O Mendigo e o Rei
O nome dele é Joel, mendigo. Não há nada nele que vá mudar sua vida, nem nada que tenha algo a ver com você, exceto a loucura. Em sua mente se passam as idéias mais absurdas que alguém poderia ter. Ele, por exemplo, simplesmente não entende o porque dos homens não voarem. No começo até achava que fosse uma oportunidade que os mais ricos tivessem, em troca de muito dinheiro que os charlatães lhe cobrassem por algo tão fácil. Talvez assim acreditassem ter cada um deles um dom especial, enquanto que ele, Joel em pessoa, é capaz de voar à vontade. Ou pelo menos acha que voa. Muito diferente do que pensam os transeuntes, ao olhar aquele espécime negro de sujeira – a sujeira dos olhos de quem vê; vê só de relance, nunca estudando seus traços, jamais pretendendo encontar nele a beleza que é própria de todo e qualquer ser humano – vagabundeando por aí, letárgico, se distraindo infinitamente com qualquer coisa que lhe apareça diante dos olhos, fugindo incessantemente das possíveis linhas de pensamento (coisa muito feita pelos ocupadíssimos trabalhadores, que não são capazes de olhar serenamente para dentro de si mesmos, mas apenas nas minúcias de seus afazeres inférteis do dia-a-dia) – muito pelo contrário: ele está sim é concentrado, concentradíssimo!
Seu corpo ocupa espaço, importando isso muito pouco ou nada para quem por ele passa; já sua mente não ocupa, não é motivo de atenção na nossa reles realidade. Sua mente observa um palácio, um palácio árabe. Talvez ele não saiba o que seja palácio, ou o que seja árabe, mas é algo parecido com isso, o que ele imagina. E talvez até melhor, algo mais belo, mais majestoso... Porque ele não vê limites... - E ele é o Sultão. Onipotente, sempre agraciado pelas mais belas jovens, abanado por plumas gigantes, tendo seus pés massageados; e recebendo em mãos de um mensageiro oficial uma carta vinda de outro rei, de um país não muito distante, sem tantas relações comerciais, porém possuidor de vasta e belíssima cultura, algo muito apreciado pelo Sultão. A mensagem contém um convite dizendo em letras douradas que uma carruagem de dez cavalos estará disposta a levá-lo, acompanhado por trezentos soldados com o ministro desse país vizinho, para participar da festa à fantasia – a maior já realizada no Oriente e em todo o mundo. Na festa estarão os mais nobres e distintos representantes de toda a região, de muitos principados e capitais; ele não poderia deixar de ir, pois seria uma enorme tristeza para Kalendeodor, o rei de Naderl, o reino do topázio, do orégano e dos elefantes.
Faltavam duas semanas para a festa e Joel teria que pensar numa fantasia, uma que contesse ao mesmo tempo originalidade, chamasse a atenção pela irreverência, e representasse as mais ricas e exuberantes qualidades de seu país. Passou-se um dia e achou que estaria ótimo vestido de pássaro, um todo vermelho, cauda azul e máscara branca. Lembrou-se, porém, durante a audiência com seus conselheiros, que essa ave havia sido extinta de todo o reino. Porque o povo não a considerava importante, os antigos reis não viram porque usá-la como objeto de adoração. Sobraram-lhes as penas, enfeitando as cortesãs; e os bicos, servindo de calço de mesa ou puxador de gaveta. Havia algo, entretanto, que sempre chamava muita atenção de todos os seus conterrâneos e que era, enfim, adorado de todo o modo, estudado e elevado à característica máxima em importância tanto nas relações sociais, como nas escolhas, nos empregos, na literatura...; bem, só que para um rei não seria aconselhável ir nu, fantasiado de corpo para a festa. Inicialmente pensou que sempre escondido, era valioso; quando exposto, seria arte, mas nesse caso, o próprio rei representaria mal a cultura de seu país: seu corpo não era lá grandes coisas...
