segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

DMT X Budismo + bônus


Caro XXXX, eu li o artigo http://enteogenos.wordpress.com/2006/07/30/budismo-e-dmt/ e escrevi um texto pensando em “responder” ao artigo dando a minha opinião. Antes, porém, mandei para o meu pai o artigo e o meu texto. Aí abaixo vai a nossa conversa.

Depois da conversa e do meu texto tem ainda um bônus. Espero que aprecie!


Conversa entre eu e meu pai:


[00:41:24] Badhra diz: estou lendo o artigo do link que você mandou


[00:42:43] gabrielssp diz: ok


[01:02:14] Badhra diz: o cara confunde o que os textos budistas dizem sobre 49 dias...


[01:02:53] gabrielssp diz: com certeza.. na verdade se o cara tem o mínimo de conhecimento budista não diria metade do que disse


[01:03:39] gabrielssp diz: mas eu apenas percebi isso. Que não dá pra dar crédito ao que ele diz sobre budismo. Sobre os 49 dias eu não sei como é que é.


[01:05:30] Badhra diz: O que se diz os textos budistas é que, após um máximo de 49 dias após a morte, a pessoa no samsara obtém um novo renascimento, e esse renascimento se dá com o encontro do sêmen do pai e do óvulo da mãe... ao passo que o cara sugere que o feto de 49 dias é que recebe a pessoa que renasce...


[01:06:02] gabrielssp diz: entendi


[01:07:06] Badhra diz: Certamente que 49 dias (7 semanas) após a fecundação é um momento importante, que é descrito nos tantras médicos e de Kalachakra, mas o ingresso da pessoa que renasce no novo corpo se dá no momento da fecundação


[01:07:52] gabrielssp diz: e quanto ao estado mental dessa pessoa, a partir da fecundação até o nascimento?


[01:08:27] gabrielssp diz: e por que esse número, 49? duas vezes...


[01:15:54] Badhra diz: Durante os aproximadamente 9 meses entre a fecundação e o nascimento o embrião e depois o feto se desenvolve, de acordo com etapas explicadas nos textos a que me referi, que falam do desenvolvimento em termos de semanas (o que inclui 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 semanas etc). Certamente que 7 semanas é um período importante. Quanto ao estado mental, é semelhante ao do bardo (estado intermediário), de onde vem a pessoa que renasce, em que os pranas grosseiros não estão ativos, apenas os pranas sutis, e por isso fica esquecido quando os pranas grosseiros entram em atividade (de modo semelhante aos sonhos). Os budistas descobriram o inconsciente milhares de anos atrás, Schopenhauer aprendeu isso com o budismo e reconheceu sua origem, e Freud copiou e comercializou a descoberta sem reconhecer publicamente sua origem (no caso, Schopenhauer).


[01:19:30] Badhra diz: E todos esses estados são recapitulados diariamente no curso da meditação do Vajrayana, como na sadhana de Guhyasamaja (cuja iniciação você recebeu).


[01:22:49] Badhra diz: o português do tradutor é abominável!


[01:29:39] gabrielssp diz: e quanto a glândula pineal?


[01:31:35] Badhra diz: não sei o que os textos budistas falam a respeito dela, teria que pesquisar!


[01:36:17] Badhra diz: o cara vai ouvindo galo cantar e fazendo teorias despirocadas...


[01:38:01] gabrielssp diz: já leu o artigo todo?


[01:38:05] Badhra diz: terminando...


[01:39:01] gabrielssp diz: basicamente esse cientista diz: “fiz experimentos com alucinógenos, e para divulgá-los estou relacionando-os ao budismo, assim, quem sabe não tem um marketing legal?”


