quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Chove! Sim! Arrebenta!


A natureza vai engolir a gente, porque é maior.

Como a ameba para a baleia: uma não concebe a outra, contudo uma absorve a outra;

como as ideias para os humanos, fragmentárias ao infinito, de todo modo possíveis e rejeitadas pela mesma vaidade e burrice.

Nós, entretanto, nos sujeitamos a elas.

Não sujeitamos elas à nós (que seria ideal), mas a elas nos submetemos.

Somos influenciados e transformados por elas, queiramos nós ou não.

Ideias estão no ar. As respiramos.

Somos como a baleia que engole amebas sem saber.

O universo está além de nossa compreensão e é essa a sua natureza,

somos como a poeira no ar da estrada.


Chove! Sim! Arrebenta!

É a destruição.

Cabe a nós vivermos libertos do universo de conceitos que nós mesmos criamos. Quebremos nossos próprios paradigmas! Pois eles serão quebrados de qualquer maneira.

Libertemo-nos da ideia de ser o que somos, pois não somos a mesma coisa nem por um só instante.


Apegados à nossa personalidade, aprofundamos os laços com as ideias fixas, por mais naturais que elas pareçam ser, são, na verdade, prisões.


A realidade se destrói com o tempo.

O tempo faz parte da natureza.

Nós obedecemos às leis da natureza.

E nada permanece.

Tudo vai com o tempo.

Tudo vai a todo instante.

O presente?

Um instante.


Observe.
O presente.
Não diga nada!
Antes: não pense!

Só observe.

Não dê nome.

Não tenha reação.

Seja! Seja você mesmo, invicto, inquebrantável,

vencedor desta queda-de-braço entre sua força

que independe de explicações

e as explicações que se podem dar a tudo,

e são,

para tudo,

desnecessárias.


Mantenha-se quieto – não pense!

Todo poderoso sobre si,

sua não-reação é na verdade uma ação

originária do poderoso livre arbítrio daquilo que é e não é ao mesmo tempo.

Sem explicação. Mas invicta, é essa coisa.

A ação é independente.

Antes, o pensamento é totalmente livre.


E aquilo que nos ronda, circula e fecha hermeticamente é,

na verdade,

a ilusão – quando nos deixamos levar soltos por fluxos de pensamentos...


Choramos as ilusões perdidas.

Perdemos tudo o que mais amamos.

Porque damos às coisas significado, e aos significados mais significados ainda.

Enredamos-nos numa grande teia de significados e estamos presos.

E a cada significado, destruição.


Morre uma pessoa, morre uma paixão, morre um ideal, morre um conceito, morre uma cidade, morre uma civilização, morre uma cultura e suas músicas que um dia foram inesquecíveis. Morre a lembrança do que um dia foi inestimável. Se apaga. Depois de um fluxo de ideias ganhar vida própria em seus pensamentos, percorrê-los solto, submetendo-lhes a vontade e você isso permitir, esse fluxo lhe tomará os sentimentos e lhe determinará as emoções. Domina a si mesmo e deixe que todos os fluxos em torno sejam matéria de observação, cabendo ao seu indissolúvel e onipotente âmago sondar a felicidade naquilo que não se explica.


Toda explicação para a fúria da natureza é inútil.

Toda tentativa de ir contra ela é inútil,

se não for contra si mesmo, na verdade.

Aquele que tentar mudá-la será marcado por angústias.

Mas afinal mudará a natureza das pequenas coisas? Modificará a matéria das coisas?

Ainda que sim, não mudará em nenhum fio a natureza maior. À que está submetido.

É o coveiro com a pá, o buraco e o próximo passo.

É a porta de entrada para onde estamos nos levando dentro de uma realidade em que nós somos levados porque deixamos.

A tragédia são menos as mortes e mais a prisão a que estamos submetidos.

Morrem parentes, morrem amigos queridos, sempre morrem, sempre...

E nós, que à morte não escaparemos, sequer compreendemos, choramos a existência, como um fato consumado e infeliz. Tememos e trememos, enervados, ansiosos, culpados e cheios de arrependimentos ocultos.

Será sempre assim e, se renascermos, será novamente assim: sempre que recomeçarmos, tudo será novo e com o tempo será velho, desaparecerá e nós a isso tudo veremos com tristeza e insatisfação. Já a satisfação, se encontra no desapego de toda ideia ou coisa que possamos depender para ela mesma.

Se essa verdade não nos é clara nas pequenas coisas quotidianas, se somos cegos às constantes lições em nossas vidas pacatas (letárgicos às forças externas que nos comandam e nos atiram de um lado para o outro em infinitas questões), então essa verdade terá que se tornar clara através de grandes coisas gerais, maiores do que as que não tem sido o suficiente para mudarmos.

O pé delicado que pisa a grama é a tragédia das formigas. A natureza dos nossos pensamentos está para o pé delicado assim como nós estamos para as formigas.

Não tem como escapar às leis da natureza, porém pode-se quebrar os próprios paradigmas e não seguir o fluxo dos que agem iguais.

Iguais eles estão em serem os próprios inimigos.

Humanos! Tão assustados com tudo o que destrói suas concepções.

É tão horrível ter uma concepção quebrada.

O sofrimento não está na destruição das coisas, mas antes: em ter se iludido na permanência delas. Nesta ignorância.

A felicidade não está nas coisas, mas em contentar-se sem ter com o que.


Molha, parte, desaba,

amontoa, deforma, racha,

destrói e corrói,

pulveriza, perece,

apodrece, descasca,

degrada, rasga,

dissolve, desmancha,

envelhece, seca,

evapora, desfaz,

morre,

enterra,

esquece.




Gabriel Schilling Springer Pitanga




Nenhum comentário: