quinta-feira, 27 de novembro de 2008

'Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres', de Clarice Lispector.


Clarice Lispector usa uma linguagem intimista, chamando o leitor a encarar a si mesmo como ela mesma faz consigo, e usa, para isso, nada menos que a forma direta e sincera. É feminina. Discute o ser em si, observa "as pessoas sendo" e escreve uma escalada progressiva do caminho percorrido pela personagem principal. É simbolista e sutil: algumas passages mostram atitudes físicas representando seu estado de consciência, como a maquiagem excessiva, que é uma máscara para viver (e se olhar no espelho); o mergulho no mar, que é o real interesse em mudar, ir numa direção e entrar em contato com seu incosciente, conhecê-lo melhor e aceitá-lo. O pensamento fluente no livro leva a ver preocupações centrais que, fora de uma ordem, acabam sempre se repetindo. E é dessas preocupações que ela quer se livrar, pois se sente perturbada por este estado mental.

O tema é a busca de uma identidade, mas no fim ela não acha nenhuma. Fica livre de preocupações, deixa as chaves duma mente pequena pro passado e cresce. Ficar maior significa largar muitas coisas para trás, aliviar-se, abrir mão de egoísmos inicialmente cultivados no intuito de proteger o conteúdo de uma hipotética personalidade, limitando-se. É um caminho. O importante é a consciência desse caminho. Identidade é egoísmo: querer se separar do resto da existência, levando consigo algo que não possa ser de mais ninguém. A estupidez da identidade: Na impermanência das coisas e da própria identidade - que queira ou não está sempre em transformação - e na tentativa de se apegar a uma série de pensamentos, idéias, e relacionar-se com imagens, objetos, duma personalidade própria, perde-se tempo tentando nelas depositar a idéia de estabilidade para assim conseguir alguma segurança. O resultado desse tipo de investida será sempre a frustração.

Quando se está apaixonado, está cego por um desejo. Descontrole é inconsciência, e lutar pelo que sabe que se deve lutar, nesse caso, é quase impossível. Nadar contra a corrente dos desejos descontrolados e conseguir fazê-lo com êxito é ir de encontro com um estado de mais consciência e clareza sobre si mesmo. Lori, no livro, é representada como uma sereia (metade animal, metade gente ou metade pensamentos num fluxo desordenado, metade desejosa de se tornar uma pessoa mais tranquila e dona de si), numa analogia com a mitologia alemã, na qual a sereia dos gregos (ou pelo menos uma delas) se chama Lorelei. O nome Lorelei vem do alemão antigo "lureln", que significa murmurar, com sentido de seduzir, enganar (lure em inglês moderno). A sereia faz as coisas por fazer, sem haver razão lógica ou objetiva, também quando encanta os homens e os puxa para o fundo afogando-os. O homem que se deixa levar não tem forças para resistir à sedução sem sentido da sereia. Talvez pelo mistério que representa aos homens uma atitude sem uma razão de ser. Ulisses, no livro de Clarice, é comparado a Ulisses da mitologia, guerreiro que resiste aos encantos de uma sereia. Lori o quer seduzir, mas Ulisses não permite, sabendo que a sedução seria feita com futilidade ilógica: Lori não o amava, duraria pouco a relação e não haveria aprendizado para ninguém.
Ulisses acreditava na capacidade de Lori e aguardou pacientemente que ela crescesse, valorizando a si mesmo e a ela que, deixando de estar paixonada, fez valer a relação dos dois.

O estilo introspectivo de Clarice é justificado nesse livro, querendo dar aos personagens mais do que a descoberta de uma identidade, mas uma consciência melhor de si mesmos. O importante para ela não é onde o caminho vai dar nem em qual caminho se está, mas o “ter consciência” do caminho em que está.


Gabriel Schilling Springer Pitanga em 23.6.2004
Foto: Ah, se eu estivesse vivo naquela época!...

