Ademar prendeu o dedo na porta. Bateu a cabeça na estante. Topou a unha no taco solto. Ele não tem namorada.
Quando pequeno Ademar foi ao circo. O circo era ruim. Os palhaços estavam deprimidos. Ladainha tentou em vão uma investida homossexual em Espinafre. Magnus, o mágico, nunca esqueceu do filho. Morto no quarto mês de gravidez. Mara, a auxiliar, treme ao ver Magnus tirando um coelho da cartola. E coça a cicatriz. Dos dez cavalos, três. Dos quatro elefantes, um. O leão aguarda a decisão do diretor Paulito Mendes D´ávila, que sem recursos para continuar com a medicação, vai hesitar pela última vez em sacrificá-lo. Antes da próxima cidade, ele não mais será atração das moscas nas feridas incuráveis. A pipoca estava fria.
Ademar nunca foi ao parque de diversões, primeiro, porque nunca foi chamado. E segundo, porque tinha medo de falhas mecânicas.
Odiava o Mickey.
Ademar chora todo dia antes de dormir. Dorme sem perceber. Quando acorda e passa pelo espelho, dá as costas.
Entorta a nuca horas, no banheiro, mexendo com infinita curiosidade, e tentando entender o quê ele realmente é.
Frequentemente suas atividades perdem o sentido. Ele para, se demora, tenta recuperar o sentido das coisas, não recupera. E para fingir que não houve nada, volta ao que fazia, como se tivesse lembrado.
Ele acorda. Não abre os olhos. Se pergunta por que vive. Abre os olhos e vai tomar café.
Faz um sanduíche gostoso. De repente perde o gosto, perde a fome e se pergunta e daí esse sanduíche?
Uma moça. Não lá muito interessante. Às vezes sim, pra ele. Às vezes até demais. Às vezes nada. A maioria das vezes.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
As Aventuras de Ademar - Torneira

Gabriel Schilling
Era sempre a essa hora depois da feira que Ademar, nos fundos de seu terceiro andar, fazia o próprio almoço, então já lavava as folhas de alface e descascava as batatas para o suco do qual muito gostava, receita antiga da velha tia Nádia.
O vapor da água que fervia deixava na cozinha um ar agitado. Dia de varrer o quarto. Dia de mostrar trabalho. Tirar pó dos livros espalhados pela casa. Reservava à leitura, uma hora diária e não abria mão, houvesse guerra ou fim do mundo. Ainda mesmo, durante a manhã, lera um livro singular, comprado de um senhor de longas barbas, vendedor de apetrechos não usáveis sobre um tapete na calçada. Fora convencido de que aquele livro sem autor e título agradaria fora do comum seu futuro proprietário. E assim o adquiriu, vindo a sofrer mais tarde o colateral de seus efeitos...
Voltando às batatas, uma grande dúvida o assaltava neste instante - resquício ínfimo de perturbação, lembrando-se existir algo importante, incômodo ou problemático, mas sem poder recordar do quê, apenas sabia da existência de algo a ser lembrado... Para ser bem sincero – e é preciso que nada seja acobertado – Ademar sofre de repentina dúvida sobre coisas que não sabe quais são, para daí dar surgimento a problemas de intensa distração espontânea.
Uma vez (que serve como exemplo), deixou um copo cair e quebrar no chão. Assistia televisão quando, ao pegá-lo da mesinha próxima a poltrona em que sentava parou no meio do movimento e, congelado, entrou num transe de quem pensa alto com imagens, se esquecendo absolutamente de tudo relativo à realidade, balbuciando “mãe” interrogativamente... “Viu” na sua frente o par de joelhos da velha senhora quando ainda não era tão velha há vinte e cinco anos, aliás, visão de quem só poderia ter no máximo a altura desses joelhos... e sua mão fazia o quê, segurando um copo? Para um garoto de cinco anos no corredor da primeira casa onde morou, num ínfimo clarão de consciência espasmódica, porém letárgica, não havia porque estar segurando um copo. Por não haver porque, não havia copo. E a mão perdera o motor de sua força, só voltando a ser a mão do velho Ademar, só num apartamento mofado, quando seus ouvidos compreenderam e assimilaram o barulho do estilhaço, molhando roupa, poltrona, controle e TV. Seus dedos rígidos rangeram ao moverem-se hesitantes, dando à memória do tato tempo de lembrar o que prendiam. Olhou no chão cacos e não expressou nada. Um minuto repleto de segundos. Imóvel, na tentativa de conciliar realidades: a lembrança perdida da infância, a atividade de ver um filme. Não! Não êxito. Deixou-se levar pela trama cinematográfica tipo ‘b’.