[01:39:35] Badhra diz: confunde-se a experiência de luminosidade com "iluminação" (cujo termo sânscrito, bodhi, significa despertar...) (Nota minha, do Gabriel: um vislumbramento, que é a experiência de ver um pouco mais além do que o de costume, não tem em absoluto nada que ver com iluminação, que é o desapego total – e se total, é para sempre, e não por 15 minutos...l)


[01:41:10] Badhra diz: além da superficialidade e utilitarismo com que se refere ao budismo... muito típico! (Nota minha, do Gabriel: geralmente pessoas que não conhecem o budismo, mas gostam de comentar sobre o assunto, encaram o budismo meramente como argumentativo e intelectivo. O que elas não sabem, seja por pouco estudo, seja por desleixo ou mesmo para tirar algum proveito, é que, pelo contrário, o budismo busca justamente transcender a intelecção. Budismo não é uma série de argumentos que procuram convencer as pessoas a serem felizes. Longe disso. Tanto Buddha quanto todos os grandes mestres rejeitam a afirmação de um aluno quando notam que sua afirmação partiu da auto-persuasão ao invés da experimentação pessoal. Ele leu, entendeu o que leu apenas ‘de longe’, ou seja, intelectualmente. A experimentação não aconteceu, e por isso o aluno fala e afirma, mas não sabe do que está falando e afirmando. Nesse ponto – bastante superficial – é que muitos pseudo-budistas, budistas leigos e palpiteiros se encontram. Rick Strassman serve perfeitamente como exemplo).


[01:50:54] Badhra diz: no último parágrafo chega a ser gritante a oferta de serviços... vou ler agora sua resposta...


[01:51:47] gabrielssp diz: ok


(Nota minha, do Gabriel: Último parágrafo do artigo do cientista: “Além disso, praticantes budistas dedicados com pouco sucesso em suas meditações, mas bem desenvolvidos em aspectos morais e intelectuais, poderiam se beneficiar de uma sessão psicodélica cuidadosamente agendada, preparada e supervisionada, para acelerar sua prática. Psicodélicos fornecem uma visão que -- para alguém inclinado -- pode inspirar o trabalho duro necessário para fazer dessa visão uma realidade viva.”)


[01:52:39] Badhra diz: pronto, o cara fundou uma nova religião, que une o budismo e os psicodélicos sob a orientação segura do novo guru!


[01:52:59] gabrielssp diz: é..


[01:53:48] Badhra diz: puxa seu email é enorme, maior que o artigo!


[02:02:14] Badhra diz: seu texto está excelente, mil vezes mais útil que o artigo comentado! você deveria fazer um blog!


[02:03:44] gabrielssp diz: ehehe


[02:03:47] gabrielssp diz: brigado


[02:04:13] Badhra diz: Talvez você tenha um texto Zen chamado "Confiança na mente", no livro Textos Budistas e Zen-budistas


[02:06:00] Badhra diz: aqui está o texto em inglês, vou ver se o acho na internet em português


[02:06:02] Badhra diz: http://www.kwanumzen.com/primarypoint/v16n1-1998-winter-gmzm-trustinginmind.html


[02:07:12] Badhra diz: aqui vai uma versão em português

http://cantarprimavera.blogspot.com/2008/01/confiana-na-mente.html


[02:08:25] gabrielssp diz: legal!!


[02:08:39] gabrielssp diz: é um texto muito conhecido?


[02:09:03] Badhra diz: sim, e se tiver no livro Textos Budistas e Zen budistas a tradução pode ser melhor


[02:23:57] gabrielssp diz: mas ele é muito antigo?


[02:43:46] Badhra diz: sim, é um texto muito antigo, talvez 1000 anos...


[02:44:05] Badhra diz: quando Zen ainda era Ch'an, na China


Texto que eu escrevi após ler o artigo do cientista:


Oi! Eu li o artigo. Muito interessante.


A questão da briga entre o cientista e a comunidade budista é muito simples: O estado elevado da mente - o estado em que a mente compreende melhor (ou perfeitamente) a realidade é um estado que o ser humano tem capacidade de alcançar sem qualquer droga. O ideal é estar bastante puro, sem ser consumidor de carne, álcool, açúcar, etc., que são substâncias que (assim como o DMT pode estimular) atrapalham a sensibilidade perceptiva.


