domingo, 23 de novembro de 2008

À Toa (21.6.2005)




- Gabriel, por que você está assim, tão feliz?
- Não faço a menor idéia!



Desde pequeno que eu tenho uma curiosidade enorme pelas coisas misteriosas da vida. Tudo relativo à origem do mundo, do Homem, das crenças. Sempre foi essa a minha busca: o sentido da vida. Antes era nebuloso definir dessa maneira, mas agora que tenho uma certa visão de ''fora'' sobre o meu passado, sei exatamente em que tipo de labirinto me perdia. E me recusava a sair lá de dentro enquanto não encontrasse algo como ''a resposta da equação do sentido da vida''. Queria ter uma ''fórmula'' escrita num papelzinho e tê-la guardada no bolso. Desafiava minha inteligência: ''ora, se tenho capacidade de pensar, de alguma forma há como resolver essa questão''. E estive caminhando sempre ao lado da resposta. Em cima, em baixo, dentro e fora. Entre. A um palmo de distância? Debaixo do nariz! A ficha não caía - mas claro! Nem iria cair! O que eu procurava não existia. E mesmo existindo (tendo eu consciência disso ou não) nada impedia de conhecer de fato a verdadeira felicidade. Eu estava era infectado por um tipo de pensamento, que - da forma mais abrangente, porém direta - só podia ser nomeado como ''pensamento ocidental''. Viciado em formas de pensar...

Os mistérios da vida vão sempre continuar. Sempre serei curioso. Há mil formas de explicar a origem do Homem, sua evolução e crenças. Entretanto não busco mais nada. Relativo a algo que me responda questões e me sacie a alma, dou por finalizada minha procura. O quê, agora? A vida continua, só que tenho cada novo instante para nascer. Um bebê, ao nascer, vê tudo novo. Ouve tudo novo. Sente tudo novo. Cresce, e a ilusão se esvai aos poucos. Se desilude na adolescência. Fica vazio. O momento presente já não significa nada para ele. Sente-se superior ao informar que nada na vida o surpreende. Sente-se velho. Resmunga. É triste. Se ele aceitar isso, só haverá sofrimento para sempre. E os sofrimentos irão se repetir e exaurí-lo. Por quê? Não vê nada de novo. Não está aberto a isso. A salvação? Só há uma chance: aprender com os momentos. Aprender com os sofrimentos; aprender com as felicidades momentâneas e com os momentos que não têm sentido. Não procurar alegria fora do momento presente. Seja qual for a situação sendo vivida. A criança é pura. Perde a pureza. Mas há como reconquistá-la. Através da sabedoria. A pureza não mais se perderá, se houver sabedoria para guiá-la.

Resumidamente, a diferença maior entre as filosofias ocidental e oriental é esta: uma procura o sentido da vida, sem se perguntar se de fato existe algum, nem se incomodando em querer saber se, afinal, é necessário ter esse conhecimento. A segunda ignora se há sentido ou não: ''já que vivemos e estamos aqui, como viver bem?'' - basta-nos algo que é independente, que é livre, que não se liga a nada (e daí a confusão dos anti-materialistas, que fogem do que é material, ao invés de apenas não depender interiormente deles) -, algo que não se explica. Palavras já tentaram encerrar uma definição, mas esse ''algo'' por definição, não se define. Sempre dá confusão: distorceram Deus, como ''alguém'' que criou o universo, um Deus personificado e distinto de sua criação. Empurraram para o futuro (Paraíso, Dia do Juízo Final, harém com sete virgens, vida eterna, etc.), puseram a uma distância inalcançável ''algo'' que está unicamente no presente. E ainda dizem que servem (muitas crenças) para religar (“religião”, do latim, religare) o Homem a ''algo'', enquanto só o afastam...

A verdadeira felicidade - se é esse um nome que se pode dar - só pode ser a felicidade causada por felicidade. Mas, e o que causa a felicidade, antes dela estar sendo vivida? Nada. Nada causa a felicidade (falo da verdadeira, a que sabemos que temos em seu momento presente e sempre a temos). Contudo, também não é preciso nada para provocá-la. Ela não é provocável, alcançável, ela não é efeito de nenhuma causa. Senão, jamais seria pura. Um bolo de cenoura não é feito de cenoura apenas. Então não é um bolo puramente de cenoura. Se esperarmos causas para a felicidade, obteremos alegrias momentâneas, seguidas de desilusões e a sensação incômoda de vazio - enquanto que este mesmo vazio poderia estar sendo sentido não como sensação incômoda, mas apenas como um vazio, afinal, o preenchimento dele pode causar tristezas ou alegrias passageiras, mas a verdadeira felicidade não será originada pelo que o preenche. Nem pelo que não o preenche.

Um dia caiu a ficha. Eu tive acesso a uma porta que me tirou de dentro do labirinto, sem, entretanto, sair de dentro dele. Os sentidos são diferentes. Descobri que a felicidade é independente do que sempre procurei: um sentido para ela. A teoria afasta da prática.