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Febre Alucinógena


Algumas vezes na vida senti algo estranho tipo uma febre alucinógena que deixa o corpo bem fraco. Faz parecer que tudo é falso, entretando não sinto mal-estar por isto; como se tudo importasse menos, pesasse menos, fosse ridículo e pouco para ser levado a sério. As pessoas, as palavras, as promessas, os projetos, as conversas.
Não vejo razão nenhuma para considerar o mundo, sequer com indiferença. Nada de bom nem nada de ruim, uma tranquilidade apenas.
Se dei importância a algo penso agora que era ilusão. Aquilo sim – não estar tranqüilo – parece meio insensato.

Lembro dos dias de verão em que pude passar tardes inteiras deitado na rede debaixo do quiosque de palha escura; as arvores quietas do jardim à volta moviam-se sonolentas de acordo com o vendo quase parado; a temperatura morna dava um ar de febre sossegada e eu podia fingir que a vida era só isso.
Se nestes dias eu não estivesse preocupado com os problemas do passado ou do futuro, certamente estaria sentindo o que sinto agora: corpo mole, fraqueza sem danos e conforto, algo de frouxo e nada de preocupações, só tranquilidade. Nada de melancolia ou aborrecimento, nada de tédio. Talvez esteja febril mesmo.

Deste jeito fica fácil imaginar a morte. Posso penetrar nos pensamentos e averiguar detalhes intocáveis que antes eram tabus sobre o momento em que o corpo pára. A calma não é sarcástica, nem a curiosidade leviana: Em estado de paz nada me é amedrontador, nada me é impressionante e nada me torna deslumbrado. Posso reconhecer em mim, nas minhas profundidades, coisas que sempre tive. Circunspeto e sincero. Nada me escapa. Pleno controle da mente e do corpo.

Imaginar a morte é morrer e continuar vivo para saber que não passa de um estado de transição, como qualquer outro a todo instante na vida. Nem meu corpo nem minha mente é permanente. O tempo não o é. As idéias ventam. Após perder o medo da morte, a vida é outra. Desapega-se das coisas que pertubam, não se sofre mais pelos apegos: por ter ou não ter. E perde-se principalmente a maior causa do sofrimento: o desejo de ser.

Mais um da série "Desiste, patife": Ficou pra trás


Não te conheço nada, mas de repente me dá vontade de tudo contigo. Me sobe um tesão louco e você passa. Vai longe e eu viajo. E não me acho. Descubro em mim tudo o que se encaixaria com seu jeito. Momentaneamente sou seu mais louco amor sem que você saiba. Passo, não falo, não insinuo, só olho e perdemos tudo. Você perdeu alguém que te daria prazer, te faria crescer e eu perdi você, bela mulher. Seu rastro de fêmea vaidosa corta minha frente sem me ver. Não é esnobe. Na verdade é até bem forte, controlada, pois para aguentar o assédio de quem te vê, precisa esforço, que não há quem agüente tanta oferta de sexo. E mais ainda te adoro, que se nega para os machos, é porque procura algo além do compreensível, e nisso você me toca. Busco qualquer coisa que não entendo e me fascine. Pronto. Você está ai. Mas sou eu que não estou. Continua aí, e eu sou você também. Talvez outros te olham e são você também, mas eu não sei, não vejo eles; sei que obviamante é bem olhada, coitada. Todos ligados por um deslumbramento e você agüentando ser ausente. Me olha! Eu nem sei o que fazer! Me olha sim! Pelamordedeus!! Passou... Passou por mim e praticamente levou minhas pernas junto, que agora me sinto um derrotado, condenado a andar pra frente e deixar uma vida com você para trás.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Segunda da série "Cartas Nunca Enviadas". Nome do destinatário suprimido.


(Nome Suprimido),

Não consigo falar, não consigo pensar direito, não entendo o que sinto.

As vezes tudo é perfeitamente claro. Mas aí vejo que talvez somente eu seja capaz de aceitar o que ficou claro. Para os outros – para você – talvez seja demais.