A diferença entre atingir tal estado com drogas ou sem drogas dá-se pelo fato de que através da droga nós somos impulsionados por forças exteriores. Enquanto que sem o uso de qualquer droga nós chegamos a tais estados com nossa própria força. No fim das contas é aquela história: quando caminhamos com os nossos próprios passos, podemos dizer que conhecemos muito bem todo o caminho. Quando pegamos uma carona, nos distraímos bastante daquilo que se passou pelo caminho e nem sempre sabemos onde estamos e como chegamos.


A comunidade budista critica com toda a razão o uso de drogas simplesmente porque o bom estudante de budismo encontra nos textos budistas todo o ensinamento e conhecimento necessário para se chegar "lá" de maneira gradual e íntima, porque cada passo é experimentado com alta percepção. A consciência do praticante budista vai "crescendo" à medida em que ele vai "largando" para trás os preconceitos existenciais, ou seja, os apegos - o apego ao "eu". Em outras palavras, devido ao próprio esforço, a "mesma consciência de sempre" vai, na verdade, se alterando, deixando de ser a mesma, mas mantendo-se sempre completamente alerta, e nunca "fora", numa "viagem transformadora", contudo temporária.


A glândula pineal é amplamente estudada pelos indianos desde antes mesmo do budismo existir. O budismo desenvolveu a continuação desse estudo sob o novo ângulo dado por Siddarta Gautama, que o diferenciou bastante dos grupos religiosos que estudavam a glândula. O mesmo aconteceu em relação ao yoga, ao prana, aos canais centrais, aos chakras, à idéia de reencarnação e de iluminação. Já existiam antes do budismo, mas sob o ponto de vista de Siddarta, assumiu no budismo caráter bastante diferenciado.


O DMT, substância já existente no corpo humano, embora coibida devido a ação de outras substâncias também presentes no nosso corpo, é liberada através de exercícios corretos de meditação e de respiração.


É claro que depende de pessoa para pessoa - e também de um bom mestre e de um bom ensino através de fontes confiáveis (já que existem mestres de araque em cada esquina e em cada academia e livros espiritualistas confusos e enganosos) - o praticante pode levar centenas de encarnações até atingir pelos próprios passos a iluminação. Mesmo os que obtém a iluminação nessa vida, já estão percorrendo o caminho até ela há várias vidas anteriores. Mas começando o estudo sério e a prática correta, não há limite de tempo para se obter a iluminação. Dependendo de sua experiência de vidas passadas, apenas com uma prática correta o praticante pode obter a iluminação. Pode também obter em uma semana, em um mês, em um ano, em dez anos, em cem anos. Cada um tem o seu tempo e isso é irreparável. Cada um tem o seu tempo para compreender a realidade, para se desapegar (aos poucos ou imediatamente) de todos os apegos (e dO Apego).


Não se engane: o uso do DMT pode te dar certezas, mas se você é incapaz de manter a experiência vivida durante o momento do DMT para além dos 15 minutos, está aí a grande prova de que não se chegou lá com os passos próprios e de que, em não se chegando lá com os próprios passos, a experiência não passa de um vislumbre que - sim, pode nos beneficiar no sentido de nos dar certeza do caminho que seguimos, e forças para continuar o seguindo - mas praticamente nos devolve ao mesmo lugar. Lugar este que, por força do caráter e da confiança nos próprios esforços, já poderíamos ter obtido há muito tempo, sem o uso de qualquer droga que no-lo confirmasse.


