Livro Marrom
Gabriel Schilling
Sossegado, Ademar tinha verdadeiro interesse pelo livro que lia, quando, do meio da praça em que estava, deu-se conta de que tudo o mais à sua volta fora tomado por um silêncio sepulcral. Mais um susto perceber que aquilo já o era há a certo tempo: na leitura absorvera-se perdendo a sucessão dos acontecimentos, que não havia nada nem ninguém. Não se via movimento ou ouvia vozes. Esquisito, muito esquisito – em pleno dia?!
Deitou o livro aberto sobre o banco, levantou. Quis não crer; desdenhou no cinto da calça, falseando a distração que não havia, para no instante seguido pudesse encher-se as vistas da atividade humana. Pois não. Nervoso, contrariado. Coçou bruscamente. Olha rápido todos lados que no vento, folhas secas riscam o chão, e não muda nada.
Tenso, disprestes a gritar, não pavor, ainda não. Não é possível isso, pensava. Um sonho lúcido? A praça, meu inconsciente, se aflora e me enjaula? Que enigma da mente? O purgatório na medida? Morri? Por que? Aliás: o quê?
O livro! Sim! Lia ao esvair-se o mundo; foi no meio da leitura - me deleitava... Voltar à vida foi um baque, tão densa a matéria da imaginação. E o que lia? Virou-se ao banco. Voltara os cinco passos recém mal esboçados no rumo da perplexidade. Ali se desfolhava no vento ritmado, pulsava, gritava – à volta algo mais vivo? Irritou-se na urgência de conter as folhas, imobilizar, extirpar do livro sua ensurdecedora opressão – é o livro? É o livro? Num golpe impulsivo, eficaz, cheio de temor, tomou-o, fechou-o, espremeu-o e sentiu o mundo se apertar sobre si e esperança de poder abrir de novo numa nova realidade.
Ademar em pé, frente ao banco, o livro na mão. Descomprimiu-se, vacilou três vezes, abriu os olhos. Completamente só na desolação da costumeira praça – normalmente cheia, jovens correndo, casais caminhando, bebês e babás, pipoqueiros, cães, crianças...pombos! Nem os pombos! A mais instintiva das tentativas falhara. Se funciona, mérito; quando falha....estupidez... Não há magia. Eu é que ainda não entendi o óbvio, não alcancei... Sou ridículo, mas assumo, ainda não entendi. Conferir o que li por último não seria inofensivo para quem já chegou ao cúmulo? A última coisa a fazer, na tentativa de entender o que... Cético. Havia decerto uma lógica para tudo aquilo. Logo tudo se tornaria claro. Há de se tornar! Tem que se tornar! Num ímpeto vasculhou pela página marcada, folheou sem cuidado e chegou, enfim, à última linha lida, a última sentença. A coisa mais imbecil primeiro, só para não ter que apelar para ela depois, no auge do desespero. E não era?
A linha dizia:
"(...) portanto, tudo que até agora foi visto não faz mais o menor sentido. Ler este livro não faz o menor sentido. Não há sentido na história, não há sentido no livro, não há sentido em ler. Não há sentido em ser, se o que se é carece de sentido até que se encontre um para se iludir. E qual o sentido em ter um sentido? Não tente entender. Não faria o menor sentido entender. Não há sentido em se ter um sentido, nem em se procurar um sentido, nem em se indagar sobre o sentido das coisas. Não há sentido em nada, nem há sentido em si. Esta frase que agora lê não faz o menor sentido, não busque sentido nela, assim como esta pessoa que escreve, não busque sentido nela; você não faz sentido, tal qual sua vida. Não entenda. É preciso cuidado: querer entender a vida dando-lhe um sentido pode fazer com que se viva para sempre o pior pesadelo, o sofrimento dos sofrimentos, (...)”
Desabestalhou-se, Ademar. Um momento de novidades. Para ele isso fazia todo sentido agora! Era, de fato, a frase que lera por último... Mas que bobagem, pensou, se lembrando que tentou entendê-la na primeira vez, dane-se, quer saber? Dane-se o sentido dessa frase! Dane-se o sentido da vida! Oras! Que questão inútil!
E como se absolutamente nada - nada! - houvesse acontecido de estranho naquele dia, voltou para casa pedindo antes licença ao senhor sentado ao seu lado, caminhando entre babás e bebês até a saída do parque cujo portão abarrotava-se em filas de crianças, umas pipoca, outras... Voltou aborrecido, com o humor de quem sempre se fode. E gosta.
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