
Clarice Lispector usa uma linguagem intimista, chamando o leitor a encarar a si mesmo como ela mesma faz consigo, e usa, para isso, nada menos que a forma direta e sincera. É feminina. Discute o ser em si, observa "as pessoas sendo" e escreve uma escalada progressiva do caminho percorrido pela personagem principal. É simbolista e sutil: algumas passages mostram atitudes físicas representando seu estado de consciência, como a maquiagem excessiva, que é uma máscara para viver (e se olhar no espelho); o mergulho no mar, que é o real interesse em mudar, ir numa direção e entrar em contato com seu incosciente, conhecê-lo melhor e aceitá-lo. O pensamento fluente no livro leva a ver preocupações centrais que, fora de uma ordem, acabam sempre se repetindo. E é dessas preocupações que ela quer se livrar, pois se sente perturbada por este estado mental.
O tema é a busca de uma identidade, mas no fim ela não acha nenhuma. Fica livre de preocupações, deixa as chaves duma mente pequena pro passado e cresce. Ficar maior significa largar muitas coisas para trás, aliviar-se, abrir mão de egoísmos inicialmente cultivados no intuito de proteger o conteúdo de uma hipotética personalidade, limitando-se. É um caminho. O importante é a consciência desse caminho. Identidade é egoísmo: querer se separar do resto da existência, levando consigo algo que não possa ser de mais ninguém. A estupidez da identidade: Na impermanência das coisas e da própria identidade - que queira ou não está sempre em transformação - e na tentativa de se apegar a uma série de pensamentos, idéias, e relacionar-se com imagens, objetos, duma personalidade própria, perde-se tempo tentando nelas depositar a idéia de estabilidade para assim conseguir alguma segurança. O resultado desse tipo de investida será sempre a frustração.
Quando se está apaixonado, está cego por um desejo. Descontrole é inconsciência, e lutar pelo que sabe que se deve lutar, nesse caso, é quase impossível. Nadar contra a corrente dos desejos descontrolados e conseguir fazê-lo com êxito é ir de encontro com um estado de mais consciência e clareza sobre si mesmo. Lori, no livro, é representada como uma sereia (metade animal, metade gente ou metade pensamentos num fluxo desordenado, metade desejosa de se tornar uma pessoa mais tranquila e dona de si), numa analogia com a mitologia alemã, na qual a sereia dos gregos (ou pelo menos uma delas) se chama Lorelei. O nome Lorelei vem do alemão antigo "lureln", que significa murmurar, com sentido de seduzir, enganar (lure em inglês moderno). A sereia faz as coisas por fazer, sem haver razão lógica ou objetiva, também quando encanta os homens e os puxa para o fundo afogando-os. O homem que se deixa levar não tem forças para resistir à sedução sem sentido da sereia. Talvez pelo mistério que representa aos homens uma atitude sem uma razão de ser. Ulisses, no livro de Clarice, é comparado a Ulisses da mitologia, guerreiro que resiste aos encantos de uma sereia. Lori o quer seduzir, mas Ulisses não permite, sabendo que a sedução seria feita com futilidade ilógica: Lori não o amava, duraria pouco a relação e não haveria aprendizado para ninguém.
Ulisses acreditava na capacidade de Lori e aguardou pacientemente que ela crescesse, valorizando a si mesmo e a ela que, deixando de estar paixonada, fez valer a relação dos dois.
O estilo introspectivo de Clarice é justificado nesse livro, querendo dar aos personagens mais do que a descoberta de uma identidade, mas uma consciência melhor de si mesmos. O importante para ela não é onde o caminho vai dar nem em qual caminho se está, mas o “ter consciência” do caminho em que está.
Gabriel Schilling Springer Pitanga em 23.6.2004
Foto: Ah, se eu estivesse vivo naquela época!...