Aí, o que era claro, passa a ser complexo, porque não serve mais como era para servir.

Fico criando maneiras de ir adiante, dou voltas e não saio do lugar.

Sou um tonto.

E toda frase que começo, tinha como objetivo, antes de ser escrita, descrever o que sinto. Tento começar a frase – agora, nesse terceiro parágrafo, tentei pela terceira vez – e vejo que uma avalanche de palavras correriam abaixo, tentando dizer tudo e sendo elas, assim mesmo, insuficientes, mal organizadas, loucas. Hora penso que iam te assustar. Hora, que ia-se identificar com elas. E gostar.

Já não sei mais nada. O que é péssimo, porque há pouquinho tempo atrás eu sabia tudo, entendia tudo, via tudo. E via sem entender bem. Sabia sem ver direito, e entendia sem saber porcaria nenhuma. Era uma sensação, talvez uma intuição, de que os meus mais íntimos desejos fossem estar corretos desta vez. Sentia-me premiado. Escolhido.

Mas o tempo passou, a coisa não andou.

Te quero muito.

Quero estar com você, quero usufruir da sua companhia, beber você.

Quero te dar colo, quero que você queira o meu colo.

Quero te contar histórias, te levar para conhecer lugares.

Quero que você queira ter, na vida, um espaço comigo. Pode ser um pedaço da sua vida.

Eu vejo você as vezes tão triste e penso “tenho que fazer algo”

Vejo você contente, empolgada, e na hora: “vamos fazer algo!”

Quero cuidar de você, embora não saiba se você precisa de cuidados.

Quero te amar.

Eu já te amo, e infelizmente não te disse isso ainda, por puro medo de você não reconhecer que amor é esse que tenho por você.

Quero te amar livremente, sem receios de você não ver o meu amor, ou vê-lo e não compreendê-lo, ou, mesmo compreendendo, rejeitá-lo.

Não é você quem eu quero, é o poder te amar incondicionalmente.

Acho que quando eu conseguir chegar nesse ponto, sem a condição de você isso ou aquilo em relação a mim, eu estarei livre, liberto, leve, pronto.

Por enquanto, engolir o que engulo... é algo que não desejo para ninguém. Mas por que me permito ficar assim? Logo eu, que sou conhecido por todos por minha positividade?

Por que escondo das pessoas meus momentos tristes?

Preciso passar por isso, infelizmente e, felizmente, passarei. Demora, e enquanto demora, sofro. Mantenho a minha máscara contente para todos. Por trás dela me acabo. Mas eu sei qual vai ser o final.

No final, será como sempre é comigo. Uma hora, de repente, eu percebo que não tenho absolutamente nenhum motivo para estar triste. E fico feliz.

Quando fico feliz, me bate um medo. Penso que logo passará e não verei mais motivos para ser feliz. Aí, de repente, como se ligassem a luz num lugar escuro, vejo claramente que não é preciso motivos para ser feliz. Minha busca tem sido a de fazer com que isso não se torne um impulso – pois os impulsos duram um tempo até perderem a força impulsionadora e desaparecerem. Busco fazer com que isso seja uma visão constante, presente, plácida.

O final é sempre esse.




Gabriel Schilling Springer Pitanga

domingo, 23 de novembro de 2008

À Toa (21.6.2005)




- Gabriel, por que você está assim, tão feliz?
- Não faço a menor idéia!