A droga diz "sim, você está certo", e se está certo, se muitas das suas certezas se confirmaram, então há algo absurdo aí: como pode uma certeza se confirmar através de uma experiência em que você entra em contato mais profundo com a realidade? Antes do uso da droga, o seu contato com a realidade, através dos anos vividos, deu-te certezas, mas não deu confiança. A experiência com o DMT deu apenas confiança nas certezas que já possuía, e abriu espaço para desenvolver mais ainda estas certezas. Não está claro aí que a falta de atenção ao momento presente abala a certeza dele mesmo? De onde podemos extrair nossas certezas? Quando temos a chance de viver algo que nos valha uma experiência? Apenas no momento presente. A meditação budista leva o praticante a estar em contato cada vez mais real com o momento presente. A verdade é que estamos vivendo o presente com milhares de obstáculos entre nós e o presente. Obstáculos oriundos da ignorância acerca da realidade. Obstáculos que são como um muro entre nós e o momento presente. Obstáculos que nos impedem de viver com toda a capacidade o momento presente. Obstáculos que separam o momento presente para um lado e o "eu" para um outro lado. "Somos diferentes do momento presente", eis a triste condição humana. Já a condição budista, a condição do iluminado é: "Estamos totalmente integrados à realidade, estamos completamente abertos ao momento presente e, embora tenhamos um nome, um corpo e uma história cronológica, estas não passam de uma ilusão a qual nós não mais nos apegamos... Assim como não nos apegamos a coisa alguma: experimentamos todas elas, mas não carregamos conosco nada que atrapalhe a visão do momento presente. Não estamos no presente para ‘coletar’ experiências e carregá-las para o próximo momento. No próximo momento, a experiência ‘trazida’ é agora do passado, e atrapalha a vivência pura, totalmente aberta, desapegada que nos permite estar inteiramente no presente. No próximo momento, a experiência trazida do passado agora nos atrapalha, pois se a trouxemos conosco é porque algo em nós acredita precisar dela – é o apego. Apego que nos limita a uma nova experiência cerceada pelas impressões passadas.

A "confiança em nós mesmos" ou melhor, "a confiança nas experiências presentes" dependem de quão "abertos" estamos a elas. Aberto para vivê-las não significa somente "aceitar elas como elas são", mas não rotulá-las, não pensá-las. Senti-las assim como o capim se inclina quando o vento passa. Dançar com a experiência presente.

Em relação a inconsciente e consciente, diferentemente de Freud, que achava que tínhamos no inconsciente os registros primitivos, as sensações, sentimentos e idéias "escondidas", não exprimidas, e que deveriam vir à tona, vir ao consciente através do tratamento - diferentemente disso, Jung acreditava que o que se dava era bem o contrário: no inconsciente é que estão as noções claras acerca da realidade e o consciente é que está totalmente cego a isso, cheio de rotulações, apegos, falsas idéias, descontroladamente impulsionado a reagir de acordo com a cultura e o tempo em que existe. Segundo Jung, o consciente é que deve se abrir ao inconsciente. Para ele o consciente é uma prisão de conceitos úteis temporariamente, mas enganadores quanto a questão da realidade última. Já no inconsciente é que está a clara vivência do presente. E de vez em quando, quando o escutamos, temos intuições, temos experiências espirituais, vislumbramentos. Mas para escutá-lo intencionalmente e estar cada vez mais próximo a ele, é que é preciso nos desvincular das idéias ilusórias concebidas pelo consciente. Ou seja, desapegar-se da realidade em que cremos e não mais nos apegar ou crer: apenas experimentar. (Quanto a essa especificidade de inconsciente e consciente, posso recomendar um livro muito bom "Zen-budismo e Psicanálise" de D. T. Suzuki, Erich Fromm e Richard de Martino).



Bônus: Texto "Confiança na mente", escrito há mais de mil anos, na China e muito importante na bibliografia budista:


Confiança na mente


O caminho perfeito não possui dificuldades

Mas não faz distinções ou preferências;

Apenas quando não houver apego nem aversão

É que tudo surgirá de modo claro e aberto.

Porém, com a menor diferenciação,

As coisas se afastam mais do que o céu e a terra;

Se quiser o caminho bem aqui, diante de seus olhos,

Não concorde ou discorde dele.

A competição entre a aceitação e a rejeição

É uma doença para a mente;

Sem compreender o significado profundo,

Esforça-se em vão para aliviar os pensamentos.

O caminho é circular, é um vazio imenso

Em que nada falta e nada sobra;

É só por causa do escolher e do rejeitar

Que o caminho deixa de ser assim.

Não procure condicionamentos externos

Nem permaneça no vazio interno;

Quando a mente repousa na unidade,

O dualismo desaparece por si mesmo.

