domingo, 11 de janeiro de 2009

Notas do pequeno empório da esbórnia de Ipanema 1.


As pessoas no ar, atordoadas, metafísicas, bêbadas. Num lugar muquifo, xilimbri, demônio. Onde ares sórdidos exalam de gestos insinuantes e de olhares hesitantes. Cheiro de tudo pode acontecer, dentro dos limites da decadência. Ambiente perverso, miscigenado, malcumbrado. Seres posudos, muito posudos demais. Uma exaltação da própria sensualidade, um circo no qual se mostram, e fazem, com o corpo, a fala e os gestos e com o jeito de olhar, o derradeiro show. Seres desesperados. Sexo.

*

Gente perdida. Corações confusos. Mentes difusas. Interesses sombrios. Sensações estranhas. Um lugar perfeito para rezar.

*

Ela sentou. Descruzou e cruzou as pernas três vezes, nervosa. Acendeu cigarro. Ambiente pútrido, gostoso. Marcou com pé o tempo, mas não sentia música. “Ali! Não, não era ninguém que...” Procura por cima de todas as cabeças a pessoa que não existe, ansiosa por sua chegada. “Ou um outro que...”
- Oi!... Qual seu nome?
- Vânia, encara forte e logo baixa os olhos.
- Eu vi você ali fora, agora aqui...
- É, eu tinha te visto também...
- Você é daqui? Não? Jeito lindo de falar... Parece...
Sem graça, faz que o som alto, “Quê?!”
No aperto das gentes se separam. Buscam o olhar do outro, mais gente passa e, na fresta, de propósito, não se vêem. Volta o espaço, ele hesita, passo à frente, senta, procura o seu olhar, sempre, disfarçado de quem não procura o seu olhar. A não ser que procurem juntos. E achem juntos. Força: Pergunta se bebe. O idiota não viu o copo óbvio ao lado, mas ela é boa:
- Depende do que.
Pede um vinho, ela franze, que o vinho bem baratinho.
- É o que mais gosto; docinho...
Não acontece nada.

*

Vânia desdenha pros lados, pro alto, pro som que não escuta. Ele quase a beija mil vezes, quase agarra, quase faz pra não deixar de fazer, por ser o que fazer. Quase. Esses impulsos, reprimidos, ela sente? Ou pulsa só nos próprios, nervosa de tanto estar só, com medo de não ser feliz. Ainda. Nunca. Sempre.
Não se fazem pessoas uma para a outra. Na boate ninguém serve para ninguém. E aí tudo vale. O álcool é o vale-transporte desta alucinação solitária.
- Mas... Você é daqui mesmo então?

*

Não se fazem mais pessoas uma para a outra. Na verdade, uma é para a outra. Qualquer.
Ninguém serve para ninguém. Todo mundo serve para todo mundo.
- Então... Você faz o que mesmo?
- Sou escritor. Alguns projetos...
Projeto é sempre só um projeto. Ela vê.
- Mas as paradas estão andando, várias coisas surgindo.
Só espera que ele pague a própria conta.
- Vânia, né?

*

Alegria, apesar de tudo. Um lugar onde todos perdem e ainda assim não cansam de comemorar. Todos à procura de algo melhor; pulsantes estão elas, porque o desejo, ele, atravessa as fronteiras do material: ele é infinito em sua busca pela felicidade.
Feios, bonitos. Uns gastam trezentos numa noite, outros não tem o que gastar nem tempo de pregar os botões que se soltaram nas noites de anteontem. Mas se encontram numa só conquista pessoal. Numa só confusão moral. Uma confusão que se alastra e identifica num lugar. Algo material. Local. Localizado em Ipanema, na rua que vai do Empório até a praia, nas areias onde maconham, vinham e cachaçam meninos e meninas de todas as línguas.
Rua da amargura perdida. Rua dos problemas que não existem mais. Rua do alívio possível. Das pernas de fora. Do bunda-lê-lê, do mergulho sem roupas nas ondas dos drinks. Às seis da manhã ninguém é alguém.
O esforço para se manter alguém perde o sentido. “Ser o que eu sou” se torna pesado.