Desde pequeno que eu tenho uma curiosidade enorme pelas coisas misteriosas da vida. Tudo relativo à origem do mundo, do Homem, das crenças. Sempre foi essa a minha busca: o sentido da vida. Antes era nebuloso definir dessa maneira, mas agora que tenho uma certa visão de ''fora'' sobre o meu passado, sei exatamente em que tipo de labirinto me perdia. E me recusava a sair lá de dentro enquanto não encontrasse algo como ''a resposta da equação do sentido da vida''. Queria ter uma ''fórmula'' escrita num papelzinho e tê-la guardada no bolso. Desafiava minha inteligência: ''ora, se tenho capacidade de pensar, de alguma forma há como resolver essa questão''. E estive caminhando sempre ao lado da resposta. Em cima, em baixo, dentro e fora. Entre. A um palmo de distância? Debaixo do nariz! A ficha não caía - mas claro! Nem iria cair! O que eu procurava não existia. E mesmo existindo (tendo eu consciência disso ou não) nada impedia de conhecer de fato a verdadeira felicidade. Eu estava era infectado por um tipo de pensamento, que - da forma mais abrangente, porém direta - só podia ser nomeado como ''pensamento ocidental''. Viciado em formas de pensar...

Os mistérios da vida vão sempre continuar. Sempre serei curioso. Há mil formas de explicar a origem do Homem, sua evolução e crenças. Entretanto não busco mais nada. Relativo a algo que me responda questões e me sacie a alma, dou por finalizada minha procura. O quê, agora? A vida continua, só que tenho cada novo instante para nascer. Um bebê, ao nascer, vê tudo novo. Ouve tudo novo. Sente tudo novo. Cresce, e a ilusão se esvai aos poucos. Se desilude na adolescência. Fica vazio. O momento presente já não significa nada para ele. Sente-se superior ao informar que nada na vida o surpreende. Sente-se velho. Resmunga. É triste. Se ele aceitar isso, só haverá sofrimento para sempre. E os sofrimentos irão se repetir e exaurí-lo. Por quê? Não vê nada de novo. Não está aberto a isso. A salvação? Só há uma chance: aprender com os momentos. Aprender com os sofrimentos; aprender com as felicidades momentâneas e com os momentos que não têm sentido. Não procurar alegria fora do momento presente. Seja qual for a situação sendo vivida. A criança é pura. Perde a pureza. Mas há como reconquistá-la. Através da sabedoria. A pureza não mais se perderá, se houver sabedoria para guiá-la.

Resumidamente, a diferença maior entre as filosofias ocidental e oriental é esta: uma procura o sentido da vida, sem se perguntar se de fato existe algum, nem se incomodando em querer saber se, afinal, é necessário ter esse conhecimento. A segunda ignora se há sentido ou não: ''já que vivemos e estamos aqui, como viver bem?'' - basta-nos algo que é independente, que é livre, que não se liga a nada (e daí a confusão dos anti-materialistas, que fogem do que é material, ao invés de apenas não depender interiormente deles) -, algo que não se explica. Palavras já tentaram encerrar uma definição, mas esse ''algo'' por definição, não se define. Sempre dá confusão: distorceram Deus, como ''alguém'' que criou o universo, um Deus personificado e distinto de sua criação. Empurraram para o futuro (Paraíso, Dia do Juízo Final, harém com sete virgens, vida eterna, etc.), puseram a uma distância inalcançável ''algo'' que está unicamente no presente. E ainda dizem que servem (muitas crenças) para religar (“religião”, do latim, religare) o Homem a ''algo'', enquanto só o afastam...

A verdadeira felicidade - se é esse um nome que se pode dar - só pode ser a felicidade causada por felicidade. Mas, e o que causa a felicidade, antes dela estar sendo vivida? Nada. Nada causa a felicidade (falo da verdadeira, a que sabemos que temos em seu momento presente e sempre a temos). Contudo, também não é preciso nada para provocá-la. Ela não é provocável, alcançável, ela não é efeito de nenhuma causa. Senão, jamais seria pura. Um bolo de cenoura não é feito de cenoura apenas. Então não é um bolo puramente de cenoura. Se esperarmos causas para a felicidade, obteremos alegrias momentâneas, seguidas de desilusões e a sensação incômoda de vazio - enquanto que este mesmo vazio poderia estar sendo sentido não como sensação incômoda, mas apenas como um vazio, afinal, o preenchimento dele pode causar tristezas ou alegrias passageiras, mas a verdadeira felicidade não será originada pelo que o preenche. Nem pelo que não o preenche.