Nesse momento já tinha se passado uma semana (na sua cabeça, é claro, ainda no sol de 11:00 da manhã do mesmo dia do início desta narrativa); e da fantasia, nada. A corte se agitava, todos queriam ajudar, mas ninguém sabia dizer o que melhor representava a cultura daquele país. Houve uma cozinheira que, invadindo o salão principal, empurrando os guardas (ela era forte), apresentou ao rei (quase numa imposição) sua tese de que a comida daquele reino era a bandeira nacional, que o rei deveria ir vestido de cocada, que além dela saber fazer muito bem o doce, iria sugerir de quebra a imagem de coqueiros, de clima tropical, do turismo, praias, lucro, etc etc etc. Ainda se levasse coqueiros para a festa e desse-os de presente para cada um dos convidados, seria essa a única maneira de terem em seus jardins a lembrança do reino do rei Joel. Não tinha isso, entretanto, nada a ver com uma fantasia, e de nada serviria ir vestido de coqueiro, côco ou cocada. Nem dando a receita para todos os convidados, a festa não era dele e ele não tinha essa liberdade.
O rei pensou dois dias nesse assunto, comendo cocada, e percebeu a necessidade do objeto de sua fantasia ser inerente a todo o ser humano, independer de sua procedência.
Faltando dois dias, concluiu que o que de melhor seu país tinha era a própria alegria, a felicidade incondicional, a empolgação com as coisas boas e pequenas; e sabia que sua fantasia acabaria sendo mais simples do que imaginava. Tudo era uma questão de estado de espírito. Como representar isso numa roupa?
Foi então que, olhando pela janela e observando uns moleques jogando futebol, resolveu dar uma volta pelas ruas, e, para não ser importunado por chatos burrocratas do seu palácio, vestiu apenas uns trapos, encontrados no almoxarifado real. Desceu as escadas sem ser reconhecido, principalmente pelo seu Primeiro Ministro, que se soubesse por quem havia acabado de passar, teria feito todas as reverências que lembrasse, capacho que era; o que fez o rei quase morrer de rir e estragar seu plano. Ninguém o olhava, as damas o ignoravam, seus soldados davam-lhe as costas: era um simples vassalo. Chegando às ruas, caminhou até o boteco mais próximo para ver que tipo de assunto era comentado e o que poderia ser, afinal, popular e interessante o suficiente para servir de tema de sua fantasia. Sentou-se no balcão ao lado de um homem absolutamente podre de sujo, fedorento que nem um cavalo, sem quase nenhum dente e visivelmente inconsciente da sua realidade, pois ria, ria e não parava nunca de rir.
Perplexo e curioso, rei Joel não hesitou em dirigir-se ao mendigo, que foi logo se apresentando, fazendo alegres e desengonçadas reverências. Deu-lhe instintivamente um abraço muito empolgado e estendeu-lhe uma garrafa de qualquer coisa alcoólica. Mesmo provavelmente bêbado e contraditoriamente situado numa condição deplorável, o mendigo tinha em seus olhos algo de muito lúcido, jovial e muito, muito fraterno. Por um momento rei Joel tomou consciência de que havia se distraído um pouco de toda a sua busca e sua observação pesquisadora. Tinha até retribuído o abraço e agora falava como se fossem irmãos, ele e o mendigo. Voltou a se aperceber dos fatos e excitou-se muito com o que acontecia: conversava descontraidamente e completamente contagiado com a energia daquilo tudo. Falou alto, berrou, cantou – e isso sem beber, juntando-se com outros mendigos e freqüentadores daquele bar, ali presentes; e mandando a maior banana pro mundo, permanecendo lá até a noite.
Voltou quase de manhã para o palácio.
Para conseguir entrar foi fácil. Difícil foi convencer seus ministros, faltando um dia para a festa à fantasia, de que já tinha uma, que era perfeita e que a mostraria somente na hora da festa.
Tudo correu bem. A carruagem com seus dez cavalos, trezentos soldados e um ministro vieram todos e o levaram numa viagem de três dias – três dias em que se ouviram muitos risos e melodias vindas da carruagem do rei – e enfim estava já a festa em seu início (ela duraria quatro dias), ainda nas primeiras horas.