*

Vânia enfim sentou sozinha numa mesa onde logo pessoas desconhecidas pediram licença para ocupar as cadeiras vazias. Feliz, por poder ter a companhia imaginária dos outros. Assistir a alegria em grupo como se fosse o dela. Rir das piadas sem rir da graça. Mas sua própria graça chamou Ariel. E quando Ariel notou em Vânia lábios carnudos de papel crepon onde não saíam palavras mas, carinho, do de cima; afeto, do de baixo; afago, do queixo às bochechas... só pôde continuar: Macia, doce, delicada. Eloqüênte em sua beleza; pulsante em seu decote, que exibia traços de uma maternidade latente, ainda invisível, promissora e confortável.
Via nela, escondida atrás de cada covinha, uma sensibilidade inocente, uma curiosidade picante, uma aprendiz caprichosa, uma fêmea completa, ríspida dos desejos, graciosa nos trejeitos, confusa nos anseios, entregue, firme, teimosa, louca, solta, vítima, coitada, mas culpada. Viu assim, tão inteiramente, Vânia, e Vânia viu nos olhos dele a si mesma, pois era o que refletia Ariel: seus pensamentos eram ela, e só ela, sem nem opinião ou julgamento: só via, descorria, notava, vagava. Ela estava lá, em seus olhos, toda. Ele era ela, por esquecer-se de si. Ambos eram um: ela. Sua entrega, a de Ariel, deveu-se a inconsciente entrega de Vânia que, antes de notá-lo notando-a, deixara-se inteira ao ar, para o ar respirá-la.
À entrega de Ariel, Vânia (agora consciente e com opção de bloquar-se), entregou-se ainda mais, pois que valor há no Homem, maior e mais belo, que deixar-se ao léu, solto, nú, vulnerável e contente?
A entrega de um dava forças irrefreáveis à entrega do outro. Ciclicamente. A tração deste momento raro, o funcionamento orgânico, fez-se culminar. Atrairam-se como pólos opostos em altíssima freqüência magnética. Não à toa beijaram-se surpresos por beijarem-se. Não à toa livraram-se tesos da sucção, mal se olharam (cada um a si mesmo nos olhos do outro) trancaram-se de novo, atracaram-se na necessidade última de serem a si mesmos. Em um só corpo. De terem no plano material grosseiro a prova fácil do que sentiam.
Ninguém se contenta em só beijar. Lá se foram. Perdidos em si mesmos, rolaram o universo escuro e estrelado nos momentos incontáveis, e desprendidos de tudo o mais. Ou melhor: de tudo e mais: os dois mundos numa orgia cultural davam-se em exagero acelerado, gastavam-se, varriam-se, desatomizavam-se...! tudo era posto pra fora. Tudo era absorvido. Nada faltou, nada sobrou.
Em um só beijo. Ninguém se contenta em só beijar. Ninguém se contenta - antes – em só olhar – nos olhos e perceber a pessoa –; antes, em saber a pessoa, intuí-la, sê-la, sem, contudo, definí-la (e assim), limitar-se. Ninguém precisa ficar preso em si. Mas ninguém (salvo raros) consegue deixar de necessitar o objeto. E ver-se assim. E depender disso. Um leve lapso é perder-se e diluir. No todo. Em Ariel, como com Vânia. Um leve lapso e já não se é mais o mesmo. Nunca mais.
Embora dificilmente você vá se lembrar do porque de tudo isso, e arduamente você sofrerá em busca daquilo novamente, como o cego que viu – de repente – e – de repente – deixou de ver. Como o mendigo que olhou em suas mãos o maço de notas, piscou, e não tornou a vê-las, permanecendo até a morte naquele lugar, naquenas roupas, louco de superstições e medos, “aquele maço estava aqui!” Embora dificilmente você vá se lembrar do porque de tudo isso, e arduamente você sofrerá em busca daquilo novamente, pouco fará sentido. Um leve lapso: tudo é sentido. Um instante: não há magia. Por que mais isto? Vânia quer saber. Mas de que adianta? Já não sabe mesmo. Um lapso para o infinito; para voltar no vago, no perdido. O beijo é seco, a vontade peca. A consciência dói de existir. Mata o instante. Sair de si, ir além; voltar a si e encontrar o vazio. Porque as coisas são assim: vazias de existência própria. Procurá-las? Sofrer? Viva a burrice coletiva que são calmos os eqüinos. Não são felizes nem infelizes. Contentam-se, humildes. Relincham de contentidão: a liberdade para vagar um mundo largo, pé ante pé, ligeiros em querer ser devagar. Cada mastigada é um dia inteiro. Cada dia inteiro uma vida. Cada vida, uma dádiva. Ah! Quem dera nós humanos pudéssemos lembrar de sermos organismos. De sermos apenas isso: vivos. E vivos ou mortos: vivos. Vivos em mortes, curtindo a dádiva eterna de cada etapa da inspiração, para poder, depois, expirar felizes, sacudir os braços, cantar aos céus, voar delírios e estar presente. A Vânia vê em si Vânia – e por isso sofre.