Um dia caiu a ficha. Eu tive acesso a uma porta que me tirou de dentro do labirinto, sem, entretanto, sair de dentro dele. Os sentidos são diferentes. Descobri que a felicidade é independente do que sempre procurei: um sentido para ela. A teoria afasta da prática.

''Ao perguntar para uma garota se podia beijá-la (expondo em teoria a minha intenção), me separava da prática. A garota recusou, mas continuou em pé, sem se mover - ela queria beijar sim. Ela queria o beijo e não a pergunta. Mesmo depois de deixar óbvio o que eu queria (e ela idem, por não ir embora) insisti no assunto, ainda teorizando. E cada vez mais afastado da dita prática, o beijo assumia um papel de desejo a ser realizado, cristalizando-se assim, talvez cumprindo o que, pelo (mau) hábito, estava acostumado a viver. Uma satisfação pela metade. Uma pequena visão da perfeição. Um pobre devoto diante da imagem da divindade. Diminuído. Distante da Realização. O beijo era perfeito: isso era uma certeza. Era o que precisava para acalmar-se naquele momento. Só a visão da perfeição não bastava, queria tocá-la, vivê-la, mas já era tarde. Veio, em seguida, o sofrimento. E logo depois, o vazio: necessitava novamente de algo para servir de certeza de ''algo'' para preencher temporariamante, mais uma vez, o seu eterno vazio. E assim, sucessivamente, seguia a vida em todos os setores. Tentar enganar a alma com a felicidade falsa é viver distante da realização prática do presente. É estar no único instante que realmente podemos acreditar que existe... e desdenhá-lo, ignorá-lo, perdê-lo. Distrair-se com preocupações que não importam.''

No dia que estalei os dedos e disse: ''É isso! Entendi!'' – não havia entendido nada que se pudesse explicar. Na verdade posso escrever páginas e páginas sobre o assunto, que jamais tocarei o ponto central, a mosca, com minha flecha – não com palavras. Nem num conjunto de coisas. Nem na obra completa. Não existe um começo e um fim para dar à obra uma completude; há sim, sempre o infinito fluir das coisas. De todas as coisas. Se não capturamos a consciência de ''algo'', começamos a ter opiniões, a formular, a classificar, a querer mudar... a se insatisfazer e se incomodar. E no momento no qual acreditamos ter posse de alguma inteligência ou conhecimento... ou no qual simplesmente cremos ter o necessário para poder alguma coisa... conseguir o que queremos, o que precisamos, sermos dotados disso ou constituídos daquilo... então devemos parar tudo e esquecer absolutamente tudo o que fazemos ou pensamos. Sem remorso de perder. Sem preocupação de não relembrar. A idéia é justamente esquecer. Esquecer de tudo que serve, como entulho, para nos separar de ''algo''. E tudo serve para turvar nossa mente. Tudo faz impedir a plenitude de certo estado de consciência - um estado que muitas vezes avistamos de relance. E que nos aviva. Nos mantém curiosos.

