domingo, 7 de novembro de 2010

O Cárcere


Eu nem sei quem sou eu nessas contas de usuário.
Penso em senhas toda a hora.
Psicótico, profiles inteiros de pessoas que eu nem conheço me vêm à cabeça. Comerciais e amigos se confundem numa só manifestação publicitária.
Perigoso, me torno obcecado pelas liberdades de escolha dentro do mundo virtual.
Sob fortíssimas dores de consciência me mantenho afastado das oportunidades, o medo da verdade me humilha e me obriga à vida através da auto-justificativa.
Esquizofrênico, puno-me, criando a realidade mental do cárcere.
A ilusão do eu gera a ilusão do meu.
Meu tempo, minha passagem de tempo.
Minha perda de tempo.
O porvir, o decorrer, o fato consumado.

Perigoso sou eu.
O perigo é meu.

Ignorar isso é perder-se na ilusão da mente, quando nada é dotado de identidade própria e a matéria é temporal, transitória e finita.
Assim como a mente.

Úlceras cortantes arrastam o corpo de quem se agarra ao banal quotidiano e que à cada um de todos os seus momentos dá à matéria e à carne importância desproporcional.

O próprio espírito transita.
Para deixar de estar separado, por ser separado ele um dia deverá progredir para ser sem deixar de ser.
Até lá morremos todos.

Por esse vício morremos: nós mesmos o somos.
Todo o resto é concepção nossa da nossa realidade aplicada sobre situações originalmente vazias de significado.
E permanecemos apegados ao desejo de permanência embora a realidade seja a da impermanência.
Vivemos com as condições que criamos para viver nossas vidas.
A realidade do cárcere mental sou eu.