*

Notas do pequeno empório da esbórnia de Ipanema 2.

Empório é um bar tradicional. Em nada difere de qualquer outro bar tradicional. As pessoas se produzem para vir aqui. Especialmente eu. Não apenas roupa da moda: tem que ter estilo próprio; então, em casa, as pessoas se produzem cuidadosamente. Fazem artes plásticas e, por isso, posso dizer, são artistas. Claro que, por uma questão de (mal) gosto (que não se discute), não vou discutir internamente sobre quando vejo pessoas, digo, artistas, ruins. Nunca nos livramos deles – pra bem!, pois que dão-nos certeza de sermos bons.
Nos anos 20 e 30 inundavam-se os bares de uma atmosfera esfumaçada e (mas) empolgante. Havia algo crescente e com tom de “sem limites para crescer” fazendo com que freqüentadores (novos) desse mundo nunca mais o abandonassem. E se os velhos amigos não embarcassem , relegariam-se ao passado e te perderiam, pois você, ávido desse colosso existencial (dentro de um bar) lá faria novos amigos. Superficiais, talvez. Vagos. Inconstantes, certamente. (Uma família italiana em eterna festa). Mas o que há de comum e bom desses lugares e dessas pessoas, para quem faz negócios no mundo da arte, perfeitamente: é encontrar outros negociantes embebedados desse poderoso licor do topa tudo por dinheiro e arte. “Sucesso”, brilha em seus olhos. Espertos, sempre atentos ao encontro casual e esperado, com alguma alma gêmea do show-bussiness.
Assim, tudo isso, é o Empório. Igual aos bares dos anos 20 e 30 do blues e do jazz. Nada mudou. Ou é você que não percebe. Alienado demais ou imerso demais nesse aquário-de-diversões, onde, afinal, noventa por cento dos peixes só ali nadam por diversão e nada mais. Embora quem mesmo de divirta somos nós, os show-bussiness-men. Ganhamos a noite sempre. Na verdade, a noite somos nós.