Mas agora, na cozinha, tentando lembrar-se de algo que não sabia o que era, sua distração foi de outra maneira estranha: o que pensou foi nada; ficou bom tempo assim. Ao regressar fingiu saber onde estava e o que fazia só para não parecer-se a si mesmo louco.
Pegou a última batata que faltava descascar identificando plenamente quem ele era e o contexto em que vivia, ao ver, aberto em cima da mesa, o livro de receitas da tia Nádia. Uma idéia remeteu a outra... e lá estava ele. Concluiu ser esse grave acontecimento psicológico digno de espanto e considerou pensar melhor depois, mais tarde, o que não fará. Esqueceu-se rápido do assunto voltando ao almoço que fazia e à barriga que roncava. Pelo suco de que tanto gostava largou um fio pesado de baba. Recolhendo-o e limpando o queixo, deixando as paredes de sua casa envergonhadas.
Batatas postas na bacia iriam ser banhadas, mas ao dar o único giro necessário na torneira da pia, não veio a água esperada, mas um espirro de ferrugem, dois espirros e nada. Fechou e abriu de novo, dessa vez, água. Tudo normal. Virou para a mesa – o desprazer da música preferida pulando no CD arranhado – a água espirrar de novo mais três vezes – mais uma gota... e fim.
De novo. Mas “Dessa vez não passa”, ganiu Ademar. Não era de hoje que a água era cortada, e uma reclamação bem dada – elocubrava – daria ao síndico noção da responsabilidade de sua incumbência.
Sim, desta vez seria derradeiro: na última, Ademar saiu todo cheio de espuma, enrolado na toalha rasgada, pelos corredores do prédio bradando irado sua revolta. Devido ao recorrente e inesperado corte d’água seus razoáveis gritos convidaram muitos vizinhos às janelas. A cena ridícula e o sarcasmo de um riso perdido desencadearam uma platéia às gargalhadas. Furioso no patamar dos fundos, entre vinte e quatro apartamentos, dezenas de vizinhos e parte da bunda adornando seu momento histérico através do buraco da toalha, Ademar bufou orgulhoso dos berros que ecoaram inaudíveis (ninguém verdadeiramente entendeu qualquer das palavras que esbravejara), para voltar-se ao seu apartamento surrando com tamanha força a porta que por um instante se fez profundíssimo silêncio entre os vizinhos, que durou pouco, retornando os maldosos risos após a confissão patética (e agora sim audível) de Ademar:
“Merda!”: Um segundo barulho menos forte foi logo possível identificar: o titilar metálico da maçaneta desmontanda em duas partes, cada qual caiu para um lado, trancando-o em casa e obrigando-o a chamar e receber um chaveiro – muito caro, por sinal – ainda de toalha (rasgada) e sabão na cara. Entre os moradores do prédio o episódio é até hoje comentado com violentos risos. Desta vez Ademar não toleraria as irregularidades do edifício. Desta vez ele vai ouvir, esse “desgraçado, incompetente”. “Vai ouvir agora!”, jurou, apertando uma batata.
Mal girara maçaneta vinha forçosa porta contra si numa torrente d’água invadindo apartamento, atirando-o ao chão, deixando-o tonto, desesperado, vendo todas coisas inundando d’água que abundava; a cada instante subia fatal, objetos boiavam e não havia tempo para pensar. Poltrona subiu rapidamente, flutuou, afundou. A panela com batatas navegava, girava, água já à cintura - se deu conta, seja lá que isso tudo, não podia mais ali. Sabia, é claro, que em caso de incêndio importante salvar documentos, mas os seus foram roubados na semana anterior, então restava... o que restava? Alguma coisa... que não conseguia lembrar! Os tapetes, talvez? Não! Ele não tinha tapetes!... Móveis? Mas como levar um móvel para fora de casa? Aliás, o que é isso? De onde vinha água? De baixo, de cima? Por quê, meu deus? Por quê?!
Então, num ato de bravura, decidido que o que houvesse para ser salvo era certo supérfluo a ponto de esquecido – sim, também os livros –, desistiu de examinar a casa para ir logo à porta e à saída. A água já no sovaco e faltavam muitos passos que seriam pesados. Decidiu nadar. Inspirou, desceu; ia-se puxando pelas pernas da mesa, pela quina da parede, “voando” baixo na cozinha até chegar ao corredor comum do andar; lá fora emergiu, o nível já no queixo. Sua cabeça nunca funcionou tão rápida: desta vez inspirou ainda mais fundo e mergulhou no estreito vão entre os apartamentos da frente e dos fundos. Com os olhos abertos via o brilho inquieto dos reflexos do sol n’água turva. A enchente já havia coberto tudo antes do sexto andar, e subia mais, desenfreada n’agitação de alto mar.
