O o quê
1
A futilidade que esconde a verdade,
Da dor, do dofrimento que se cria no imaginário
Das coisas que só fazem sentido se quiser.
A proteção contra o vazio.
Uma tal estabilidade. O que é normal? O que se cria?
E essa dor sem grito, esse sofrimento frio à espera de calor
e do canto gemido?]
O canto das flores,
Onde se enterra e semeia o amor.
Tal sofrimento que só existe num estranho meio-tempo
Do passado improvável que o curto prazer fez sumir.
Mentiu.
Iludidos os meus pontos-de-vista que, ao invés de praias
Viram neblina.
Chutasse o labirinto ao invés de entreter-se nele e acabar
se perdendo.]
Ele não era pra mim.
Mas eu acertei o erro, conserto o acerto e componho
um concerto.]
Certo e convicto. Não me pergunto mais.
Só digo que essa verdade não poderia ser escondida.
Nem disfarçada.
Ela é evidente e não é preciso videnciar o futuro para
conhecer qualquer]
Clara verdade.
Mas o faço, me protejo.
Fútil seria se não visse ao olhar. Amo o que sou. Aprendo
com o que fui]
E crio o que de mim será.
2
O o quê.
Vem depois da questão.
Parece um despertar.
Do quê?
É infinito dizer.
Mas parece uma perda de concentração.
Como se a plenitude de uma sensação fosse quebrada.
Relembrar de coisas já vividas, porém nunca existentes.
Como se vivesse numa pintura que, durante séculos,
Era tinta imóvel numa tela.
Ou fosse a melodia de uma música que não pára e não
se repete.]
Que exprime alguma sensação que só entende quem
a sente.]
Quem a tiver é o ar, é a árvore.
Pode ser o fogo gelado ou as geleiras quentes.
Pode ser eu.
Sou você.
Que como num ciclo, que o sólido se funde no líquido
E esse, na efervescência, trasforma-se em gasoso,
Condensa-se e logo solidifica-se de novo...
Então não há uma unidade nem disparidade.
Mas algo há.
Há, pelo menos na hora em que se pensa nesse algo.
E pode-se nem pensar.
Podemos usar a força que não há.
De repente o inexplicável não é para se entender. Só sentir.
Ninguém jamais compreenderia. É um erro. É inútil, e sentir
é mais fácil.]
É verdadeiro. É real. Talvez a única coisa realmente real.
Não é frio nem quente, nem poderia estar em algum lugar.
É inexistente.
Deguste com moderação – ânsia é descontrole e perda.
Quando acordar, será tudo um sonho.
3
O o quê vem depois da questão.
Sabemos que a sabedoria é infinita.
Como se entrássemos numa porta que levasse a um
corredor]
Com outras mil portas.
E cada uma delas levasse à criação e a devastação.
Algumas poderiam até levar a algum lugar interessante,
Mas sempre abririam-se outras portas,
E a questão nunca seria esclarecida por completo.
O quê vem depois da questão?
Não seria possível responder.
Procuramos respostas que satisfaçam nosso ego.
Apenas dentro de nós estariam elas. Ego seria a miopia da
percepção da verdade,]
Do nosso núcleo puro, calmo, pleno, confiante e repleto de
felicidade.]
Ego, esse que não vemos...
Questões e mais questões.
Se elas não existissem não haveria uma busca.
Não haveria com o que se preocupar nem um ‘porque’
de viver.]
Seríamos plenos.
Mas vivemos.
E, em vida não se pára de viver.
Talvez a diferença fosse que teríamos mais tranqüilidade
E teríamos mais certezas de nossa convicções,
E seriam essas, as nossoas razões de viver.
Ou seja, não viveríamos numa busca incessante por algo,
por nós,]
Por ser e ter o que quiser...
Muitas perguntas só abrem caminho para mais perguntas e
não encontram]
Nenhuma resposta.
Isso nos dá a sensação de sermos incapazes e de tudo ser
inútil, e incomoda.]
Não nos encomodemos. Tranquilizairmos!
É como se dormíssemos tranqüilos e acordássemos de
repente]
Para algo não necessário.
Tudo que vinha antes de acordar desaparece, deixa de ser
realidade]
E passa a ser chamado de um sonho.
E esse novo algo desnecessário é a questão.
Gabriel Schilling Springer Pitanga 22.7.2003
Ilustração: Gabriel Schilling Springer Pitanga,
"Mente Insana", 2003
2 comentários:
E como são boas essas odes!!!
Você unifica e ao mesmo tempo separa lugares,pontos,construções...Quantos caminhos no teu pensamento...vou ter coisas a perguntar e a falar sobre cada um dos capítulos( posso chamar assim?) do seu poema.No terceiro interessante quando vc vai introduzindo o que é a sabedoria...infinita.Essa porta que leva a mil outras é o desdobramento do pensamento ,as inúmeras possibilidades de como vc bem diz de levar ou a criação ou a devastação...E quando vc menciona o ego míope vc é certeiro!O ego é o Belerofonte extravagante,cavaleiro inflado pela conquista de Pégaso...o Ego é esse personagem que se acredita maior e consegue sabotar nossas vitórias...Gabriel,seus escritos levam a mil portas da criação!
Não há nada mais humano do que essa vontade de continuar indo, isso é vida pura!
Uma vez, sonhei que eu e você caminhávamos entre montanhas, e você me dizia: a vida é um ciclo, mas a cada volta, descobrimos coisas diferentes. São as nossas mil portas que se desdobram em outras mil, quando nos recriamos! Mas ao mesmo tempo, há algo que permanece, o nosso núcleo, como vc disse! É em torno dele que vamos, e por mais que algumas portas nos façam sofrer, tudo isso faz parte do caminho. É saudável querer continuar essa busca. Talvez seja até um aspecto positivo do nosso ego; sua instabilidade! O que faz diferença é essa consciência que às vezes nos desperta, e tê-la e ao mesmo tempo poder sonhar é um grande dom, quick! dom de sonhar e despertar, e voltar ao sonho, quantas vezes quiser!
adorei o texto, causou mil reflexões muito boas^.^
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