
A natureza vai engolir a gente, porque é maior.
Como a ameba para a baleia: uma não concebe a outra, contudo uma absorve a outra;
como as ideias para os humanos, fragmentárias ao infinito, de todo modo possíveis e rejeitadas pela mesma vaidade e burrice.
Nós, entretanto, nos sujeitamos a elas.
Não sujeitamos elas à nós (que seria ideal), mas a elas nos submetemos.
Somos influenciados e transformados por elas, queiramos nós ou não.
Ideias estão no ar. As respiramos.
Somos como a baleia que engole amebas sem saber.
O universo está além de nossa compreensão e é essa a sua natureza,
somos como a poeira no ar da estrada.
Chove! Sim! Arrebenta!
É a destruição.
Cabe a nós vivermos libertos do universo de conceitos que nós mesmos criamos. Quebremos nossos próprios paradigmas! Pois eles serão quebrados de qualquer maneira.
Libertemo-nos da ideia de ser o que somos, pois não somos a mesma coisa nem por um só instante.
Apegados à nossa personalidade, aprofundamos os laços com as ideias fixas, por mais naturais que elas pareçam ser, são, na verdade, prisões.
A realidade se destrói com o tempo.
O tempo faz parte da natureza.
Nós obedecemos às leis da natureza.
E nada permanece.
Tudo vai com o tempo.
Tudo vai a todo instante.
O presente?
Um instante.
Observe.
O presente.
Não diga nada!
Antes: não pense!
Só observe.
Não dê nome.
Não tenha reação.
Seja! Seja você mesmo, invicto, inquebrantável,
vencedor desta queda-de-braço entre sua força
que independe de explicações
e as explicações que se podem dar a tudo,
e são,
para tudo,
desnecessárias.
Mantenha-se quieto – não pense!
Todo poderoso sobre si,
sua não-reação é na verdade uma ação
originária do poderoso livre arbítrio daquilo que é e não é ao mesmo tempo.
Sem explicação. Mas invicta, é essa coisa.
A ação é independente.
Antes, o pensamento é totalmente livre.
E aquilo que nos ronda, circula e fecha hermeticamente é,
na verdade,
a ilusão – quando nos deixamos levar soltos por fluxos de pensamentos...
Choramos as ilusões perdidas.
Perdemos tudo o que mais amamos.
Porque damos às coisas significado, e aos significados mais significados ainda.
Enredamos-nos numa grande teia de significados e estamos presos.
E a cada significado, destruição.
Morre uma pessoa, morre uma paixão, morre um ideal, morre um conceito, morre uma cidade, morre uma civilização, morre uma cultura e suas músicas que um dia foram inesquecíveis. Morre a lembrança do que um dia foi inestimável. Se apaga. Depois de um fluxo de ideias ganhar vida própria em seus pensamentos, percorrê-los solto, submetendo-lhes a vontade e você isso permitir, esse fluxo lhe tomará os sentimentos e lhe determinará as emoções. Domina a si mesmo e deixe que todos os fluxos em torno sejam matéria de observação, cabendo ao seu indissolúvel e onipotente âmago sondar a felicidade naquilo que não se explica.
Toda explicação para a fúria da natureza é inútil.
Toda tentativa de ir contra ela é inútil,
se não for contra si mesmo, na verdade.
Aquele que tentar mudá-la será marcado por angústias.
Mas afinal mudará a natureza das pequenas coisas? Modificará a matéria das coisas?
Ainda que sim, não mudará em nenhum fio a natureza maior. À que está submetido.
É o coveiro com a pá, o buraco e o próximo passo.
É a porta de entrada para onde estamos nos levando dentro de uma realidade em que nós somos levados porque deixamos.
A tragédia são menos as mortes e mais a prisão a que estamos submetidos.
Morrem parentes, morrem amigos queridos, sempre morrem, sempre...
E nós, que à morte não escaparemos, sequer compreendemos, choramos a existência, como um fato consumado e infeliz. Tememos e trememos, enervados, ansiosos, culpados e cheios de arrependimentos ocultos.
Será sempre assim e, se renascermos, será novamente assim: sempre que recomeçarmos, tudo será novo e com o tempo será velho, desaparecerá e nós a isso tudo veremos com tristeza e insatisfação. Já a satisfação, se encontra no desapego de toda ideia ou coisa que possamos depender para ela mesma.
Se essa verdade não nos é clara nas pequenas coisas quotidianas, se somos cegos às constantes lições em nossas vidas pacatas (letárgicos às forças externas que nos comandam e nos atiram de um lado para o outro em infinitas questões), então essa verdade terá que se tornar clara através de grandes coisas gerais, maiores do que as que não tem sido o suficiente para mudarmos.
O pé delicado que pisa a grama é a tragédia das formigas. A natureza dos nossos pensamentos está para o pé delicado assim como nós estamos para as formigas.
Não tem como escapar às leis da natureza, porém pode-se quebrar os próprios paradigmas e não seguir o fluxo dos que agem iguais.
Iguais eles estão em serem os próprios inimigos.
Humanos! Tão assustados com tudo o que destrói suas concepções.
É tão horrível ter uma concepção quebrada.
O sofrimento não está na destruição das coisas, mas antes: em ter se iludido na permanência delas. Nesta ignorância.
A felicidade não está nas coisas, mas em contentar-se sem ter com o que.
Molha, parte, desaba,
amontoa, deforma, racha,
destrói e corrói,
pulveriza, perece,
apodrece, descasca,
degrada, rasga,
dissolve, desmancha,
envelhece, seca,
evapora, desfaz,
morre,
enterra,
esquece.
Gabriel Schilling Springer Pitanga

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