Se acalmar a mente detendo seu movimento,

Essa quietude fará movê-la ainda mais;

Enquanto estiver nesse dualismo,

Como poderá conhecer a unidade?

Onde a unidade não é total,

Os dois extremos perdem seu mérito;

Negar a realidade é o mesmo que afirmá-la,

Perseguir o vazio é afastar-se ainda mais dele.

As conversas e as preocupações

O farão se perder ainda mais;

Abandonando as conversas e as preocupações,

Não haverá por onde atravessar.

Voltando à raiz, o significado é obtido;

Seguindo luzes externas, sua origem é perdida;

Acendendo a própria luz interior,

Pode-se dominar o vazio do mundo que está diante de seus olhos.

Os desvios e as curvas do vazio

Surgem das visões iludidas;

Não há necessidade de buscar da verdade,

Apenas cesse essas visões.

Não fique no dualismo,

Cuidado, nunca vá até ele;

Enquanto houver o certo e o errado,

A mente estará perdida na confusão.

Os dois surgem por causa do um,

Mas também não se agarre ao um;

Quando a mente não é perturbada,

As dez mil coisas ficam sem ofensa.

Não há ofensa, não há dez mil coisas,

Nada de perturbação, nada de mente para trabalhar;

O sujeito só desaparece quando o objeto desaparece;

O objeto só desaparece quando o sujeito desaparece.

O objeto só é objeto por causa do sujeito,

O sujeito só é sujeito por causa do objeto;

Se quiser conhecer a relatividade dos dois,

Perceba que ambos estão no vazio.

"Um" vazio é como o "dois"

E cada vazio contém todas as dez mil coisas;

Quando não há diferenciação entre isso e aquilo,

Como poderia preferir uma a outra?

O grande caminho é largo e generoso;

Para ele, nada é fácil e nada é difícil;

As visões curtas são indecisas,

As visões rápidas são as mais demoradas.

Ter apego é jamais se libertar dos limites estreitos,

É seguir por um caminho errado;

Deixe isso para lá, deixe que as coisas sigam o próprio caminho,

Pois nada há de ir, nada há de ficar.

Siga a sua própria natureza e estará de acordo com o caminho,

Calmo, à vontade, livre dos apegos;

Quando os pensamentos estiverem restritos, estará contra a verdade

E eles se tornarão pesados, fracos e insatisfeitos.

Quando os pensamentos estão insatisfeitos, a mente é perturbada;

Por que cobiçar uma coisa e desprezar outra?

Se quiser entender o veículo único,

Não despreze os seis sentidos.

Você e a iluminação serão um só;

O sábio não age de nenhum modo especial,

Enquanto o ignorante amarra a si mesmo.

No Dharma não há este nem aquele, mas o ignorante ainda se apega.

Usar a mente para despertar a mente — existe contradição maior do que esta?

A ignorância origina as idéias de repouso e agitação;

Na iluminação, não existe o bom nem o mau;

Todos as formas de dualismo surgem de uma percepção falsa.

São como sonhos, fantasmas, flores no ar;

Por que se incomodar tentando alcançá-los?

Ganho e perda, certo e errado —

Livre-se deles de uma vez por todas!

Quando os olhos não se fecham no sono,

Os sonhos desaparecem por si mesmos;

Quando a mente não faz distinções,

As dez mil coisas são vistas como são, como se fossem uma coisa só.

Uma coisa só, de natureza misteriosa, densa, sem complicações,

Em que todas as dez mil coisas são vistas como uma unidade;

Todos voltam à origem e permanecem onde sempre estiveram,

Esquecendo o seu porquê, sendo impossível preferir um a outro.

Pare o movimento e o movimento desaparece;

Movendo-se a quietude, a quietude desaparece.

Mas quando não há essa dualidade,

Até mesmo a unidade deixa de existir.

O mundo absoluto, de onde não se pode passar,

Não é limitado por regras e medidas;

Na mente harmoniosa, existe a unidade

Em que todas as ações desaparecem.

