quarta-feira, 18 de agosto de 2010

As Aventuras de Ademar - Instantes

Ademar prendeu o dedo na porta. Bateu a cabeça na estante. Topou a unha no taco solto. Ele não tem namorada.

Quando pequeno Ademar foi ao circo. O circo era ruim. Os palhaços estavam deprimidos. Ladainha tentou em vão uma investida homossexual em Espinafre. Magnus, o mágico, nunca esqueceu do filho. Morto no quarto mês de gravidez. Mara, a auxiliar, treme ao ver Magnus tirando um coelho da cartola. E coça a cicatriz. Dos dez cavalos, três. Dos quatro elefantes, um. O leão aguarda a decisão do diretor Paulito Mendes D´ávila, que sem recursos para continuar com a medicação, vai hesitar pela última vez em sacrificá-lo. Antes da próxima cidade, ele não mais será atração das moscas nas feridas incuráveis. A pipoca estava fria.

Ademar nunca foi ao parque de diversões, primeiro, porque nunca foi chamado. E segundo, porque tinha medo de falhas mecânicas.
Odiava o Mickey.

Ademar chora todo dia antes de dormir. Dorme sem perceber. Quando acorda e passa pelo espelho, dá as costas.

Entorta a nuca horas, no banheiro, mexendo com infinita curiosidade, e tentando entender o quê ele realmente é.

Frequentemente suas atividades perdem o sentido. Ele para, se demora, tenta recuperar o sentido das coisas, não recupera. E para fingir que não houve nada, volta ao que fazia, como se tivesse lembrado.

Ele acorda. Não abre os olhos. Se pergunta por que vive. Abre os olhos e vai tomar café.

Faz um sanduíche gostoso. De repente perde o gosto, perde a fome e se pergunta e daí esse sanduíche?

Uma moça. Não lá muito interessante. Às vezes sim, pra ele. Às vezes até demais. Às vezes nada. A maioria das vezes.

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