*

Negociadores sabem de seu papel, e seu papel não difere do de Deus. Criar um universo completo para almas perdidas (se perderem ainda mais, sem a sensação de estarem perdidas). Elaborar meios para que homens e mulheres sintam-se, em suas vidas, só completos, porque há o bar, há a noite – e nela, música, astros, glamour, drogas e sexo. Eis o novo mundo. Eis-nos, os criadores. Para que se necessite de um bar noturno são usadas artimanhas psicológicas básicas, tais como a presença – no mesmo ambiente – de valores bem altos e de valores bem baixos (incluindo, obvia e necessariamente os tabus). Os tabus. Os tabus não são, na verdade, tabus. Eles são exaustivamente explorados por toda a mídia e a publicidade durante cada uma das 24 horas do dia – e – e: fazem parte da cartilha publicitária em toda sua absoluta extenção. Falo em tom de denúncia para os burros. Para os fãs, os aliados, os queridinhos (Estados Unidos) da América, os bons samaritanos, puritanos, nerds e eruditos. E para os que não sabem dançar.
Sou canastrão, por isso preciso de um disfarce. Uma razão para ter o que ser. Porque senão, não tenho que ser. E aí perco de vista o... a... Algo. Que nunca saberei o que é. Não sei o que é fazendo alguma coisa (e imerso num aquário pessoal) ou deixando de fazer alguma coisa. Nunca sei, nunca saberei. Ou melhor: fazendo alguma coisa (e distraído com as bolhinhas que faço dentro deste aquário) não me importo (ou me importo menos) com o... a... Algo. E ainda assim – e por isso – sinto-o perto. Encostando em mim toda hora. Sacaneando-me, por saber – o Algo (o Algo é algo que sabe de alguma coisa?) – que bastando querer tomá-lo para mim, é capaz de desaparecer por inteiro – deixar-me no vão, frustrado, prostrado, interrupto, gago, pequeno.
Pequenas manias fazem o homem inteiro. Por isso escolhi (sem saber que escolhia) um lugar. Uma bebida. Um jeito de dançar. Um jeito de olhar. Um jeito de não responder perguntas. Um de preencher a minha vida. Quando isso percebi, entendi que podia morrer. Era feliz.

*

Vi-me, pela primera vez, artista. Vi-me, pela primeira vez. Artista. O que é a arte, senão festejar-se?

*

Onde estás!?, que não aparece?! Sinto-te(u) olhar! Sinto-te vindo, sinto-te linda (será?). Gabo-me, claro; cadê-te, ao meu redor? Ver-te, dói? Venha! Saia! Tire de seus ombros o peso de tanta culpa! Curta! Curta a vida, que há muito a curtir (tudo), assim fazendo-a longa. Curta a vida curta. Junte-se a si mesmo(a) – esprema e cuspa a culpa. Sacuda seus ombros, embale. Saia de onde está, e vá, vá! Vá para nenhum lugar. Preencha-se, entupa-se, mate-se, de tanto eu, esse eu, que não sou eu, que não é você, que nunca é. Quem sou eu? Há! Há! Há! Uma piada. Contada, sempre; sempre recontada. Cada instante é nova, nova graça. Quem é você!?!?!! Ninguém!!!!!!!! Somos iguais! AAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!! – AAA – Há!, Há!, há, há!!!
Até a próxima. Graça.
Momento de curtição. Experiências. São sempre conscientes. Sempre eternas. Sempre presentes. Por isso, únicas.
Eu sou um homem de negócios. Cheio de negócios. Negócios à toda hora. Negócios pendurados por todos os lados. Negócios quando vou dormir, e quando durmo. Tenho negócios quando vou ao banheiro e quando frito ovos. Transformá-los – os negócios – em negócios é, para quem só pensa em negócios. Uma virtude digna dos que sabem fazer negócios à toda hora, com tudo, por tudo. Negócio mesmo é saber fazer negócio. É fazer do “fazer negócio” o seu maravilhoso ócio. Sair do ócio do fundo da lama e ir para o ócio do alto dos céus. Você – se já é experimentado – provavelmente já fazia negócios mesmo no fundo da lama. Só que sem saber. Agora, consciente, ganha dinheiro. Ganha virtude. Ganha certeza. Ganha a si, e se domina. Ganha qualquer mina. Pois sabe se negociar. Não é como o velho perdedor,... sem sapatos. É. É ótimo.

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O homem que se domina faz o seu mundo. O homem que se adora faz do mundo sua criação constante.

*

Da mania das pequenas manias fiz-me um. Com o mundo. Fiz-me todo. Começou no... talvez no Empório (?). Já não sei. Enxergo-me tal que não era assim que via-me. Via-me? Julgava-me! Vejo-me? Absolvo-me.
No Empório ou em algum trecho do caminho (sendo o empório, é claro, apenas parte – agora presente – do caminho) perdi-me da culpa, perdi-me do eu. “Eu” sou culpa. Eu era culpa. Tirei-a, pesada, dos ombros e (é tão fácil falar disso agora) dancei no ritmo do Universo.
Mania – agora – de dizer. É o alívio [poder desabafar (caso encerrado)]? É o sarcasmo? Ou auto-ajuda? [Para quem? (Eu é que não)]. Afirmação para poder dizer... para poder saber... Sei lá!... sei lá... o que é...
Sei lá! Não sei, não quero saber. Tenho pena de quem sabe. Porque eu não tenho mais paciência para isso. Bastam-me minhas pequenas manias.