“Algo” é uma noção de tudo sem ter que nos fiar em qualquer coisa. É a intuição, por desapego da razão e da emoção: Nada de nos fiar em justificativas lógicas (que no fundo não existem, são sempre sofisma), e nada de nos fiar em repercussões emotivas (que é o desequilíbrio entre as forças físicas e as espirituais). O desalinho está ao alcance de todos os seres que se apóiam no rápido caminho da emoção e da lógica – caminhos sempre pessoais e fechados, próprios de cada ser diferenciado do outro. Se a lógica fosse universal, seria como Deus: não seria preciso falar dela. Bastaria “ser em relação a ela” sem necessariamente saber disso. Lógica e emoção são derivações de delírios egoístas. Intuição é sensibilidade para com toda a existência – os outros seres, o tempo, o ambiente, o próprio organismo, a própria “missão” (ou seja, o sentido de existir), sem que seja preciso cálculos e avaliações. Sem ser necessária uma guerra emocional interna e externa para viver no mundo e se realizar. O sucesso em conseguir o que quer depende muito do que quer. Sei, como ser humano, assim posso afimar, que por trás de todo movimento e respiração há o desejo intenso de felicidade. Por trás das compras na feira, da guerra, do ódio, das brigas, da festa de aniversário e do passeio no parque há sempre a busca pela felicidade. É o que todos os humanos, conscientes disso ou não, procuram. Quando tiverem clareza desse real objetivo, terão clareza dos próprios atos, terão clareza de pensamento e, com muita simplicidade, enxergarão em si mesmos e no momento presente a real possibilidade de Felicidade.

A felicidade, a verdadeira, é à toa.
O sentido das coisas, ora, que se foda o sentido das coisas!



Foto 1 "chuva": Gabriel Schilling Springer Pitanga; Foto 2 "espelho redondo": Luciana Nabuco

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

ilusão


Ilusão


1

Há momentos em nossa vida que nos sentimos extremamente seguros. Capazes de proezas, heroísmos. Capazes de fazer coisas impossíveis. Um tenor segurando a nota mais aguda, quando na verdade ele é um tímido. Um retraído. Um sonhador.

A distância entre o fazer e o sonhar.

Está pronto quando sonhamos, e isto afasta da realidade. Não é preciso ser feito. Já somos, já nos consideramos, já nos respeitamos, nos orgulhamos.
Sonhar, com tanta realidade, com tanta exatidão. Aquilo é.
Então eu sou.


2

Por trás de mim há morte. Muitos eu matei.
Corri atrás, persegui, rastreei, farejei.
Não dormi, não comi, tampouco pensei.
Era fome, era sono, era vontade de realizar, era tudo por aquilo.
E aquilo foi feito.
Veio o vazio. Os primeiros pensamentos, a reflexão. Morte do que?

Daí então, enfim estou na completa escuridão. Não tem mais sentido. Solto.
Aniquilado, já estou, só por pensar.


3

A morte é angústia. A vida da angústia é o desespero do homem.
O homem, enquanto apenas o homem de sempre, é a decadência.
E a vida dele, uma demonstração da decadência.

O nascimento é o mal, porque não há morte que seja matada.
Só há morte a facadas, por trás, E é pelo homem nunca se virar que ele morre.
É por temer a cara da morte.
...Que ele nasce.


4

Aquilo que sonha, a cada noite, muito além de otimismo, é a desilusão, é a cara da morte. (enfim)
Acordo. E não me lembro.
Sem enfim, nada foi feito. Não matei ninguém.
Já estávamos mortos.


5

Feliz, mentirosamente feliz, é o que vive de dia na sombra dos sonhos que sonhou à noite.
É o que esfrega o espigão em brasa, que arranha as costas, abre sulcos entre músculos e as veias, que desenterra os próprios ossos. Rói para sentir mais fome. Cava, para sentir mais sono. Mata, para sentir a morte. Morre.

Ele experimenta a felicidade, não lembra como, não sabe aonde.

Seus sonhos são todo dia, intensos, vagos. Intensos, vagos.
Mas é tão vago que tem só uma vaga intuição. Nem sabe descrever.
Menos ainda sabe que sabe.

Mas essa é a verdade!


6

Se ele soubesse, soubesse que não sabe, e soubesse que isso é saber,
Se sabendo disso, pudesse ser feliz ao mesmo tempo...

Se soubesse que a realidade é uma ilusão criada pela própia mente.
A mesma que criou seus sonhos...

