
Algumas vezes na vida senti algo estranho tipo uma febre alucinógena que deixa o corpo bem fraco. Faz parecer que tudo é falso, entretando não sinto mal-estar por isto; como se tudo importasse menos, pesasse menos, fosse ridículo e pouco para ser levado a sério. As pessoas, as palavras, as promessas, os projetos, as conversas.
Não vejo razão nenhuma para considerar o mundo, sequer com indiferença. Nada de bom nem nada de ruim, uma tranquilidade apenas.
Se dei importância a algo penso agora que era ilusão. Aquilo sim – não estar tranqüilo – parece meio insensato.
Lembro dos dias de verão em que pude passar tardes inteiras deitado na rede debaixo do quiosque de palha escura; as arvores quietas do jardim à volta moviam-se sonolentas de acordo com o vendo quase parado; a temperatura morna dava um ar de febre sossegada e eu podia fingir que a vida era só isso.
Se nestes dias eu não estivesse preocupado com os problemas do passado ou do futuro, certamente estaria sentindo o que sinto agora: corpo mole, fraqueza sem danos e conforto, algo de frouxo e nada de preocupações, só tranquilidade. Nada de melancolia ou aborrecimento, nada de tédio. Talvez esteja febril mesmo.
Deste jeito fica fácil imaginar a morte. Posso penetrar nos pensamentos e averiguar detalhes intocáveis que antes eram tabus sobre o momento em que o corpo pára. A calma não é sarcástica, nem a curiosidade leviana: Em estado de paz nada me é amedrontador, nada me é impressionante e nada me torna deslumbrado. Posso reconhecer em mim, nas minhas profundidades, coisas que sempre tive. Circunspeto e sincero. Nada me escapa. Pleno controle da mente e do corpo.
Imaginar a morte é morrer e continuar vivo para saber que não passa de um estado de transição, como qualquer outro a todo instante na vida. Nem meu corpo nem minha mente é permanente. O tempo não o é. As idéias ventam. Após perder o medo da morte, a vida é outra. Desapega-se das coisas que pertubam, não se sofre mais pelos apegos: por ter ou não ter. E perde-se principalmente a maior causa do sofrimento: o desejo de ser.
3 comentários:
Morte e vida
A experiência
Quase morte
Essência
de uma ida
Ida febril
Fogo e moleza
diria: é prazer
De acordo. Ver tudo com naturalidade está longe da indiferença. Não podemos ser tocados pelo que é natural?
Como a expressão dos três na foto, que passa serenidade, não apatia.
obs: não deixe de cuidar da febre só por isso!!!
Lindo o último parágrafo!
Me fez pensar na inutilidade de se perder o tempo em pequenezas mórbidas."As idéias ventam"...
Me fez lembrar Érico Veríssimo e o vento que percorre Ana Terra,Bibiana,O Continente e seus heróis...O vento que nunca chega sem razão...impermanência de tudo.
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