*

Deus! Num mundo onde todos são escravos. Da minha imaginação e da minha virtude. Escravos submetidos ao meu humor (se sempre bom), à minha paciência, ao meu estilo. (Se sem bom humor, sem paciência e sem estilo, não sou Deus de nada).
Escravos de um estilo. Quem impõe? O Grande Show-Bussiness-Man. O canastrão faz a sua graça. Sacode o mundo com os ombros. Dando-lhe, de ombros. Ensinando-lhe isto. Ensinando-lhe nada. Em tudo. Eis tudo.
Tudo há, tudo existe. Nada há, nada existe. Eis tudo. E eu não disse nada. Eis na minha manga, a carta. A graça. Constante, pulsante, ritmada. Feliz (se) domesticada. Compreendida. Solta – é o seu natural. Seu necessário – seu impossível – sem saber o que significa, sem saber melhor do que isto (?).
De quantas formas vou ter que explicar (porque escrever é auto-explicação para mim mesmo.)? Todas. Sempre. Nenhuma. Nunca. Todas, nunca. Nenhuma, sempre. E não há o que ser, havendo o que.

*

Domínio de público. Deus. É ser todos.
É estar em suas mentes. É não ter a própria mente.
Ter todas e ser próprio.
O Grande Artista.
E sua grande arte.

*

Notas do pequeno empório da esbórnia de Ipanema 3.


Eu detesto falar alto. O barulho que permito disputar com minha voz é o do mar. Você está além desse lugar. Você espera esse lugar acabar, calmamente.
Não negarei o meu ser. Se hoje estou mais fraco é porque hoje é para eu estar mais fraco. E sei que posso, com certeza, nisso ver a vida melhor: porque é outra visão. É outro “ser”. Sou outro ser e ai de mim se tentar definí-lo: matarei-me e ao momento.
E sendo mais fraco, percebo minha virtude – onde ela está. É na sua ausência (da virtude) que acordo para a sua (ainda, da virtude) presença.
Você me entende, mas isso é tão sutil que não (me) entende. Fico tão só. Na minha loucura particular. Querendo respirar.
Na loucura paranóica de achar coisas como tal. De achar que não existe compreensão. Existe sim. Você viu. Eu vi. Na alma. É tão sutil que, certamente, transpor em palavras é bem difícil. Mas a compreensão da alma garante um segundo olhar. E assim ganhamos força para esperar o tempo passar. E saber que a hora certa as vezes demora. E que quando vier, pode ser certa para mim, mas não ainda para você. E pior: pode ser certa para mim e para outro alguém. Ou para você e não para mim. Ou para você e alguém. E não eu.
Quem tiver paciência saberá encarar a realidade. Seja, deus, o que for. Saberá. E estará (desde agora) bem.!
Eu tento fazer com que as cosias dêem certo. É o que eu faço. Trabalho pelo sucesso de todos. De quem estiver à minha frente e ao meu alcance. O sucesso dos outros depende, primeiro, de mim, que sou quem vai colocá-los no lugar certo e na hora certa. Depois, depende da pessoa que precisa ser esperta para perceber a oportunidade que dou. Ser talentosa é algo com que não precisa se preocupar. Se eu escolhi é porque já é. Depois, novamente, depende de mim. Da total confiança que em mim depositará. Da entrega. Entregar-se, significa não esperar nada. Se houver resquício de impaciência ou ansiedade, esse resquício poderá ruir o castelo e fazer desmoronar os planos mais bem intencionados que se pode ter. Aí não adianta nada.
Por isso é bom avisar: nem todo dia é dia. Esse trecho deve ser o pior de todos. Tem dias que não estou bom. Mas é preciso registrar isso. É preciso viver isso. É preciso viver tudo. Tudo o que vivo. Tem dias que é melhor nem sair de casa. Não falar com ninguém. Não dizer nada. Nesses dias é preciso descobrir o que é melhor de se fazer. Que insistir (nesses dias em que não é para nada acontecer e nos quais nada dará certo) em fazer o que faço normalmente é sempre uma furada. Dá tudo errado. Nada funciona. E assim vai. Digo, não vai. Não vai e assim vai da maneira que tem que ser.
Creio que deixar de ter forças, num dia como o de hoje, por exemplo, é descançar para poder ter forças novamente para os próximos dias. É preciso respeitar isso. É preciso saber sentir. E relaxar. “Foda-se!”, virar pro lado e dormir mais cedo hoje. Se tudo pode, se sou livre, se nada devo e à ninguém temo, o que que tem abandonar o Empório? Deixar as pessoas dançarem e beberem sem mim, hoje, e quantas outras vezes, enquanto eu vou estar curtindo um sono gostoso?
Sei como é difícil virar a cara para a esbórnia. Ainda mais ali, logo ali em Ipanema. Num aconchego, num lugar pequeno. Logo eu, o próprio pequeno ser, organismo vivo, bactéria, lactobacilo de uma grande teta. Sugada pelas piores bocas. Enfurecidas. Sexo.
Mas é só um dia.
Só hoje.
Aí me lembro de como mastigam os eqüinos,
E aí...