O que é mais real? A infelicidade presente
ou a intensa felicidade intuitiva, a vaga lembrança de qualquer coisa? (Uma outra vida, vivida todo dia, uma outra história, forte demais para ser lembrada, livre demais para ser guardada. Real acima da capacidade de absorção) Somos o bagaço, os escombros. A história se passou (ontem, hoje e amanhã) e não registramos. O intenso esforço em registrar, dentro da ilusão de querer lembrar, mata por trás, a facadas.

O que está mais próximo de ser alcançado? A verdade?
ou outra verdade?
A verdadeira, a que pode ser vista e sentida como verdadeira? Ou a que nunca chega a ser verdade suficiente para poder nos escravizar?

Penso, logo penso que existo.

Estou acordado, mas estou longe de poder ver como se estivesse acordado.


7

Sinto como se metade da minha vida, a parte em que tudo é imaginação, fosse real.
Não real de acreditar nela, mas real de considerá-la um pouco. Só pra dizer que sonhei. Dos medíocres, não sou o pior. É isso.

Raramente sinto como se metade da minha vida, a parte em que tudo é imaginação, fosse real,
e nessa realidade pudesse acreditar como acredito na culpa do passado e no medo do futuro.

Mas quando acredito, ouso.
Quando ouso, refreei minha decadência por meio instante.
E percebo que algo glorioso aconteceu.

Sem saber o que, faço com que o fluxo decadente volte, e corra, livre, desimpedido.

E eu volto à realidade onde nada é real, apenas o presente, cheio de medo e de culpa.
As lembranças das façanhas, guardo numa memória que existe sem que eu acredite nela.


8

O fluxo é necessário ser um fluxo, assim como o sangue escorre e a morte não é imediata.
É necessário agonizar.

Por que não é como um golpe de machado, que decide, que separa as coisas?
Porque é um enigma.
E todo enigma tem solução.


9

Qual é a distância entre o fazer - o ser - e o sonhar?

É possível medir qual realidade criada pela mesma mente iludida é mais real?

É possível se definir usando critérios que se desmancham?

É possível ser?

Estar?

De onde parte a conclusão? Não é da própria mente?
A mesma que sabe tudo o que pode, e sabe que não pode tudo isso?

Essa mente é loucura.

Tudo é ilusão.




Gabriel Schilling Springer Pitanga
Ilustração 1: Gabriel Schilling Springer Pitanga, "Vazio 1", 28.6.2003
ilustração 2: Gabriel Schilling Springer Pitanga, "Vazio 2", 2003

Desobstrução (4.12.5)


É difícil dizer tudo que penso por causa das palavras.
Nem todas expressam com exatidão minhas idéias,
As vezes uma palavra destrói completamente o sentido
E me torna um mensageiro do desconhecido, logo eu,
Que queria entornar tantas certezas e ajudar as pessoas.

Tão difícil quanto, é pensar tudo que sinto.
As palavras nos limitam
E jamais uma idéia permanece a mesma
Até terminar de pensá-la.
O que me torna um pensador do desconhecido, logo eu,
Que queria me cobrir de tantas certezas que me fossem possíveis
E assim ajudar à humanidade.

Sentir, entretanto, é algo tão pessoal que,
Se não for meu sentimento absolutamente extraordinário,
Dotado de superioridade,
Existindo acima de todos os sofrimentos e
Apenas ligado à pura felicidade,
Então esse meu lado pessoal não passa de
Uma confusão trivial de ser humano.

E como ajudar a humanidade só com a intenção?

Prefiro não ter intenção nenhuma,
Não saber o que estou fazendo,
A conscientizar-me de minhas capacidades
E ir pro inferno das boas intenções.

Prefiro não ter que comunicar minha suposta sabedoria
Ao mundo.
Prefiro não ter que raciocinar sobre minhas idéias
Estéreis.
E estar exigindo um espaço nas terras férteis que desperdiçarei.
Prefiro não investigar sentimentos, prefiro não dar nome aos bois.
Prefiro esquecer o significado das palavras e deixar de saber que
É uma verdade que humanos sentem, pensam e falam.