Na medida em que Ademar também subia, observava a tragédia dos que ficavam. Bens que deslizavam janela e porta à fora, papéis, cartas, calcinha, dinheiro, sujeira, garfo, livro, almofada; de camisola, a menina gorda do segundo andar subia sem esforços o dobro de sua velocidade; viu pela janela do 801 que Adelair, senhor bastante idoso, agarrava com as vísceras uma televisão 29 polegadas, na tentativa de salvá-la. O peso do aparelho, a fraqueza do velho e sua teimosia fizeram com que afundasse abraçado à TV, recusando-se a largá-la. Sua imagem desapareceu na escuridão, já não se enxergava nada abaixo do segundo andar. Á Ademar o ar faltava; faltava pouco para chegar e a pressão d'água quase lhe estouravam os olhos. Cérebro espremendo, pulmão prestes a ex-plo-dir, peito a ras-gar... de dentr pr f... Enfim chegou!
Salvo! No topo do prédio! Que cena! A cidade inteira, não só seu prédio, completo desastre! O que teria sido a causa? Não sei. Não se sabe. Ninguém tem certeza e todo boato é ouvido no tom de uma notícia urgente. Do alto de outros prédios, alguns que se salvaram gritavam aos outros “Foi a maldita poluição!!! Derreteu as calotas polares!”, “Tsunami!!!”, “Dilúvio!”, “É o Apocalipse!!!” e haviam, é claro, os existencialistas: “Minha avó! Minha avó ficou!”, “Verinha?!! Cadê você?!!!”, “Perdi tudo!!!”.
E num flash paralisante, Ademar lembrou finalmente do que havia esquecido em casa! O gato! Hans estava dentro da caixa de passear – quando Ademar levou-o para o veterinário esqueceu-se de soltá-lo! Meu deus!!! E dessa vez, sem pensar mesmo, respirou o mais fundo que pode e voltou a mergulhar, nadando com toda força, desesperado, heroico! No caminho roupas e objetos atrapalhavam, não permitindo ver algo maior que emergia, a mesa de cabeceira que, no susto, atingiu com a quina sua testa abrindo um rasgo, esfumaçando sangue n’água. A dor não foi sentida, pois não havia tempo: havia era de salvar o gato! E rápido, rápido!
De braçada em braçada nadou verticalmente até o fundo e na altura do terceiro andar, antes de contornar à sua porta, pôde avistar, estendido no solo da portaria, o velho com a TV sobre a barriga, nela agarrado, durinho, dentes trincados e olhos vidrados, rodeado por cardume de peixinhos curiosos. Abstraiu e entrou em casa. Em meio à zona d’área de serviço, caixas, tábuas, estava a maleta e Hans! Missão quase cumprida: agora é voltar! Deteu-se a um segundo do impulso para o topo: o gás ’tava ligado, a torneira aberta. Voltou, desligou, fechou. Segurava o ar. Também das chaves precisava, pois sabia saques. Fechar a porta dentro d’água foi uma experiência frustrada, na falta de ar lançou-a às favas. Com a maleta à mão, num só braço e no bater dos pés subiu sereno de saber que não esquecera nada, que fizera tudo o que pôde. Subiu com peito apertado – o pulmão no pico do oxigênio gasto – desamarravam-se-lhe as veias – suas vias já queriam sugar, agiriam independentes, tem que entrar ar, tem que entrar ar, acabou-lhe a força, não podia mais conter a necessidade de... emerge, respira, nasce. Renova o ar: o frescor da vida ainda viva, no alívio profundíssimo da morte que escoa pós-abraço!
Estranhamente não era o topo. A água baixara. Ao invés de quase transbordar, descera até o oitavo. Alcançou o beiral do corredor, subiu correndo escadas e do topo surpreendeu cidade seca, ofegou como se exigisse, mas lá estava ela, funcionando, e feia, como normalmente, como se nada... aliás, tão normal que era mais fácil acreditar tudo uma mentira.
Difícil entender. Voltou-se ao interior do prédio e não havia água alguma. O vão voltou a ser vão; em todo andar, o chão só um pouco molhado. Pegou o elevador até a portaria (gato na mala), viu magrelo zelador quieto, no âmago da humildade, empunhando o rodo, empurrando a água.
- Meu patrão! – alegre e contente – Hoje é dia de faxina!
Em resposta riu sem graça. Incrédulo. Perplexo.
Voltou ao seu terceiro andar, entrou em seu 302 e encontrou tudo sequinho, tudo no lugar. Soltou o gato. Na pia a bacia de batatas vazia d’água. Abriu a torneira (mais na falta do que fazer e do que pensar em relação a tudo o que se sucedera, do que para continuar a fazer seu suco). A torneira tossiu água marrom, vermelha na retosse e jorrou água límpida. Ademar banhou seus tubérculos. O suco de batatas nunca mais foi o mesmo.
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