3 comentários:

LNabuco disse...

Muitas vezes passamos sem tomar conhecimento,perceber a essência do que é vivo ou até mesmo irreal.Cegos,andamos sempre em busca de olhos de segunda mão,usados,comprometidos pois já são míopes e estragados.
O homem é estrangeiro de si mesmo.
Quer a calma,quer a tempestade e necessita das duas.Estrangeiro por tentar encontrar o lugar...das questões que traz desde a infância.
Não conheço ninguém equivalente ao que você é.
Estranho ser indivisível.
Múltiplo ao mesmo tempo em variadas formas...
O que transborda dessa escrita é a pura verdade de olhos que não necessitam de superficialidades.
Um texto onde se percebe nostalgia e previsão...
Verdadeira fúria literária,escorre nu,puro e belo e você percebe o que há em volta.
Como se os personagens fossem produzidos no desejo,e depois transfigurados em quadros reais,e sabe-se que não são personagens...e sim verdadeiras aparições enquanto outros são visões futuras.
Então seu olhar acolhe o presente de forma aguçada,você tem fome de viver,fome de perceber o mundo.
Notável pelo tanto que exprime nesse empório da esbórnia.
Uma vida.
Pouca vida.
Muita vida.
Inesgotável escritor,poeta e artista.

Unknown disse...

Esse texto me fez pensar que o mundo é um grande Empório. Milhares de pessoas, e uma agitação (interna e externa) onde ninguém se vê. É estranho estar só e rodeado.
Acordar um belo dia e querer se afastar da multidão é mesmo, como você disse, um ato de respeito para consigo. Não é virar as costas ao mundo; é se ver para poder se dar. Sem se perder. E já não estamos tão sozinhos, quando nos enxergamos! Depois, voltar ao Empório e se entregar ao acaso, mas ao "acaso esperado" de quem se conhece, pois esperar é totalmente humano!

Unknown disse...

Também achei extremamente realista o mergulho que você deu para dentro desse rapaz. Ao mesmo tempo que se mistura na multidão, a consciência que ele tem de si é um tanto dolorosa e faz com que ele queira às vezes fugir, se ocupar de tudo menos ele. é interessante como ele vai se preocupando cada vez menos em ter respostas para as coisas, se torna menos rígido, respeita algo em si que não pode nomear e compreende melhor o que transcende palavras, como a ligação entre ele e a menina, que no início parecia deixá-lo mais nervoso.
sublime, viu? não sei se viajei muito, mas adorei^.^