quinta-feira, 29 de julho de 2010

O Escritor

Tarde da noite a porta se abre vindo com ele a fumaça do quarto. A cozinha estala no escuro, fria. Gole d’água e volta pra fumaça. Fecha a porta. Senta, se concentra, se levanta. Bufa. Olha pro nada. Senta, se concentra, não se concentra. ‘Agora vai!’ Escreve. A fome arde na barriga e os olhos secos perdem o foco. Força um pouco mais e o sono o derrota. Humilhado, deita. Cava o travesseiro com a fuça, remói uns minutos, e dorme.

No seu sonho está voando. Parado. De tanto sonho assim nunca de barriga pra cima! E um clarão amarelo densifica o morno do seu corpo que sua. A temperatura sobe, começa a estufar. Se aflige, abre os olhos, rios escorrem da testa e caem onde? Nada se vê a volta, só o todo amarelado. Escorrega lentamente para trás e se não fosse a culpa que sabe que tem, não previa um forno em chamas como execução final. Será fritado e lhe arderão os membros, a pele secará e os olhos saltarão. Indefeso! Quer sair, mas não consegue, quer ficar pro desfecho, que a curiosidade age ao lado da certeza de que aquilo não pode ser real. Deduz que para ficar no sonho não pode acordar. O desencanto de sentir a cama e o quarto o faz forçar a situação. Recapitula do começo e continua do último momento. Ainda vê e sente um pouco do ardor nas coxas, o repuxar da pele que rasga e os músculos que torcem. A caveira que grita o último amor, a última pena, o último desejo – talvez morrer de novo para gritar o nome certo. E quer mais, mas se evidencia o quarto quieto nessa manhã de cinza úmido... esfriando os pensamentos... fazendo-o aceitar o novo como punição maior, que nem metáforas podem atingir o desespero que há em levantar sem vida para o resto do dia.


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