Assim, se em algum momento desses eu me esquecer completamente
De que haviam sofrimentos,
E me der conta de que nunca mais precisei lembrar de nada,
Nada, digo, idéias que servissem para me animar,
Conceitos que julgava me estimular,
A moral que no fundo só me mascarava,
Então, poderei ter certeza absoluta
E não ter que decodificá-la.



Gabriel Schilling Springer Pitanga 4. 5. 2005
Pintura de Nicholas Roerich

Sutil e Suave




Não existe pressa
Nem em morrer
Nem em salvar a própria vida
Nem em escrever
Nem em respirar

Se eu respiro devagar
Tudo é suave, tudo é sutil
Escrever é suave
Morrer é sutil
Viver é suave
Escrever é sutil
Morrer é suave
Viver é sutil
Sofrer é tão sutil e suave
Que deixa de sofrer
Vira pó
Fica sendo como igual ao Viver Perfeito.

Sofrer se torna algo
Que não é diferente
De qualquer coisa boa
Numa existência na qual
Todas as coisas são bem vividas, por alguém
Que desliza na vida
Como uma folha que
Cai da árvore e desliza no ar.
Suave e Sutil.

Sofrer perde o sentido.
O novo sentido das coisas e do Ser;
O novo sentido da vida e do que mais;
O novo sentido do novo sentido;
É espontaneamente dado pelo
Eterno Sem Pressa de Viver e de Morrer;
É ritmado na melodia
Do Universo Interior Não-Diferente do Universo Exterior.

Não sou algo que desliza.
Sou o deslizar.






Gabriel Schilling Springer Pitanga 19.11.2008
Pintura do artista russo Nicholas Roerich (1874 - 1947)

domingo, 2 de novembro de 2008

Sábado no Empório

Deslizo nas nuvens, na grama úmida, verde-fresca, cheirosa e macia;

O Calor do Sol nas minhas costas acorda o Homem do Campo nessa minha cidade turbulenta que é minha mente sã e insana, louca e poderosa, terrível e verdadeira, morta e altiva, forte e voraz, rápida e contente, larga, ampla, plena, tenra, simples, quieta, ingênua e falante, pura e audaz.

Disse ao meu pai que estava admirado por ter conhecido um sujeito de nacionalidade alemã, mendigo no Rio, lá em seus 58 anos, há sete no Brasil, Rei das Ruas do Rio; encontrei-o as 4:00 da madrugada em frente a rua Maria Quitéria em Ipanema, enquanto bebia minha água no quiosque, lá vinha ele correndo e saltando e muito alto e contente cantava em alemão:

"Quem me dará comidaaaaa? Como irei comer se estou com fomeeee?".

Reconheci a língua que por tantos anos estudei e imediatamente pensei: Um senhor europeu, barba e cabelo branco, segurando sobre a cabeça uma sacola roxo-choque, saltitando de lado (como na educação física), cheio de sorrisos, loucuras e verdade nos olhos. O que mais eu poderia fazer? Imediatamente interei-me na melodia na qual se embalava e completei em alemão:

"Você que tem fome, venha para cá e vamos papear".

Ele veio. Conversamos por 4 horas. O que foi dito entre nós permanecerá em segredo durante um tempo - longo - valendo apenas ainda citar que tanto ele quanto eu ficamos muito admirados um com o outro. Admirei-me de ele ter se admirado por mim. E em resposta a esse comentário, que fiz posteriormente ao meu pai, respondeu-me ele:

"Isso não me admira, porque estou acostumado a admirar o admirável".

Então de tudo isso, o novo amigo, as aventuras vividas e que ainda viveremos, destaco esta frase:

Isso não me admira, porque estou acostumado a admirar o admirável.

De resto, a vida é linda, é louca como a música, somos todos belos e fazemos muito bem a si fazendo muito bem aos outros, agindo de forma correta e mantendo postura e comportamento exemplar para si e para a humanidade.