''Ao perguntar para uma garota se podia beijá-la (expondo em teoria a minha intenção), me separava da prática. A garota recusou, mas continuou em pé, sem se mover - ela queria beijar sim. Ela queria o beijo e não a pergunta. Mesmo depois de deixar óbvio o que eu queria (e ela idem, por não ir embora) insisti no assunto, ainda teorizando. E cada vez mais afastado da dita prática, o beijo assumia um papel de desejo a ser realizado, cristalizando-se assim, talvez cumprindo o que, pelo (mau) hábito, estava acostumado a viver. Uma satisfação pela metade. Uma pequena visão da perfeição. Um pobre devoto diante da imagem da divindade. Diminuído. Distante da Realização. O beijo era perfeito: isso era uma certeza. Era o que precisava para acalmar-se naquele momento. Só a visão da perfeição não bastava, queria tocá-la, vivê-la, mas já era tarde. Veio, em seguida, o sofrimento. E logo depois, o vazio: necessitava novamente de algo para servir de certeza de ''algo'' para preencher temporariamante, mais uma vez, o seu eterno vazio. E assim, sucessivamente, seguia a vida em todos os setores. Tentar enganar a alma com a felicidade falsa é viver distante da realização prática do presente. É estar no único instante que realmente podemos acreditar que existe... e desdenhá-lo, ignorá-lo, perdê-lo. Distrair-se com preocupações que não importam.''

No dia que estalei os dedos e disse: ''É isso! Entendi!'' – não havia entendido nada que se pudesse explicar. Na verdade posso escrever páginas e páginas sobre o assunto, que jamais tocarei o ponto central, a mosca, com minha flecha – não com palavras. Nem num conjunto de coisas. Nem na obra completa. Não existe um começo e um fim para dar à obra uma completude; há sim, sempre o infinito fluir das coisas. De todas as coisas. Se não capturamos a consciência de ''algo'', começamos a ter opiniões, a formular, a classificar, a querer mudar... a se insatisfazer e se incomodar. E no momento no qual acreditamos ter posse de alguma inteligência ou conhecimento... ou no qual simplesmente cremos ter o necessário para poder alguma coisa... conseguir o que queremos, o que precisamos, sermos dotados disso ou constituídos daquilo... então devemos parar tudo e esquecer absolutamente tudo o que fazemos ou pensamos. Sem remorso de perder. Sem preocupação de não relembrar. A idéia é justamente esquecer. Esquecer de tudo que serve, como entulho, para nos separar de ''algo''. E tudo serve para turvar nossa mente. Tudo faz impedir a plenitude de certo estado de consciência - um estado que muitas vezes avistamos de relance. E que nos aviva. Nos mantém curiosos.

“Algo” é uma noção de tudo sem ter que nos fiar em qualquer coisa. É a intuição, por desapego da razão e da emoção: Nada de nos fiar em justificativas lógicas (que no fundo não existem, são sempre sofisma), e nada de nos fiar em repercussões emotivas (que é o desequilíbrio entre as forças físicas e as espirituais). O desalinho está ao alcance de todos os seres que se apóiam no rápido caminho da emoção e da lógica – caminhos sempre pessoais e fechados, próprios de cada ser diferenciado do outro. Se a lógica fosse universal, seria como Deus: não seria preciso falar dela. Bastaria “ser em relação a ela” sem necessariamente saber disso. Lógica e emoção são derivações de delírios egoístas. Intuição é sensibilidade para com toda a existência – os outros seres, o tempo, o ambiente, o próprio organismo, a própria “missão” (ou seja, o sentido de existir), sem que seja preciso cálculos e avaliações. Sem ser necessária uma guerra emocional interna e externa para viver no mundo e se realizar. O sucesso em conseguir o que quer depende muito do que quer. Sei, como ser humano, assim posso afimar, que por trás de todo movimento e respiração há o desejo intenso de felicidade. Por trás das compras na feira, da guerra, do ódio, das brigas, da festa de aniversário e do passeio no parque há sempre a busca pela felicidade. É o que todos os humanos, conscientes disso ou não, procuram. Quando tiverem clareza desse real objetivo, terão clareza dos próprios atos, terão clareza de pensamento e, com muita simplicidade, enxergarão em si mesmos e no momento presente a real possibilidade de Felicidade.

A felicidade, a verdadeira, é à toa.
O sentido das coisas, ora, que se foda o sentido das coisas!



Foto 1 "chuva": Gabriel Schilling Springer Pitanga; Foto 2 "espelho redondo": Luciana Nabuco

Um comentário:

LNabuco disse...

Estou com a impressão,na verdade uma certeza de que você escreve pelo invisível.Quanto dom e potencial criativo e reflexivo...beira ao perigo sublime dos endiabrados,dos tocados pela graça.Pode-se ler várias vezes e sempre,sempre ter uma nova leitura.Hermes realmente é o senhor dos quatro elementos...