segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O o quê (22/7/2003)


O o quê


1

A futilidade que esconde a verdade,

Da dor, do dofrimento que se cria no imaginário

Das coisas que só fazem sentido se quiser.

A proteção contra o vazio.

Uma tal estabilidade. O que é normal? O que se cria?

E essa dor sem grito, esse sofrimento frio à espera de calor

e do canto gemido?]

O canto das flores,

Onde se enterra e semeia o amor.

Tal sofrimento que só existe num estranho meio-tempo

Do passado improvável que o curto prazer fez sumir.

Mentiu.

Iludidos os meus pontos-de-vista que, ao invés de praias

Viram neblina.

Chutasse o labirinto ao invés de entreter-se nele e acabar

se perdendo.]

Ele não era pra mim.

Mas eu acertei o erro, conserto o acerto e componho

um concerto.]

Certo e convicto. Não me pergunto mais.

Só digo que essa verdade não poderia ser escondida.

Nem disfarçada.

Ela é evidente e não é preciso videnciar o futuro para

conhecer qualquer]

Clara verdade.

Mas o faço, me protejo.

Fútil seria se não visse ao olhar. Amo o que sou. Aprendo

com o que fui]

E crio o que de mim será.



2

O o quê.

Vem depois da questão.

Parece um despertar.

Do quê?

É infinito dizer.

Mas parece uma perda de concentração.

Como se a plenitude de uma sensação fosse quebrada.

Relembrar de coisas já vividas, porém nunca existentes.

Como se vivesse numa pintura que, durante séculos,

Era tinta imóvel numa tela.

Ou fosse a melodia de uma música que não pára e não

se repete.]

Que exprime alguma sensação que só entende quem

a sente.]

Quem a tiver é o ar, é a árvore.

Pode ser o fogo gelado ou as geleiras quentes.

Pode ser eu.

Sou você.

Que como num ciclo, que o sólido se funde no líquido

E esse, na efervescência, trasforma-se em gasoso,

Condensa-se e logo solidifica-se de novo...

Então não há uma unidade nem disparidade.

Mas algo há.

Há, pelo menos na hora em que se pensa nesse algo.

E pode-se nem pensar.

Podemos usar a força que não há.

De repente o inexplicável não é para se entender. Só sentir.

Ninguém jamais compreenderia. É um erro. É inútil, e sentir

é mais fácil.]

É verdadeiro. É real. Talvez a única coisa realmente real.

Não é frio nem quente, nem poderia estar em algum lugar.

É inexistente.

Deguste com moderação – ânsia é descontrole e perda.

Quando acordar, será tudo um sonho.



3

O o quê vem depois da questão.

Sabemos que a sabedoria é infinita.

Como se entrássemos numa porta que levasse a um

corredor]

Com outras mil portas.

E cada uma delas levasse à criação e a devastação.

Algumas poderiam até levar a algum lugar interessante,

Mas sempre abririam-se outras portas,

E a questão nunca seria esclarecida por completo.

O quê vem depois da questão?

Não seria possível responder.

Procuramos respostas que satisfaçam nosso ego.

Apenas dentro de nós estariam elas. Ego seria a miopia da

percepção da verdade,]

Do nosso núcleo puro, calmo, pleno, confiante e repleto de

felicidade.]

Ego, esse que não vemos...

Questões e mais questões.

Se elas não existissem não haveria uma busca.

Não haveria com o que se preocupar nem um ‘porque’

de viver.]

Seríamos plenos.

Mas vivemos.

E, em vida não se pára de viver.

Talvez a diferença fosse que teríamos mais tranqüilidade

E teríamos mais certezas de nossa convicções,

E seriam essas, as nossoas razões de viver.

Ou seja, não viveríamos numa busca incessante por algo,

por nós,]

Por ser e ter o que quiser...

Muitas perguntas só abrem caminho para mais perguntas e

não encontram]

Nenhuma resposta.

Isso nos dá a sensação de sermos incapazes e de tudo ser

inútil, e incomoda.]

Não nos encomodemos. Tranquilizairmos!

É como se dormíssemos tranqüilos e acordássemos de

repente]

Para algo não necessário.

Tudo que vinha antes de acordar desaparece, deixa de ser

realidade]

E passa a ser chamado de um sonho.

E esse novo algo desnecessário é a questão.


Gabriel Schilling Springer Pitanga 22.7.2003

Ilustração: Gabriel Schilling Springer Pitanga,

"Mente Insana", 2003

2 comentários:

LNabuco disse...

E como são boas essas odes!!!
Você unifica e ao mesmo tempo separa lugares,pontos,construções...Quantos caminhos no teu pensamento...vou ter coisas a perguntar e a falar sobre cada um dos capítulos( posso chamar assim?) do seu poema.No terceiro interessante quando vc vai introduzindo o que é a sabedoria...infinita.Essa porta que leva a mil outras é o desdobramento do pensamento ,as inúmeras possibilidades de como vc bem diz de levar ou a criação ou a devastação...E quando vc menciona o ego míope vc é certeiro!O ego é o Belerofonte extravagante,cavaleiro inflado pela conquista de Pégaso...o Ego é esse personagem que se acredita maior e consegue sabotar nossas vitórias...Gabriel,seus escritos levam a mil portas da criação!

Priscila disse...

Não há nada mais humano do que essa vontade de continuar indo, isso é vida pura!
Uma vez, sonhei que eu e você caminhávamos entre montanhas, e você me dizia: a vida é um ciclo, mas a cada volta, descobrimos coisas diferentes. São as nossas mil portas que se desdobram em outras mil, quando nos recriamos! Mas ao mesmo tempo, há algo que permanece, o nosso núcleo, como vc disse! É em torno dele que vamos, e por mais que algumas portas nos façam sofrer, tudo isso faz parte do caminho. É saudável querer continuar essa busca. Talvez seja até um aspecto positivo do nosso ego; sua instabilidade! O que faz diferença é essa consciência que às vezes nos desperta, e tê-la e ao mesmo tempo poder sonhar é um grande dom, quick! dom de sonhar e despertar, e voltar ao sonho, quantas vezes quiser!
adorei o texto, causou mil reflexões muito boas^.^