quinta-feira, 29 de julho de 2010

Matagal



No escuro podia ver sem ser visto. Observava cuidadosamente aqueles que passavam pela trilha e não percebiam a presença por detrás do alto matagal. Imerso no instinto e no ritmo do silêncio. A respiração forte pulsava lentamente até o ponto em que era impossível ouvi-la.

Havia alguém em específico que entrara na clareira e se aproximara sem saber. Abriu o saco de pano que trazia consigo e dele retirou duas velas coloridas. Uma terceira vela era só um cotoco e foi logo acesa para iluminar a ação.

Ao serem ascendidas e fixadas com a própria cera derretida sobre uma pedra larga e chata, um ruído como um assobio seco chamara-lhe a atenção. Um morcego que voara baixo e sumiu totalmente? Apesar do leve susto e de ter se fixado em outras direções, durante um tempo, voltou abrir o saco sem notar a presença do observador. Este, por sua vez, estava amplamente atento, arraigado no labor da discrição absoluta.

Uma cobra gélida do nada surgira, rastejou fluídica sobre seu pé direito e no escuro desapareceu. Ele, por sua vez, resistiu a todos os impulsos de pavor e asco. Até ao sibilar, já não sabia nem de quem. Sem a mesma cautela desembrulhava ervas secas diante das três labaredas na clareira. A respiração mantinha-se no ritmo imperceptível que sustentando sua condição invisível.

Com as mãos esfregou em farelos folha após folha acumulando-as num recipiente de barro. Do bolso do casaco encheu a mão de um pó claro e mal cheiroso e do outro bolso um pó escuro. Desenhou em torno das velas círculo de enxofre e pólvora, com o cotoco ateou fogo – que ligeiro lambeu rastro em brilho intenso – proferindo em tom baixo três palavras.

O ar úmido e frio assumia uma personalidade. O ermo se tornou incômodo. O tempo transcorrido já era o suficiente para fatigar e lançar a impaciência sobre a espera. O assistido não despertava outros interesses. Sua feitura enfim tinha se acabado, fechara e trespassara o saco nas costas, apagara a menor vela e dera três passos para trás. Enfim virou as costas e enfiou-se no breu pela trilha de volta a algum lugar.

Apenas inspirando profundamente uma única vez, o que, com a concentração que mantinha na própria força, permitiu que duas passadas largas fossem o suficiente para alcançar a presa, terminou ali com tudo que pulsasse vida, perfurou, rasgou, comeu e bebeu, tudo, quase tudo, pois os ossos foram deixados. Limpou o rosto nos braços, espreguiçou e arrotou, foi embora e em torno das velas que continuaram acesas, o silêncio só não era total pois haviam pássaros noturnos, insetos e alguns outros bichos.


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