mudá-la será marcado por angústias.

Mas afinal mudará a natureza das pequenas coisas? Modificará a matéria das coisas?

Ainda que sim, não mudará em nenhum fio a natureza maior. À que está submetido.

É o coveiro com a pá, o buraco e o próximo passo.

É a porta de entrada para onde estamos nos levando dentro de uma realidade em que nós somos levados porque deixamos.

A tragédia são menos as mortes e mais a prisão a que estamos submetidos.

Morrem parentes, morrem amigos queridos, sempre morrem, sempre...

E nós, que à morte não escaparemos, sequer compreendemos, choramos a existência, como um fato consumado e infeliz. Tememos e trememos, enervados, ansiosos, culpados e cheios de arrependimentos ocultos.

Será sempre assim e, se renascermos, será novamente assim: sempre que recomeçarmos, tudo será novo e com o tempo será velho, desaparecerá e nós a isso tudo veremos com tristeza e insatisfação. Já a satisfação, se encontra no desapego de toda ideia ou coisa que possamos depender para ela mesma.

Se essa verdade não nos é clara nas pequenas coisas quotidianas, se somos cegos às constantes lições em nossas vidas pacatas (letárgicos às forças externas que nos comandam e nos atiram de um lado para o outro em infinitas questões), então essa verdade terá que se tornar clara através de grandes coisas gerais, maiores do que as que não tem sido o suficiente para mudarmos.

O pé delicado que pisa a grama é a tragédia das formigas. A natureza dos nossos pensamentos está para o pé delicado assim como nós estamos para as formigas.

Não tem como escapar às leis da natureza, porém pode-se quebrar os próprios paradigmas e não seguir o fluxo dos que agem iguais.

Iguais eles estão em serem os próprios inimigos.

Humanos! Tão assustados com tudo o que destrói suas concepções.

É tão horrível ter uma concepção quebrada.

O sofrimento não está na destruição das coisas, mas antes: em ter se iludido na permanência delas. Nesta ignorância.

A felicidade não está nas coisas, mas em contentar-se sem ter com o que.


Molha, parte, desaba,

amontoa, deforma, racha,

destrói e corrói,

pulveriza, perece,

apodrece, descasca,

degrada, rasga,

dissolve, desmancha,

envelhece, seca,

evapora, desfaz,

morre,

enterra,

esquece.




Gabriel Schilling Springer Pitanga