Eliminados todos os temores e dúvidas,

A confiança verdadeira é fortalecida;

Absolutamente, não resta mais qualquer coisa,

Nada para se pensar, nada para se lembrar.

Na claridade vazia, sua luz brilha por si mesma,

Sem gastar as energias do corpo ou da mente,

No mundo que está além do pensamento,

Que não pode ser compreendido pela imaginação.


No mundo do Dharma das coisas como elas são,

Não há eu, nem outro;

Se entrar nessa percepção direta,

Só se pode dizer, "não-dualidade".

Na não-dualidade, tudo é unidade

E tudo está dentro dela;

Todos os sábios das dez direções

Querem chegar a essa origem.

Nessa origem, não há tempo nem espaço,

Um instante é dez mil anos,

Não existe "aqui" nem "não-aqui",

As dez direções estão bem diante de seus olhos.

O pequeno é igual ao grande

Pois todas as condições exteriores desaparecem;

O grande é igual ao pequeno

Pois não se pode ver limites internos.

Ser é não ser,

Não ser é ser;

Qualquer opinião diferente desta

Não deve ser mantida.

O um é o todo,

O todo é o um;

Se conseguir compreender isso,

Que preocupações não vão desaparecer?

Quando a confiança e a mente não são duas —

Quando não são duas, confiança e mente —

Todos os mundos se desintegram,

Sem passado, sem futuro, sem presente.

O caminho supremo não é difícil

Se você apenas não separar e escolher.

Nem amor nem ódio

E você entenderá claramente.

Esteja separado por um cabelo

E você estará tão separado quando o céu da terra.

Se quiser que ele apareça,

Não esteja a favor nem contra.

A favor e contra opõem-se um ao outro —

Esta é a doença da mente.

Sem reconhecer o princípio misterioso,

É inútil praticar a quietude.

O caminho é perfeito como o grande espaço,

Sem falta, sem excesso.

Por causa do apego e da rejeição,

Você não pode atingi-lo.

Não siga a existência condicionada;

Não permaneça na aceitação da vacuidade.

Na unidade e igualdade,

A confusão desaparece de si mesma.

Pare a atividade, retorne à calma,

E essa calma será ainda mais ativa.

Apenas estagnando na dualidade,

Como você poderia reconhecer a unidade?

Se falhar em penetrar a unidade,

Ambos os lugares perderão a sua função.

Expulse a existência e você cairá na inexistência;

Siga a vacuidade e você dará as costa para ela.

A fala e o pensamento excessivos

Desviam-no da harmonia com o caminho.

Corte a fala e o pensamento

E não haverá lugar que você não possa penetrar.

Retorne à raiz e atinja o princípio;

Siga iluminação e você a perderá.

Um momento de reversão da luz

É maior que a vacuidade anterior.

A vacuidade anterior é transformada;

Foi tudo um produto de visões deludidas.

Não há necessidade de procurar o real;

Apenas extinga as suas visões.

Não permaneça nas visões dualistas;

Tome cuidado para não correr atrás delas.

Assim que houver certo e errado,

A mente torna-se dispersa e perdida.

O dois vem do um,

Mas não mantenha nem mesmo o um.

Quando a mente não surge,

Os fenômenos miríades são sem defeito.

Sem defeito, sem fenômenos,

Sem surgimento, sem mente.

O sujeito é extinto com o objeto.

O objeto afunda com o sujeito.

O objeto é objeto por causa do sujeito;

O sujeito é sujeito por causa o objeto.

Saiba que os dois

São originalmente uma vacuidade.

Em uma vacuidade, os dois são o mesmo,

Contendo todos os fenômenos.

Não vendo sutil ou grosseiro,

Como poderia haver qualquer distorção?

O grande caminho é amplo,

Nem fácil nem difícil.

Com visões estreitas e dúvidas,

A pressa irá retardá-lo.

Apegue-se a ele e você perderá a medida;

A mente entrará em um caminho desviado.

Deixe-o ir e seja espontâneo,

Não experiencie ida ou permanência.

De acordo com a sua natureza, una-se com o caminho,

Vague à vontade, sem irritação.

