
Ilusão
1
Há momentos em nossa vida que nos sentimos extremamente seguros. Capazes de proezas, heroísmos. Capazes de fazer coisas impossíveis. Um tenor segurando a nota mais aguda, quando na verdade ele é um tímido. Um retraído. Um sonhador.
A distância entre o fazer e o sonhar.
Está pronto quando sonhamos, e isto afasta da realidade. Não é preciso ser feito. Já somos, já nos consideramos, já nos respeitamos, nos orgulhamos.
Sonhar, com tanta realidade, com tanta exatidão. Aquilo é.
Então eu sou.
2
Por trás de mim há morte. Muitos eu matei.
Corri atrás, persegui, rastreei, farejei.
Não dormi, não comi, tampouco pensei.
Era fome, era sono, era vontade de realizar, era tudo por aquilo.
E aquilo foi feito.
Veio o vazio. Os primeiros pensamentos, a reflexão. Morte do que?
Daí então, enfim estou na completa escuridão. Não tem mais sentido. Solto.
Aniquilado, já estou, só por pensar.
3
A morte é angústia. A vida da angústia é o desespero do homem.
O homem, enquanto apenas o homem de sempre, é a decadência.
E a vida dele, uma demonstração da decadência.
O nascimento é o mal, porque não há morte que seja matada.
Só há morte a facadas, por trás, E é pelo homem nunca se virar que ele morre.
É por temer a cara da morte.
...Que ele nasce.
4
Aquilo que sonha, a cada noite, muito além de otimismo, é a desilusão, é a cara da morte. (enfim)
Acordo. E não me lembro.
Sem enfim, nada foi feito. Não matei ninguém.
Já estávamos mortos.
5
Feliz, mentirosamente feliz, é o que vive de dia na sombra dos sonhos que sonhou à noite.
É o que esfrega o espigão em brasa, que arranha as costas, abre sulcos entre músculos e as veias, que desenterra os próprios ossos. Rói para sentir mais fome. Cava, para sentir mais sono. Mata, para sentir a morte. Morre.
Ele experimenta a felicidade, não lembra como, não sabe aonde.
Seus sonhos são todo dia, intensos, vagos. Intensos, vagos.
Mas é tão vago que tem só uma vaga intuição. Nem sabe descrever.
Menos ainda sabe que sabe.
Mas essa é a verdade!
6
Se ele soubesse, soubesse que não sabe, e soubesse que isso é saber,
Se sabendo disso, pudesse ser feliz ao mesmo tempo...
Se soubesse que a realidade é uma ilusão criada pela própia mente.
A mesma que criou seus sonhos...
O que é mais real? A infelicidade presente
ou a intensa felicidade intuitiva, a vaga lembrança de qualquer coisa? (Uma outra vida, vivida todo dia, uma outra história, forte demais para ser lembrada, livre demais para ser guardada. Real acima da capacidade de absorção) Somos o bagaço, os escombros. A história se passou (ontem, hoje e amanhã) e não registramos. O intenso esforço em registrar, dentro da ilusão de querer lembrar, mata por trás, a facadas.
O que está mais próximo de ser alcançado? A verdade?
ou outra verdade?
A verdadeira, a que pode ser vista e sentida como verdadeira? Ou a que nunca chega a ser verdade suficiente para poder nos escravizar?
Penso, logo penso que existo.
Estou acordado, mas estou longe de poder ver como se estivesse acordado.
7
Sinto como se metade da minha vida, a parte em que tudo é imaginação, fosse real.
Não real de acreditar nela, mas real de considerá-la um pouco. Só pra dizer que sonhei. Dos medíocres, não sou o pior. É isso.
Raramente sinto como se metade da minha vida, a parte em que tudo é imaginação, fosse real,
e nessa realidade pudesse acreditar como acredito na culpa do passado e no medo do futuro.
Mas quando acredito, ouso.
Quando ouso, refreei minha decadência por meio instante.
E percebo que algo glorioso aconteceu.
Sem saber o que, faço com que o fluxo decadente volte, e corra, livre, desimpedido.
E eu volto à realidade onde nada é real, apenas o presente, cheio de medo e de culpa.
As lembranças das façanhas, guardo numa memória que existe sem que eu acredite nela.
8
O fluxo é necessário ser um fluxo, assim como o sangue escorre e a morte não é imediata.
É necessário agonizar.
Por que não é como um golpe de machado, que decide, que separa as coisas?
Porque é um enigma.
E todo enigma tem solução.
9
Qual é a distância entre o fazer - o ser - e o sonhar?
É possível medir qual realidade criada pela mesma mente iludida é mais real?
É possível se definir usando critérios que se desmancham?
É possível ser?
Estar?
De onde parte a conclusão? Não é da própria mente?
A mesma que sabe tudo o que pode, e sabe que não pode tudo isso?
Essa mente é loucura.
Tudo é ilusão.

Gabriel Schilling Springer Pitanga
Ilustração 1: Gabriel Schilling Springer Pitanga, "Vazio 1", 28.6.2003
ilustração 2: Gabriel Schilling Springer Pitanga, "Vazio 2", 2003
Um comentário:
Visceral..Belo..Grandioso...Épico...
Gabriel que pune a mediocridade com um chicote certeiro no lombo dos covardes!
Postar um comentário