1
2
João vai morrer. Por tudo o que ele fez. Vou matar João. Vou cortar ele da vida. Quem nem o facão corta o bambu, extirpá-lo da existência. Porque, a sua presença, mesmo longe daqui, cheira muito forte, atrapalha os pensamentos. Ele está me esganando, agorinha mesmo, de existir. Por poder estar rindo quando fala com um cumpadi. Ele não deve rir. Ele não pode rir. Se ele está rindo agora (isso que me arde!) eu não tenho como saber.
Então ele está rindo toda hora.
3
Vou juntar algumas coisas. Ver o que faço. Se lá eu vou, tem que tomar cuidado. Tem hora, tudo certinho. E eu não sei bem de algumas pessoas. Não dá pra dar mole.
Ele é safado, o cara. Então vou ter que ser mais safado do que ele... Vai ser quando eu ver aqueles olhos sequinhos de medo. Medo mesmo... Aí vai tá igual um animalzinho. Mansinho... Acuado, trêmulo, arregado... Mas nem ter imaginado eu ali. Não vai conseguir nem ganir de medo. Engasgar de medo.
Ciente de que vai perder a vida.
Vai ser aí que eu vingo.
4
Sonhei com onda gigante. Uns trinta metros pra cima de mim, era ela. Escurecendo já tipo umas seis da tarde, e a onda verde escuro, bem profundo.
Bem na minha frente, colossal. Interminável. Fatalidade.
Sair correndo ou enfrentar – inútil. Tremi. Tentar o que fosse não me tirava debaixo da explosão que ia ser. Ficar lá, parado, suicídio.
Fraquinho o corpo. Molinho.
Ali, eternamente pasmo.
Morto já, e vivo ainda.
Ai!
5
Ainda não sei bem como é que eu vou fazer, não consigo me concentrar direito. Não consigo me concentrar em nada. Só fico matando, matando, matando. E vou só ficar matando até matar ele de verdade.
Ai tudo vai mudar.
Eu mato aquele merda e acaba. Aí eu vou ficar em paz de novo. Vou fazer tudo o que eu quero. Aí vou realizar uns sonhos aí... Porra, porque como é que posso ficar tranqüilo pra fazer as minhas coisas com esses negócios desse cara? Como é que eu posso relaxar e ser feliz? Não dá, não dá. Não dá!
6
Não dá mais pra ficar enrolando, eu vou ter que fazer de qualquer jeito esse negócio, senão isso não sai é nunca. E porque não agüento mais essas paradas que estou pensando... Eu vou matar ele! E que se dane todo o resto! Vou até lá, pego a arma e encho aquela cara de bala. Aah! Eu preciso de uma arma. Preciso de uma arma... Isso já sei até onde arranjar. Falo com o Tuninho, falo que vou matar um cachorro doente e devolvo no outro dia. Aí o Tuninho nem liga. Já vi ele fazendo isso antes...
Deve estar cheio de sangue-ruim morto por aí.
E o Tuninho achando que é tudo cachorro doente.
7
Já fui lá hoje cedo no Tunim.
Tranqüilo.
“Bota no pacote que nego não encrenca”.
Botei.
Só agora me lembrei de umas coisas do João de antes de tudo acontecer. Ele era cabra-macho sim senhor, homem firme. Com ele não tinha jogo, ou era ou não era. Porra... a gente se divertiu as pampa. Filho da puta. Só ele fazia umas paradas que ninguém mais fazia. Pra curtir um perigo com alguém, tinha que ser com ele. Senão não tinha nem graça. Até quando a gente entrava bem era maneiro. O cara sabia se virar, falava com todo mundo, sabia sempre tudo que era necessário saber. Companheiraço, o cara. Teve até a vez que encheu um aí de porrada, porque o cara falou umas besteiras de mim. Puta!, como ele chutou a barriga do cara!... Aí depois tomamos umas cervejas! Não tem como esquecer essas coisas...
Mas à prova de bala ele não é.
2 comentários:
Inusitado
Inesperado
Irreverente
Irretocável
Impressionante
Inenarrável
Imagético
Inspirador
Íntimo
Imenso
Intenso
In vitro
das células quentes e expansivas de Gabriel...
Doentio e sem explicação, retratou muito bem as paranóias humanas!
como questões que passam a ser de honra mesmo que a gente nem lembre mais o motivo...
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