Atado pelos pensamentos, você se separa do real;

E afundar em estupor é ruim.

Não é bom cansar o espírito.

Por que alternar entre aversão e afeição?

Se deseja entrar no grande veículo,

Não seja repelido pelo reino dos sentidos.

Sem aversão ao reino dos sentidos,

Você se torna um com a verdadeira iluminação.

O sábio não tem motivos;

Os tolos colocam-se em servidão.

Um fenômeno não é diferente de outro.

A mente deludida apega-se ao que quer que deseje.

Usando a mente para cultivar a mente —

Isto não é um grande erro?

A mente errante produz tranqüilidade e confusão;

Na iluminação, há gostos ou desgostos.

A dualidade de todas as coisas

Vem das discriminações falsas.

Um sonho, uma ilusão, uma flor no céu —

Como poderiam ser dignos de apego?

Ganho e perda, certo e errado —

Descarte-os todos de uma vez.

Se os olhos não se fecharem no sono,

Todos os sonhos cessarão por si mesmos.

Se a mente não discrimina,

Todos os fenômenos são de uma talidade.

A essência de uma talidade é profunda;

Imóvel, as coisas condicionadas são esquecidas.

Contemple todos os fenômenos como iguais

E você retornará às coisas como elas são.

Quando o sujeito desaparece,

Não pode haver medida ou comparação.

Pare a atividade e não há atividade;

Quando a atividade pára, não há descanso.

Já que dois não podem ser estabelecidos,

Como poderia haver um?

No próprio absoluto,

As regras e padrões não existem.

Desenvolva uma mente de equanimidade

E todos os atos são colocados em descanso.

As dúvidas ansiosas são completamente esclarecidas.

Faz-se a fé correta é feita ficar direita.

Nada fica para trás,

Nada pode ser lembrado.

Brilhante e vazia, funcionando naturalmente,

A mente não se esforça.

Não é um lugar de pensamento,

Difícil para a razão e emoção sondarem.

No reino dos fenômenos da verdadeira talidade,

Não há outra, não há si.

Estar de acordo com isto é vitalmente importante;

Refere-se apenas a "não-dois".

No "não-dois", todas as coisas estão em unidade;

Nada está incluído.

Os sábios através das dez direções,

Todos entram nestes princípios.

Este princípio não é apressado nem lento —

Um pensamento por dez mil anos.

Permanecem em lugar algum, porém em todos os lugares,

As dez direções estão bem diante de você.

O menor é ao mesmo tempo o maior

No reino onde a delusão é cortada.

O maior é ao mesmo tempo o menor;

Nenhum limite é visível.

A existência é precisamente a vacuidade;

A vacuidade é precisamente a existência.

Se for assim, então você não deve preservar isto.

Um é tudo; tudo é um.

Se você puder ser assim,

Por que se preocupar com não terminar?

Fé e mente não são duas;

Não-dualidade é fé na mente.

O caminho das palavras é cortado;

Não há passado, não há presente, não há futuro.


Um comentário:

LNabuco disse...

Um artigo impressionante!Você buscou aproximação e clareza e conseguiu.Não sendo conhecedora do budismo como você,ainda assim concordo em certos aspectos sobre a utilização de substâncias estranhas para transcender e alcançar a iluminação.A utilização de um apoio externo pode ser intenso na revelação do caminho interno mas não é durável.Como vc citou,nos cânones budistas o estudante encontra as diretrizes a percorrer.O DMT é um alucinógeno antes de tudo.Em Delfos a Pítia aspirava gases e profetizava em nome de Apolo.Desde esses tempos imemoriais o homem vem buscando respostas e certamnete a grande resposta está na busca lúcida do seu eu interno.Isso foi transmitido através dos séculos sob diversas formas...histórias,mitologias,contos de fadas...o Graal,esse objeto salvador e precioso está dentro de nós.Recusamos a admitir ou a enxergar a existência da divindade em nós.Divindade do ser humano que a meu ver é o que se poderia chamar de justo equilíbrio.