Apareceu, sendo observado com muito espanto por todos, vestido em trapos. Era, porém, o ser mais feliz, mais descontraído, simpático, eloqüente e bonachão de toda a festa. Provou, no início, que era mesmo o rei e aquilo era mesmo uma fantasia. Ninguém duvidava. Sua alegria era tanta... e a empolgação contagiou a todos que cada um se empolgava ainda mais, contagiando-se uns aos outros progressivamente, até terem, no final do quarto dia, decidido esticar a festa para seis dias, que logo virou uma semana. Todos marcaram em suas memórias o êxtase e em suas almas a verdade: que a felicidade é de graça. Isso só podia ter vindo de um rei, um ser nobre e sábio, tranqüilo, feliz e satisfeito. Joel, sentado entre as pernas da multidão, sobre a calçada mijada e cercado de barulho intenso e desnecessário – não via, não ouvia nem vivia isso. Isso era para os pobres humanos, verdadeiros merecedores de pena, tão concentrados em suas tarefas vãs que só se distraem e se afastam de suas prórprias vidas e de suas verdades. Viam Joel como mendigo, enquanto que ele era um rei.
O Mendigo e o Rei, de Gabriel Schilling Springer Pitanga - escrito em 21.3.2005
7 comentários:
Turbilhonante seu conto!!! Que delícia de leitura,inteligente,envolvente,um primor...Eu acho que já disse uma vez mas não canso de repetir.O Mago é detentor dos quatro elementos.E você é o dançarino das palavras.Elas voam nos seus escritos com leveza e liberdade criativa.Percebo o cuidado com os personagens,e no meio da história tem as reflexões íntimas e as alegrias nonsenses.Encantador e um cronista original!
Onze vidas em uma noite!! Onze expressões nada semelhantes e ricas em questionamento,estupor,sonhos,pausa,comédia.deboche,sombra,apelo insensatez de formas...embriagante Gabriel em sua viagem de sua persona.
Acho sim que elas se interagem bem com o conto,nelas vc é rei e mendigo e entre esse espaço tudo o que você sonha mostrar ao mundo.
O mundo precisa justamente dessa embriagante lucidez!
Com audácia e voracidade pela palavra, você conseguiu sintetizar o movimento e a estética num conto que nos lembra de resgatar dentro de nós mesmos (si mesmo) o nosso lado mendigo, a felicidade que se manifesta pelo não ter. Após você revelar que monge nada mais é do que "aquele que vive de esmolas" o rei poderia ser muito bem denominado por "aquele que vive de tributos". É de se supor que o rei é um enviado dos deuses assim como o monge/mendigo, ambos exercem a mesma função: viver de esmolas em extremos diferentes! Grande abraço
Belíssimo...
é realmente um conto que mexe com a gente, porque toca na nossa pureza.
quem sabe se enquanto sentimos pena de um mendigo ele se considera sortudo como um rei, por perceber coisas a que não damos importância?
lembro-me do Michael K, que não precisava de muito (talvez de nada) para estar em paz. Privado de muitas coisas da vida em sociedade, ele se encontra com algo essencial em todos nós. Tinha uma tranquilidade que superava as condições dele.
vejo nos dois algo em comum, essa nudez diante da vida. o tempo, como você disse, para reparar em tudo, inclusive em si mesmos...
e saber apreciar o que não tem preço!
além de tudo, divertido de ler, e faz a gente voar junto com Joel!
Exatamente em 11/08/2005 as 23h te encontrei, e depois conheci um pouco... E escrevemos um bocado... Planejamos peças; ejetamos textos... Com razão, e falta de tempo, nos livramos e insistimos em não bloquear um ao outro! Seria uma perda irremediável ao futuro das novas letras.
Sugiro que poste algum trecho de conversa nossa nesse blog, que tão bem justificado, até mereceria um espaço as antigas e desajustadas referências... "Eu" no caso...
Ao meu 1º colega de poesia-virto-marginal...
Jactantes Cumprimentos.
p.s.: Sim! Sim! Concordo orgulhosamente com os outros comentários!
Li denovo!
Joel é vidente! Joel já nasceu enchergando alem da natureza das coisas...
Aproveito esse espaço para declarar que tenho um amor... E que esse amor me tem feito enchergar a natureza das coisas... Portanto; eu, vc, Joel, e todas as pessoas que postam aqui estam nessa dimensão contemplativa PARA a realidade desse tempo, dessa modernidade...
Grata....
Á Arte ( em especial ao doc. "Janela da Alma"), ao Amor e as respostas sem as perguntas mediocres de sempre!
Um bjo de Vitória.
Postar um comentário